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Archive for the ‘Meditativas’ Category

Uma elegia fabicana

Acabo de descobrir que pintaram de branco as paredes do Dacom.

Para quem não sabe, o Dacom é o Diretório Acadêmico da Comunicação da Fabico (UFRGS), faculdade que cursei e graças a qual tenho hoje um diploma de jornalista. Costumava ser um lugar como todos os DAs que vocês possam imaginar: poltronas detonadas na laterais, um mesa de sinuca semidestruída no centro, um manequim coberto de tinta ao lado da porta, uma geladeira vermelha (e desligada) no canto e, ao fundo, a porta da salinha onde a gente entraria para fazer as carteirinhas de ônibus, isso se ela estivesse por milagre aberta naquele dia. Nas paredes, todo o tipo de desenhos, rabiscos, gravuras e frases de ordem, distribuídas sem nenhuma lógica ou padrão pelas outrora imaculadas paredes da sala. Um elogio ao anárquico, ao desleixado e ao sem sentido – exatamente o que um bando de alunos de comunicação precisa no intervalo (ou na fuga) das aulas.

Era um lugar muito agradável, o Dacom. Aquela sala era, de certo modo, o centro pulsante daquela faculdade – o lugar onde as pessoas dos mais variados semestres conviviam e, muitas vezes, compensavam a cretinice de certas cadeiras com trocas muito mais enriquecedoras. No Dacom vivi muitos dos momentos mais marcantes da minha vida universitária e, por que não dizer, da minha vida em geral. Naquele local me iniciei no truco gaudério, e foi naquela salinha adjacente quase sempre trancada que nasceu a Cofatruco, fundação de inegável sucesso e que até hoje une muitas das pessoas mais brilhantes que conheci naquele centro de ensino. Por lá conheci amigos e amigas de grande valor, gente que carregarei comigo vida adentro, se não na convivência ao menos no coração. Naquele local tiveram início ou desenvolvimento algumas das (não muitas) histórias amorosas da minha vida (não muito) adulta. Naquela sala comemorei o quarto gol do Grêmio contra o Caxias em 2007, um dos jogos mais emocionantes da minha vida e que eu sequer pude assistir. Naquele ambiente comi Bocconitos, naquele lugar tomei doses clandestinas de uísque, e uma vez esqueci uma barra de chocolate em cima da geladeira vermelha desativada – barra que consegui, milagrosamente, resgatar intacta no dia seguinte. Em uma noite antológica, passei pela portaria do prédio e entrei no Dacom, sem medo – e esse gesto me garantiu citação em um processo disciplinar do qual, confesso, muito me orgulho. Muitas partidas de sinuca lá disputei, muitas discussões acaloradas lá presenciei, e muitas vezes fiquei lá sozinho, em horários de pouco movimento, lendo algum polígrafo ou tirando notas pouco afinadas do violão quase sem cordas que rodava por ali. Aproveitei bastante aquele lugar, podem ter certeza – e devo a ele muito do que fez a minha vida universitária ser enriquecedora e inesquecível.

Na verdade, há tempos tentava-se liquidar com a vida no Dacom, em nome de interesses que eu prefiro nem saber direito quais sejam. As chinelagens, festas dentro do prédio que eram fundamentais na integração entre fabicanos, foram proibidas e, apesar dos protestos, nunca plenamente retomadas. O sucateamento dos móveis e a falta de limpeza espantavam muitos alunos, especialmente os mais impressionáveis. Mas a grande medida de esvaziamento, o símbolo máximo da incompreensão e da falta de diálogo entre administradores e alunos, era a insistência da direção em pintar as paredes desenhadas e rabiscadas do Dacom, em nome de uma suposta revitalização do local. Em pelo menos uma oportunidade, isso quase ocorreu – por sorte, a então administração do DA entrou em acordo com a direção e conseguiu salvar parte do maravilhoso acervo registrado naquelas paredes.

Pois sim, tratava-se de um verdadeiro acervo. Acho difícil explicar para quem nunca esteve lá a quantidade de coisas incríveis escritas naquelas paredes – tudo que se possa imaginar, desde poesias e frases de efeito a registros históricos e absurdos de aulas e partidas de sinuca e truco. Desenhos, alguns sublimes e outros terríveis, juntavam-se aos textos bem ou mal escritos em uma multitude de cores, traços e caligrafias. Eu mesmo deixei pelo menos um registro lá, assinalando a data da minha última aula com a legenda “fui, agora se virem”. Vendo aquelas paredes, a gente se sentia parte de algo maior – era como um registro coletivo de nossas impressões, um maravilhoso elogio à juventude e criatividade de quem ainda carregava sonhos no coração. Era meio feio, mas era lindíssimo ao mesmo tempo. E era muito, muito bom entrar no Dacom e ter contato com aquele espírito vibrante, registrado da maneira mais anárquica e mais bela possível.

