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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Os leitores que eventualmente passam por aqui já devem ter notado o silêncio virtual que tomou conta desse espaço nos últimos dois meses e tanto. Acho que o fato de estar todo esse tempo sem postar nada já explica várias coisas em si mesmo, mas mesmo assim os leitores e amigos merecem alguma satisfação. E esse post surge para romper o silêncio, ainda que avisando: daqui para a frente, o silêncio será permanente.
 
Estou encerrando as atividades do blog. Os motivos, como sempre, poderiam render um monte de conversa, mas acho que posso resumir tudo dizendo que não ando mais com vontade nenhuma de dizer absolutamente nada por aqui. Foi um espaço muito útil, no qual passei cerca de três anos expondo ideias e publicando textos que falavam de mim e do modo como eu encarava o mundo. Mas agora as coisas estão diferentes. Tenho desenvolvido há algum tempo um trabalho com o blog futebolístico Carta Na Manga, e estou muito feliz com o crescimento que ele tem tido. Atualmente, estamos incluídos entre os blogs parceiros do Sul21, uma iniciativa muito legal que eu espero que dê muito certo. Em outro sentido, estou disposto a retomar um velho e nunca concretizado projeto, sobre o qual não vou entrar em detalhes por enquanto, mas que vai envolver boa parte do meu tempo caso de fato se concretize. Ou seja, estarei fazendo bastante coisa na internet – e esse blog pessoal e sem foco simplesmente não combina mais com nada disso.

Por outro lado, a minha vida está mudando bastante também. Como quem leu meus posts no último ano e meio sabe, vivi um período de profundos questionamentos e muitas incertezas, tentando buscar um caminho que me levasse na direção dos meus sonhos. Não saiu como eu planejei, até porque coisas assim não dá para planejar – mas estou tomando decisões sérias, que vão fazer diferença na minha vida, e me convenci que não tenho mais tempo a perder. E, com toda a sinceridade, manter esse blog ativo seria uma perda de tempo para mim. O que eu podia dizer por meio dele eu já disse; o que ele podia me ajudar no sentido de entender a mim mesmo e ao mundo, ele já ajudou. Está na hora de fazer diferente – e é nessa direção que eu pretendo ir daqui para a frente.

Seguirei escrevendo, e não só para o Carta e para o novo projeto que talvez se concretize – quero retomar a produção literária, que ando negligenciando muito e que precisa de atenção e carinho da minha parte. Se eu quero que ela vá para algum lugar – e eu quero – preciso dar esse foco para ela também. Então boa parte do meu tempo livre vai para isso também.

Estão todos autorizados a retirar o blog de suas listas e blogrolls. O fim dele não é apenas retórico: em muito breve, coisa de um mês ou pouco mais, tirarei a página do ar de vez. Estou selecionando o que eu acho que merece ser preservado, e talvez no futuro esses textos escolhidos ressurjam em diferente roupagem; o resto, deletarei sem muita piedade.

Espero que não fique nenhuma impressão de amargura ou de tristeza nessa minha despedida. Pelo contrário: é uma decisão tranquila, feita com calma e até um certo alívio. Para os que estranham meu sumiço, bastante acentuado nos últimos meses, não se preocupem: estou bem, e em certos pontos posso inclusive dizer que nunca estive melhor. O que ainda está confuso ou fora de foco, pretendo corrigir nos próximos meses. E o caminho pode ser poeirento, a estrada dura de trilhar, mas as boas estradas estão esperando – e não tenho tempo a perder.

Saudações a todos, e nos vemos em breve. Isso é uma promessa!

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“Let me sing of the losers who lie
in the street as the last bus goes by
The pavements are empty, the gutters run red
while the fool toasts his god in the sky”.
Ian Anderson, “Thick As A brick” (1972)

De uns tempos para cá, a região onde moro em Porto Alegre tem se tornado cada vez mais generosa em figuras que chamaríamos “gente da rua” – ou seja, mendigos, sem-teto, prostitutas e desocupados em geral. Não que eu morasse em alguma espécie de paraíso onde esse tipo de coisa não existisse, mas é visível a presença crescente de pessoas do tipo numa área da cidade que, apesar dos pesares, costumava ser pouco freqüentada por elas. No fundo, é natural: Porto Alegre cresce em direção ao sul, e a metrópole traz consigo seus filhos e filhas, desgarrados que a seu modo sobrevivem melhor do que a maioria de nós no estômago da grande cidade.