Pois, amigos e amigas, pintaram de branco as paredes do Dacom. Apagaram tudo – todos os desenhos, todas as frases, todas as poesias e brincadeiras e recortes e citações. Passaram tinta por cima do que talvez fosse nosso mais valioso registro histórico. E fico feliz de estar em São Paulo nesse momento – e portanto incapaz de testemunhar o golpe final no espírito fabicano que conheci e que agora está condenado a ser apenas um traço de memória individual.

Imagino que as pessoas que autorizaram essa medida já tenham sido universitárias, em algum momento de suas vidas. Pena que, lamentavelmente, alguma coisa deve ter se perdido no meio do caminho. Em suas mentes, julgaram fazer o melhor para a Fabico, dentro da lógica administrativa que para elas é, compreensivelmente até, a mais importante. Com a reforma do térreo, aquela sala ficaria ainda mais realçada em sua feiura desarmônica. Urgia uma padronização, um embelezamento, algo que fizesse daquele andar algo mais respeitável e funcional. Uma faculdade renovada, com novos equipamentos e laboratórios e com um currículo novo em folha, não podia conviver com aquele atentado estético. Talvez fosse inevitável mesmo, vai saber? Afinal de contas, era só uma sala, nada mais que isso. Apenas uma sala. E uma nova sala virá no lugar dela – talvez ampliada, talvez com móveis recém-adquiridos, quem sabe até com uma nova mesa de sinuca. Uma sala de paredes brancas e limpas. Renovada. Antisséptica. Morta.

Resta-nos confiar na força maior que move a juventude, a energia avessa à limpeza e contrária a todo padrão que faz do mundo um lugar que ainda vale a pena. Haverá uma mão, entre as muitas que talvez circulem pelo renovado Dacom, que puxará uma esferográfica, um lápis ou um pincel atômico, e deixará nas paredes límpidas um primeiro e maravilhoso traço de artística sujeira. Outras mãos, incentivadas pelo rabisco primordial, por lá deixarão também suas impressões. Alguém mais talentoso fará o primeiro desenho, usando grafite ou uma esferográfica – e logo o caos voltará, bonito e renovado, para encher de vida o espaço que nenhuma demão de tinta poderá destruir. Não sei, sinceramente, se isso vai mesmo acontecer – mas gosto de pensar que será assim, e que nenhum progresso estéril poderá jamais deter a poesia, desordenada e cheia de força e de vida.

A foto que ilustra o post foi tirada durante uma Hora do Jazz de Natal, evento promovido por mim e pelo meu querido amigo Fred Posselt. O desenho do Syd Barrett, à esq, já era; as frases da Rosa Nívea, à dir, foram pro beleléu; até o manequim, tantas vezes espancado e naquela tarde transformado por nós em uma vistosa árvore de natal, deve ter ido parar em alguma caçamba de entulho por aí. Mas algo permaneceu, tenho certeza – e que Deus permita que nunca vá embora. Obrigado a todos que leram esse longo desabafo até o fim, sejam felizes e até a próxima.

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Madrugada de sexta para sábado, primeiras horas de uma longa viagem de ônibus unindo Porto Alegre e São Paulo, o lado de lá da minha vida com o lado de cá do meu futuro, seja ele como e onde for. Madrugada quente, ônibus cheio, ar condicionado meia-boca, nenhum sono – elementos que, somados, provocam uma intensa necessidade de descer do ônibus, esticar as pernas, qualquer coisa. Nem as músicas salvadoras do meu mp3 player davam conta da ansiedade, ou seja, tava brabo o negócio. Finalmente, depois de alguns quilômetros de expectativa, o veículo estaciona em Sombrio (SC), numa das filiais do Japonez que pontuam as estradas do sul do Brasil. Alívio: uma passadinha no banheiro, um refrigerante gelado, uns bons minutos esticando as pernas para lá e para cá. Não imaginava eu que o nome da cidade onde estávamos ia acabar sendo bastante adequado para aquela madrugada…

Depois da inevitável pausa para tirar a água do joelho e o igualmente inevitável investimento de R$ 2,70 numa latinha de  Coca Cola, saí do estabelecimento, disposto a vagar sem rumo na volta do ônibus até que o motorista avisasse que era hora de embarcar. Ideia frustrada logo de cara, assim que saí do Japonez e vi que o meu ônibus, simplesmente, não estava mais lá. Com o raciocínio cínico e irônico que me caracteriza nesses momentos, pensei com meus botões imaginários que não tinha passado vinte minutos no banheiro, muito menos numa fila inexistente para pagar uma singela Coca gelada. E logo reconheci algumas pessoas que estavam comigo na jornada Brasil adentro – entre outros, um senhor falante com um defeito na mão que ia visitar a filha em Sampa, uma morena bonita e sorridente que rumava para Florianópolis, um cara que estava voltando de Pelotas onde tinha ido se matricular na Ufpel e uma trinca de irmãos, uma moça de vinte e poucos anos e dois garotos mais novos, que iam encontrar os pais em Camboriú ou algo assim. Ou seja, se eu tinha perdido a hora, não estava sozinho. Tinha um veículo da mesma empresa estacionado ali perto, mas vi pelo número do carro que não era o mesmo no qual eu tinha embarcado – algumas pessoas se confundiram, foram subindo as escadas e depois desciam, constrangidas com o equívoco e preocupadas com o abandono inesperado entre o nada e lugar algum.

Deduzi, após alguma consideração, que provavelmente o ônibus tinha ido abastecer sem avisar ninguém – algo bem possível, dada a pouca simpatia dos motoristas que nos conduziram pela viagem. Sou muito grato por terem me deixado em SP com segurança, mas pelo jeito eles trabalham demais, pois estavam bem estressados e foram um tanto grosseiros vez por outra. Enfim, a tragédia não era mesmo tão grande: depois de algum atraso, o busão reapareceu, as pessoas foram convidadas com toda a gentileza a embarcarem no veículo e beleza, vamos lá que ainda tem pelo menos umas 13h ou 14h de chão pela frente.

Sento no meu banco, ajeito os fones de ouvido e me preparo para fechar os olhos e tentar algo próximo do sono quando ouço o gemido, não muito alto, umas três ou quatro fileiras atrás de mim. Era um som misto, soma de uma dor ou desconforto genuíno com um lamento de decepção – algo do tipo “era só o que me faltava”, se é que me entendem. Como o som se repetiu algumas vezes, ficou claro que alguém atrás de mim estava passando mal – e imaginei que pudesse ser uma hipoglicemia, alguma coisa repentina e desagradável do tipo. Voltei-me para ver, mas estava um pouco longe, e os passageiros mais próximos já cercavam a pessoa que gemia, de modo que não dava para enxergar coisa alguma. Resolvi ficar sentado, já que muito ajuda quem não atrapalha – e abri os ouvidos, pois sabia que logo algum comentário perdido logo me esclareceria o que estava acontecendo.

Entendi a gravidade da coisa quando uma van dos bombeiros parou do lado do ônibus, descarregando dois paramédicos e equipamentos para transporte de pessoas imobilizadas. Quase ao mesmo tempo, ouço o senhor de mão defeituosa comentar algo do tipo “a mocinha tirou o joelho do lugar, coitada!”. Mais uma virada de cabeça, e finalmente enxergo: era a moça com dois irmãos, que estava rumando para a praia ao encontro dos pais que já estavam lá.  Antes dos paramédicos entrarem no ônibus, já tinha entendido tudo. A pessoa sentada na frente da moça tinha inclinado o assento para tentar dormir, e esquecido de colocá-lo na posição normal quando desceu para a pausa de 20 mins na viagem.  Ao embarcar, a moça acabou se contorcendo para desviar do assento inclinado e conseguir sentar no seu lugar – e nessa brincadeira, sei lá eu como, conseguiu de brinde um deslocamento de rótula. Bizarro, inesperado, e sem dúvida um bocado triste.

Cerca de vinte minutos foram necessários para tirar a pobre do lugar onde estava e colocá-la dentro da ambulância. O espaço de um corredor de ônibus pode parecer estreito para nós, imagine então tendo que carregar uma moça com o joelho deslocado, e com o mínimo de oscilação possível. Acho que os paramédicos fizeram um bom trabalho: desistiram logo de usar uma maca, e apostaram num aparato simples, algumas tiras aplicadas sobre o joelho lesionado que impediam um estrago ainda maior. Com um pouco de jeito, conseguiram tirar a moça de dentro do carro – moça que agora já quase não gemia, apesar do rosto visivelmente contorcido pela dor. Admiro a dignidade das pessoas que sofrem em quase silêncio, assim como respeito a explosão de som dos que dividem sua agonia com quem quer que esteja por perto; no caso, era uma jovem corajosa que tentava ao máximo guardar a sua dor – que não devia ser pouca – só para si. Como a ambulância estava praticamente do lado da minha janela, pude ver os bombeiros embarcando a moça rumo ao hospital – pude até ver, com a curiosidade mórbida que me desagrada mas que não posso negar que tenho, o pobre joelho desmontado da menina, mal coberto pelas tiras ortopédicas que o mantinham mais ou menos no lugar.