Um dos meus não-tão-novos vizinhos é um morador de rua, que escolheu as quatro ou cinco quadras mais próximas do prédio onde moro como seu pouso habitual. Embora seja um homem saudável, trata-se visivelmente de uma pessoa que não está no pleno uso de suas faculdades mentais – um maluco, para falarmos de modo mais claro. Não é, no entanto, um louco hostil ou antipático – pelo contrário, até tenta de modo jovial se comunicar com as pessoas que passam por ele, embora a aspereza de sua voz, a insistência em ligar as idéias com um “né” quase onipresente e a incoerência de seus assuntos preferenciais geralmente afastem os transeuntes e impeçam uma comunicação mais aprofundada com seus interlocutores. Sua residência mais fixa ficava nas ruínas do que era a casa de uma amiga da minha avó, onde as duas se encontravam para jogar cartas e onde cheguei a entrar uma ou duas vezes, antes que a velha moradora morresse, minha vó se mudasse algumas vezes até morrer também e, ahn, enfim. E, como muitos outros loucos e desgraçados desta e de outras cidades mundo afora, por algum motivo o cidadão em questão simpatizou comigo, e sempre que me vê aproveita a deixa para puxar conversa – não muito profunda, muito menos coerente, mas ainda assim uma conversa.

Um dia desses, estava voltando para a casa depois de um dia especialmente desgastante de trabalho. Era um momento que eu sentia bastante ruim, para ser honesto, quando tudo na vida parecia se arrastar num ritmo tedioso rumo a lugar nenhum – bem diferente de hoje, quando a sensação de incerteza se mostra agradável e bem-vinda como talvez nunca antes na minha vida, mas enfim. A verdade é que naquele dia eu andava cabisbaixo, cansado e irritadiço, e ver o vulto do maluco no escuro diante da sua quase-moradia não era exatamente o que eu precisava para me sentir melhor. Baixei a cabeça, e tentei passar reto por ele sem dar tempo para que ele me dirigisse a palavra, como já havia dado certo em várias vezes anteriores; mas quando me aproximei um pouco mais, ele obviamente me viu, e ao invés de falar alguma bobagem sobre o tempo ou seu “trabalho” como “caseiro” do terreno abandonado, ele simplesmente me perguntou: “o senhor estuda, né?”. Olhei de relance para seu rosto, e vi que o homem estava bêbado. Talvez tivesse conseguido uma garrafa de cachaça ou vinho barato, e com ela tinha se embriagado de um modo que eu nunca tinha visto antes – de fato, acho que foi a primeira e única vez que vi o homem bêbado até hoje.

Talvez alguns estranhem o fato de eu ter voluntariamente parado no meio de uma rua escura, já tarde da noite, para conversar com um louco bêbado; mas foi o que fiz, acomodando a mochila nos ombros e dizendo que sim, eu tinha sido um estudante até há pouco tempo atrás, mas agora a faculdade tinha acabado e eu estava trabalhando, sem freqüentar aulas nem nada disso. A partir daí a conversa avançou um pouco, mas não muito – ele perguntou onde eu estudava, disse que jornalismo era “uma profissão importante” e mais algumas coisas que não lembro. Quando o silêncio caiu, olhei para o céu estrelado acima de nós, e o homem – com uma perspicácia que talvez não esperemos ver em pessoas que julgamos simplórias ou loucas – disse: “tá bonita a noite, né?”. Eu concordei, e ele aproveitou a deixa para entrar no assunto que de fato o interessava, dizendo “hoje é aniversário da minha avó, sabia?”.