Desejei mentalmente boa sorte para ela, e fiquei pensando em como a gente não pode realmente fazer planos, em como a gente nunca sabe o que vai acontecer ali, na próxima curva do destino. Num momento, ela estava a caminho do abraço dos pais e das opções de lazer do litoral; no outro, um acidente estúpido e improvável a levava direto para o hospital, e forçava ela e seus irmãos a ficarem parados no meio do caminho, em território totalmente desconhecido. Eu mesmo: em menos de uma hora, tinha passado por duas situações imprevisíveis, que podiam ter mudado totalmente os meus planos e me deixado ali, em Sombrio, uma cidade na qual eu não teria a mínima ideia de como me virar. Acho que, de certo modo, é isso que a sabedoria oriental quer dizer com “não-expectativa” – entendermos que o futuro se escreve por linhas imprevisíveis, e que nossos esforços em torná-lo controlável são condenados ao fracasso, mais cedo ou mais tarde. Apreciar a beleza de não saber o que vai ser, enfim – talvez seja filosofia demais para uma parada no meio da estrada, mas a minha mente deixou-se levar. E quando o ônibus finalmente voltou para a estrada, depois de cerca de hora e meia de atraso, percebi que estava no meio da estrada, sem saber o que ia ser e quando ia chegar – e não só naquele ônibus, mas também na própria vida.

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Nunca curti carnaval. E quando digo “nunca” é nunca MESMO – nem quando era bem moleque, nem quando a vida ainda era (ou era para ser) uma grande brincadeira irresponsável e sem nenhuma consciência do amanhã. Eu era um moleque que achava um saco ver desfile na TV e que ficava enchendo o saco para voltar para casa quando meus pais inventavam de me levar num baile infantil ou algo assim – daí vocês já podem perceber muito bem que tipo de criança eu era… A adolescência, apesar das mulheres nuas e seminuas, não mudou essa minha aversão, e a ojeriza está totalmente consolidada agora, quando relutantemente sou forçado a referir-me a mim mesmo como uma pessoa adulta.

Acho que isso tem a ver com a minha personalidade, de modo geral. Não sou uma pessoa dada a demonstrações chamativas de alegria, a comemorações sem propósito definido e coisas assim. Imagino que seja a mesma coisa que me afasta de casas noturnas, baladas movimentadas e coisas do tipo. No fundo, acho que nunca entendi qual a graça nessa entrega total a cinco dias sem critérios, sem limites e sem motivos, onde todo mundo faz tudo que dá na telha para esquecer que no resto do ano não pode ou não consegue fazer nada disso. Sei lá, é falta de propósito demais para a minha visão contemplativa de mundo. Não acho que isso seja defeito das pessoas, sabe; se alguém está errado nisso tudo, provavelmente seja eu mesmo. E meus carnavais geralmente são uma merda (ano passado, por ex, foi uma bosta monumental), de modo que a folia também não se ajuda, digamos assim…

Mas aí eu vejo um post tipo esse do blog do Ungaretti (de onde peguei a foto emprestada, aliás) e fico pensando se, de repente, não sou eu que sou rabugento demais e não dou uma chance pro carnaval de verdade – não esse carnaval pateta da televisão, não essa bobagem escrota de transformar folia em campeonato, e sim um carnaval mais autêntico, mais romântico, mais desencanado e menos desvirtuado. Uma coisa popular de verdade, não um pretexto para fazer merda sem controle ou para ganhar dinheiro com turismo e propagandas na TV. Não que eu ache que ia amar de paixão participar de um bloco de rua, ou que eu ia curtir horrores os carnavais dos anos 40 ou 50 – como eu disse, eu sou uma pessoa que não nasceu para festejar como se não houvesse amanhã, e isso não muda nem com coma alcoólico nem com lança-perfume nem com nada disso. Mas talvez eu fosse, sei lá, mais simpático a essa manifestação popular, vai saber?…