Explicou-me então que a bebedeira que tinha tomado era em homenagem à sua falecida avó – “eu não sou de bebida, né”, lembro dele dizendo, “mas eu tava me sentindo mal, né, e bebi um pouco, uma garrafinha que eu consegui, né?”. Soube então que o louco que eu geralmente encarava como um pequeno incômodo eventual havia sido criado pela avó paterna, pessoa que ele considerava sua mãe de fato, e a quem tencionava homenagear naquela data. Aparentemente, a mãe biológica não tinha sido exatamente boa com ele, pois em determinado momento ele quase gritou: “minha mãe era a minha vó, porque minha mãe mesmo era uma vagabunda, né, me odiava e eu odiava ela!”.  Fiquei ouvindo, e o homem se emocionou mais ainda, dizendo que já tinha tido “coisas de gente importante” e agora não tinha nada e não se importava com isso, mas sentia saudades de sua avó e queria que ela ainda pudesse estar tomando conta dele. “Mas é assim, né? A vida é assim mesmo”, disse, e subitamente se voltou em direção às ruínas que chamava de casa, virando as costas para mim e murmurando uns “fique com Deus, né? O senhor fique com Deus” enquanto ia em direção à escuridão onde se sentia seguro e onde ninguém o poderia ver.

Achei, no momento, que a súbita retirada tinha sido um gesto de timidez de um homem que se viu prestes a chorar diante de um quase-desconhecido; fosse como fosse, pensei um bocado no que ele havia me dito, e voltei a pensar bastante nisso nos últimos dias. É que começaram a construir uma nova residência no terreno onde ficava a quase-casa do homem; passo seguidamente lá, e mais de uma vez vi homens trabalhando na limpeza do terreno e na instalação de alicerces para um novo empreendimento qualquer. Foi ontem, passando pelo terreno em questão, que lembrei dessa pequena história, e me dei conta de que já quase nem via mais o protagonista dela. Desde que ficou definitivamente sem lar ou esconderijo, o maluco que às vezes me parava na rua para conversar meio que sumiu; talvez ele tenha aparecido uma ou duas vezes por ali, mas acho que a essa altura deve ter partido, em busca de outro lugar onde se sentisse mais à vontade. E eu fico pensando em como uma pessoa que quase nem pessoa é mais, alguém pelo qual passamos ao largo e tentamos evitar como um incômodo ou uma doença, mesmo assim tem uma história, uma vida, coisas que nos ligam a ela e que, por repugnância ou desprezo, nos recusamos a enxergar. Penso nas muitas vezes que passei por ele rápido para não dar chance de ele falar, ou das outras tantas em que o ouvi rapidamente a contragosto, e em como nunca imaginei que ele talvez pudesse ter tido uma vida “de verdade”, amigos, parentes, amores e uma avó a quem amava do mesmo jeito que eu amo a minha mãe. Alguém tão humano que, diante de uma situação difícil ou de uma lembrança dolorida, simplesmente optou por encher a cara, como tantos de nós mesmos fizemos tantas vezes na vida. Uma pessoa que chamamos de louco, mas que ainda mantém a dignidade de se esconder para chorar no escuro, sozinho, sem esperar que ninguém interceda para ajudá-lo ou consolá-lo. E penso em como os malucos e desgraçados, quando sentem que devem partir, simplesmente o fazem, atendendo às próprias necessidades e urgências, sem dar adeus e sem olhar para trás. Não que de tais idéias e pensamentos eu consiga tirar algum tipo de lição, mas ao menos me fazem ver que a vida sempre ensina, que todos têm as suas dores e não nos cabe dizer qual dor é a que dói mais, e em como a cegueira e a surdez quanto ao próximo são, no fundo, o grande problema do mundo que construímos para nós mesmos.

Aos que sofrem, restam poucos consolos – talvez um deles seja justamente o de achar, na multidão de olhos que não o vêem e de ouvidos que não o ouvem, alguém que retribua suas tentativas de ser visto e ouvido com um pouco que seja de atenção. Quanto a mim, já faz muito tempo que sei que uma das minhas tarefas nesse mundo é ver, ouvir, muitas vezes não entender, quase nunca responder. Esse texto mal-costurado, não-revisado e cheio de imperfeições é pouco, tenho certeza; mas me consola a idéia de que, de pouco em pouco, podemos fazer algo que faça diferença para os que nos rodeiam e para nós mesmos. Sei lá, ao menos eu gosto de pensar assim.