Enfim, devaneios. O carnaval está aí, e – vai saber? – quem sabe ele resolve ser menos carrasco comigo desta vez. Vou ficar em Porto Alegre, em casa, sozinho e sem dinheiro – convenhamos, não é exatamente a situação mais animadora do universo, mas enfim. Algumas pessoas amigas vão compartilhar da folia-que-não-é-folia portoalegrense, então acho que alguns momentos divertidos vai dar para garantir. E, é claro, sempre tem muitos livros, filmes e CDs acumulados esperando por mim.  Tevê, só para assistir filmes e seriados… Vai ser, do mesmo modo, a minha última semana antes de voltar para São Paulo e definir, de vez, algumas coisas na minha vida. Ou seja, vai ser meio que um retiro com um sabor de despedida – o que, isso sim, se encaixa bem com minha visão contemplativa das coisas do mundo. Mal posso esperar, e espero que não demore muito para acabar…

Quanto ao blog, vamos ver. Vou estar basicamente ocioso, então talvez publique algo por aqui. Nada muito profundo e/ou pretensioso, até porque convenhamos, ninguém vai parar para ler justo o meu blog no meio do carnaval… Enfim, se você gosta de carnaval, divirta-se, e nos vemos a partir da quarta-feira de cinzas. E se você não gosta, boa sorte para nós, e a gente se encontra em breve por aí também. Saudações a todos, e sejam felizes, cada um do seu jeito.

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Nos últimos dias, tenho sido levado a pensar muito sobre falsidade, mesquinhez, desonestidade e sobre ‘backstabbers’ em geral. Vocês sabem: pessoas que traem nossa confiança, que tratam nosso carinho e nossa amizade como moedas de troca, que fingem estarem ao nosso lado e, assim que a oportunidade ou a necessidade surge, enfiam a faca em nossas costas e a torcem sem a menor cerimônia. Nos últimos dias, tive pelo menos duas longas conversas com amigos (de verdade) sobre isso, o que obviamente me levou a meditar um pouco sobre a questão.

Pessoalmente, considero a amizade uma coisa sagrada. Num mundo tão duro e terrível como o que construímos para nós, numa existência na qual as esperanças escasseiam e o individualismo covarde e insensível é cada vez mais incentivado, uma amizade é um raio de luz, um ponto de apoio, um rastro de cor no meio do cinza. Sem amigos, estamos perdidos; a vida se torna um balé insano, acompanhamento inútil de uma sinfonia do vazio. Assim sendo, não surpreende que eu considere qualquer gesto de traição a uma amizade uma das coisas mais baixas e deprimentes que qualquer ser humano pode fazer. Amizades estão, ou deveriam estar, acima de empregos e lucros, posses e conquistas, vaidades e glórias pessoais. Quem inverte essa balança, quem coloca qualquer uma dessas coisas acima da compaixão e do sentimento pelo próximo, não passa de um coitado digno de pena e desprezo. Alguém que trai a confiança e o sentimento de outra pessoa comete um crime contra a humanidade, a dos outros e a sua própria. E, embora sempre haja tempo para mudar um caminho, me entristece ver como tanta gente avança sem hesitar na direção do sucesso ilusório e inútil – e quanto mais longe elas vão, mais difícil e menos provável fica a sua redenção.

Obviamente, já levei algumas facadas nas costas, como todos vocês aí devem ter levado também. Para os que, como eu e muitos de meus amigos e conhecidos, vivem dentro do mundo do jornalismo e da comunicação de modo geral, essa é uma triste realidade que se manifesta com desagradável frequência. A amizade e o sentimento humano, quando verdadeiros, não esperam recompensa – mas não deixa de ser lamentável ver que muitas vezes oferecemos tanto para certas pessoas, e o que damos acaba sendo tratado com desprezo e indiferença, em nome de coisas que no fim das contas não valem absolutamente nada. Em alguns casos, poucos, pude notar sinais de arrependimento, talvez uma intenção sincera de mudança; na maioria das vezes, porém, restou apenas a indiferença dos deslumbrados ou, pior ainda, a tentativa repleta de falsidade, a busca interesseira por uma reaproximação contaminada pela desonestidade. As últimas, podem ter certeza, são as que me feriram mais e as que me fizeram, em momentos de dor e desatino, duvidar de toda bondade humana.

Muito mais do que raiva ou desgosto, sinto pena dessas pessoas – e isso, acreditem ou não, não é apenas um clichê auto-afirmativo. Imagino como deve ser triste viver uma vida como essa, na qual nada permanece, onde tudo não basta de uma eterna disputa por status e posições. Uma existência sem ligações profundas, na qual as pessoas vêm e vão. Um caminho coberto de sombras, onde nos falta a sinceridade e tudo que nos resta é perfídia e mesquinhez. Uma vida vazia que detestamos tanto, mas tanto, que a única coisa que nos sobra é propagandeá-la aos quatro ventos, tentando convencer a todos de como ela é intensa e emocionante e bem sucedida e feliz. Onde nos resta tentar estragar ou atrapalhar a vida dos outros, para que a nossa própria vida pareça, em comparação, menos estúpida e deplorável. Onde vamos gradativamente esquecendo tudo de bom, e acaba nos sobrando apenas um imenso e insaciável vazio. Uma imitação de vida. Uma farsa.

A essas pessoas, dedico esse pequeno post, e também uma canção, logo abaixo. Como tenho dito por aí, Bob Dylan sabe das coisas. A letra da música está no vídeo, é só acompanhar. Essa, falsos amigos de todos os lugares, é para vocês. Depois dela, só me resta desejar que continuem fingindo ser felizes, e que talvez consigam convencer a si mesmos disso. Mas, por favor: bem longe de mim.

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O pequeno cãozinho sentou-se  no meio do Viaduto da Borges de Medeiros como se aquele lugar fosse dele, como se aquela calçada fosse sua propriedade eterna e inalienável. Era um vira-lata magrelo, de pêlo café-com-leite, algumas manchas pretas, várias costelas aparecendo. Seu dono não devia estar longe: pelo menos três moradores de rua dormiam a poucos metros do cão, cobertos debaixo de sujeira, indiferença e tiras de papelão. Na verdade, talvez o bichinho seja mesmo dono daquele espaço de chão, e eu que não tenha me apercebido disso. Afinal, quantas vezes terá o cachorro dormido ali, em noites frias ou calorentas, em quintas-feiras movimentadas ou domingos preguiçosos? As ruas têm suas próprias regras, seus códigos e soluções, então vai saber. Seja como for, sentou-se na calçada, com a inconsequência dos jovens de todas as espécies, com o ar distraído e tranquilo dos que nada entendem de stress, pressa ou compromissos.

Tal era a tranquilidade que emanava do bicho, tão forte era a sensação que ele passava de ser o dono daquele pedaço de pavimento, que de alguma maneira as pessoas que andavam por ali tornaram-se silenciosas cúmplices aquela auto-proclamada autoridade. Desviavam do cachorro de maneira quase inconsciente, muitas vezes sem nem olhar para baixo, convencidas de alguma forma mágica de que aquele animal estava em seu lugar e que a melhor coisa a fazer era seguirem em frente, sem incomodá-lo. Homens de terno e gravata, jovens moças sorridentes, vendedores ambulantes, trabalhadores, vagabundos e apressados de todos os tipos – todos desviavam do pequeno animal, sem ousar perturbá-lo, sem questionar a autoridade do grande espírito que comanda as ruas de todas as metrópoles do mundo.

Foi quando surgiu o casal. Não faço ideia de onde vieram; um casal humilde, com aquela idade indefinível dos pobres e sofridos, dos que tratam de viver sem ficarem contando a passagem dos dias e dos anos. O homem usava um jeans velho e chinelos de dedo; a mulher carregava uma bolsa chamativa e uma blusa que devia ter sido vermelha, mas agora tinha assumido um estranho tom de rosa esbranquiçado. Nenhum dos dois tinha todos os dentes na boca. Andavam de mãos dadas, sorrindo e conversando, como geralmente fazem os casais que se sentem felizes com a ideia de serem casais. Não eram um casal de tevê, de novela das oito; com certeza, eram muito mais interessantes. Iluminavam aquele viaduto sujo e mal cuidado com a beleza pura e ingênua do sentimento que nutriam um pelo outro, e eu gostei de vê-los, gostei de ser de certo modo testemunha daquela união.

E caminhou o casal em direção ao cão, atravessando a distância entre eles, aproximando-se até que a interação entre eles fosse inevitável. Ao contrário de muitos, perceberam o animal, e creio que comentaram algo a respeito dele, pois olharam para ele, olharam um para o outro e riram. E como precisassem desviar do bicho, e como não quisessem separar as mãos, simplesmente distanciaram-se um pouco um do outro, as mãos ainda dadas, erguendo levemente os braços em um pequeno arco. No momento em que passaram por cima do cachorro, o bichinho ergueu o olhar para um deles, com expressão de curiosidade, como quem honestamente não entendesse o propósito daquele improvisado balé. E assim os vi, o casal de mãos dadas, entre eles o cachorro, sobre o cachorro duas mãos que se uniam num misto de moldura e bênção.