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Viajar de ônibus sempre nos permite testemunhar coisas incomuns. Dia desses, estou no coletivo em direção ao trabalho, mergulhado nos meus pensamentos e devaneios, quando embarca no ônibus um cego vendedor de loteria. Vocês já devem ter visto peças do tipo inúmeras vezes: homens e mulheres, deficientes visuais que adotaram como trabalho a tarefa de ficarem vendendo bilhetes da Quina ou da Megasena por apenas um real o cartãozinho, e aceitam vale transporte também, quem sabe a sua sorte não está aqui e por aí vai.  Enfim, subiu o homem, já se posicionando para o ritual de sempre, quando se dá a surpresa: o cobrador, um tanto irritado, o interrompe e diz para o cego que deve descer na próxima parada. Quem já viu os cegos que vendem loteria no ônibus certamente sabe que, de modo geral, motoristas e cobradores são tolerantes com esse comércio quase informal, e não raro tratam os vendedores com bastante simpatia. Daí o inusitado da coisa, e daí meus esforços para superar a barulheira de um típico ônibus porto-alegrense e entender o melhor possível o que seria dito naquela discussão. 

Devo dizer que boa parte não deu para ouvir, mas pude perceber o teor geral da conversa. O cobrador, cada vez mais indignado, protestava contra a ilegalidade da atuação do vendedor de loteria, enquanto o vendedor dizia que não havia ilegalidade nenhuma naquilo e que se entenderia com a lei na medida em que fosse recriminado por seu trabalho. Sob protestos, o cego fez sua pregação habitual, e talvez a repressão tenha até sido positiva, pois rapidamente acabou vendendo um bom número de cartões. Continuaram discutindo os dois, e devo dizer que aplaudi mentalmente o cego quando, acusado de estar sendo ‘mal-educado’, respondeu que falta de educação não era querer trabalhar, e sim deixar pessoas na parada e não cumprir os horários dos ônibus, coisa que de fato já vivenciei incontáveis vezes. Depois de um tempo considerável, desceu o cego, e logo ficou claro que a maior parte dos passaageiros apoiava o vendedor de loteria e se sentia incomodada com a atitude do cobrador. Uma mulher gritou do fundo que “vagabundo ninguém põe para fora do ônibus”, e um senhor empenhou-se em longo colóquio com o cobrador, reclamando do que considerou uma insensibilidade. O cobrador se defendia das acusações como podia, dizendo que aquilo não era certo e que a empresa não permitia, mas aparentemente seus argumentos não conseguiram convencer muita gente – e o fim da situação eu não vi, pois tive que descer e tomar o rumo do serviço.

De início, eu também fiquei um pouco revoltado com a truculência do cobrador, e me perguntei que mal havia no cego querer vender seus bilhetes e ganhar dignamente o seu sustento. Ninguém se sentia incomodado com uma singela venda de bilhetes, nem mesmo a maioria dos colegas de transporte coletivo, então por que o cobrador tinha se indignado tanto com aquilo? Mas fui pensando, e logo me dei conta de uma coisa. Por que são os cegos, e não pessoas de vista sã, que vendem loterias nos ônibus? Simples, e meio óbvio: porque cegos não pagam passagem. Sobem, ficam atrás da roleta e vão embora, sem renderem um centavo às empresas de ônibus – e sem custarem um centavo às lotéricas, que expandem sua área de atuação lucrando em cima de um benefício oferecido às custas das passagens de todo mundo. Mas pelo menos os cegos trabalham, diriam alguns – e sem dúvida isso é verdade. Mas será correto isso, que um negócio lucre mais usando de modo parasitário um benefício público oferecido por outro? Mesmo porque os vendedores de loteria ganham só o que vendem – não há qualquer salário ou coisa do tipo. E as pessoas ficam condoídas pelo esforço dos ceguinhos pela sua dignidade, e compram as loterias – ajudando eles, mas também as empresas lotéricas, que ganham bastante e não gastam nada. E eis que eu, que de início fiquei do lado do cego, estou quase dando razão ao cobrador…

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