Lamentei muito, muitíssimo mesmo, não ter algum equipamento comigo, ao menos um celular que pudesse registrar visualmente aquele momento de inesperada mágica. Se eu tivesse os meios, e se eu tivesse o talento, talvez pudesse ter extraído daquele pequeno instante parte da beleza que nele senti, e gerar uma imagem que fizesse a ele um mínimo de justiça. Mas assim não foi, infelizmente. Resta a imagem da minha visão, a foto agora impossível que carrego na minha retina e na minha memória. É uma bela foto, podem acreditar. De qualquer modo, a cidade segue me mandando esses sinais, esses pequenos momentos mágicos, essas histórias que se revelam e que precisam ser contadas. Não sei se a intensidade realmente aumentou, ou se sou eu que agora percebo melhor, que estou mais atento, os olhos mais abertos.

Enfim. Acho que preciso arranjar uma máquina fotográfica.

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Começo a digitar esse texto sem ter a menor ideia de como ele vai ser, muito menos de como – ou quando – ele vai acabar. Talvez, de todas as coisas que escrevi aqui nesse ano, essa seja para mim a mais importante de todas – afinal, é o momento de olhar por cima dos ombros, contemplar tudo que aconteceu e que não aconteceu no meu 2009 e tentar tirar de tudo, se não uma conclusão, ao menos algumas lições e caminhos para o futuro. Entender quem eu sou sempre foi um dos meus objetivos de vida, e um dos meus maiores desafios – talvez por isso, inclusive, eu observe tanto os outros, os anônimos das ruas e esquinas da vida: para ver neles algo de mim mesmo e, tentando entendê-los, compreender melhor a mim mesmo. E sério mesmo, esse 2009 foi um ano tão intenso e cheio de aprendizados que eu sinceramente, realmente, definitivamente nem sei por onde começar. Dá quase um frio na barriga, na verdade. Mas eu devo isso nem tanto a vocês, mas especialmente a mim mesmo – e não sou de recuar diante dos desafios ou das coisas que me dão medo, então… Coloquem uma música legal para tocar, uma bebida gelada do lado, e venham comigo, porque certamente vou precisar de companhia!

Bem, como eu imagino que a essa altura praticamente todo mundo que ler esse texto já saiba, o catalisador das mudanças no meu 2009 foi a minha decisão de tentar a sorte em São Paulo – decisão que se confirmou depois de uma visita de dez dias em janeiro, e que foi o ponto culminante de uma série imensa de dúvidas, ansiedades, sonhos e expectativas que tomavam conta do meu espírito. Tudo precisava mudar, e rápido – eu não podia esperar, entendem? Nem mais uma semana, nem mais um dia, um minuto que fosse. Era tanta urgência que eu fui, sem emprego certo, para morar de favor em um sótão, sem dinheiro para ficar muito tempo por lá, movido basicamente por uma grande necessidade de assumir os riscos e fazer algo diferente da minha vida. Saí na segunda metade de março, sem expectativas, mas cheio de esperanças. E agora em dezembro eu retorno uma vez mais para casa, para Porto Alegre, para ficar com a minha família até pelo menos o início de janeiro – um retorno ao estaleiro que pode se estender um pouco ou bastante, dependendo das circunstâncias. Volto sem emprego fixo, sobrevivendo de frilas e da caridade alheia, sem dinheiro para comprar roupas novas ou qualquer outra coisa, sem nada por lá (ou aqui) que eu possa chamar de meu. Materialmente falando, termino esse ano de 2009 com uma mão na frente e outra atrás, longe do tipo de história de sucesso que talvez alguns preferissem que eu pudesse contar aqui.

Isso quer dizer que me arrependo? Nunca. Jamais, de jeito nenhum. Pelo contrário, e isso talvez seja a maior conquista de 2009 para mim: depois de muito, muito tempo mesmo, posso terminar um ano dizendo que não me arrependo de nada. Absolutamente nada. Talvez as coisas pudessem ter sido diferentes, talvez eu pudesse ter agido de modo distinto em certas situações, talvez eu pudesse ter sido mais prudente, ter tido um pouco mais de malícia, ser mais cérebro e menos coração, vai saber? Mas eu posso chegar agora na frente de vocês, amigos/as e leitores acidentais, e dizer de peito aberto que eu fiz as coisas do meu jeito. Que eu não tive medo. Que quando eu quis dizer as coisas, eu as disse, e quando quis fazê-las, eu as fiz. Que eu joguei tudo para o alto, sim, e que eu percebi que talvez o passo fosse maior que as pernas, sim, mas que eu fiz o que eu senti que tinha que fazer, do jeito que eu achei que tinha que fazer, sendo fiel ao meu sentimento e ao meu coração. E foi a coisa certa. Talvez tenha sido a coisa mais certa que eu fiz em toda a minha vida. E eu não me arrependo de nada. E que é bom, muito bom mesmo sentir que fez a coisa certa, por mais que as coisas tenham saído de controle, por mais que não haja certezas e que não se tenha nenhum sinal claro de como será o amanhã.

E eu aprendi muita coisa. Tanto que eu acho que ainda estou absorvendo tudo, e que vai levar um tempo considerável até eu racionalizar todas essas lições que a vida me deu. Poderia passar dias listando todas as coisas que aprendi, e estou aprendendo, nessa jornada de redescoberta e reencontro pessoal. Aprendi a tentar entender os pequenos gestos, a ver por meio deles quem realmente se importa, e a fazer tudo que posso para valorizar essas pessoas e demonstrar a elas meu carinho e gratidão. Aprendi a ser grato pela comida que me servem, pelo teto que me protege do sol e da chuva, pelo canto em que me ajeito para dormir e pelo lençol que me dão para eu me proteger do frio. Aprendi, ou tenho tentado aprender, a gostar das pessoas sem esperar nada delas em troca, mas dando prioridade para as que demonstram capacidade de entender e corresponder, cada uma a seu modo, a essa afeição. Aprendi que a pressa é um estado de espírito, que no caso não me serve nem um pouco. Aprendi que, quando existe pelo menos uma pessoa nesse mundo que se importa com a gente, então nunca estamos realmente sozinhos. Aprendi a chorar de saudade, escolhendo o melhor momento, quase em silêncio e sem nenhum estardalhaço. Aprendi a andar sozinho, pelo simples prazer de caminhar, e descobri como é bom fazer companhia a si mesmo. E acho que aprendi, acima de tudo, qual é o meu papel nesse mundo, o motivo pelo qual me jogaram nesse lugar maluco e sem sentido – e acho que isso é tão importante, ao menos para mim, que vou abrir outro parágrafo para tentar desenvolver melhor.

Acredito em mágica, sabe? Não exatamente mágica do tipo truques e prestidigitação, mas no sentido de que existe mais no mundo do que a gente enxerga, de que a vida é cheia de coincidências que no fundo não são coincidências coisa nenhuma, de que a existência é muito mais do que uma barulhenta e apressada jornada do nada para lugar nenhum. Existe algo que a gente ainda nem começou a entender direito, e que possivelmente não entendamos nunca, mas que está sempre presente – e acho que um pouco dessa mágica se manifestou algumas vezes diante dos meus olhos, tendo sido especialmente forte durante o ano que passou. E acho, sinceramente, que recebi alguns recados, que só estou entendendo mesmo agora, que parei para pensar a respeito. Nada sobrenatural, nada de revelações divinas ou qualquer coisa do tipo – apenas alguns “toques”, digamos assim. E o que eles me dizem, basicamente, é: seja jornalista, Igor Natusch. Não um jornalista feliz empregado na Folha ou na Zero Hora, um eficiente criador de conteúdo capaz de galgar degraus na hierarquia de uma grande empresa; não é disso que estamos falando. Trata-se de ser um jornalista como eu era lá no primeiro grau, quando conversava com os colegas e dizia que queria trabalhar na área – um jornalista de alma. Alguém que sente, olha, pergunta, tenta entender, pensa e registra. Alguém que está no meio da vida, tentando decifrá-la. Claro que é muito mais fácil e mais cômodo viver alheio ao fato de estar vivendo, e acho mesmo que a felicidade é tanto mais fácil quanto menos a gente pensa sobre a vida. Mas não posso negar o que sou, o que fui durante a vida toda mesmo sem ter plena consciência disso, e o que é no fim das contas tudo que posso ser. Sou um jornalista quando escrevo, quando sento numa cadeira de bar, quando toco violão, quando pego uma câmera ou posiciono luzes num cenário. Sou jornalista quando converso com o balconista, quando estou com uma mulher, quando brinco com um cachorro, quando pego ônibus ou quando olho a fachada imunda de um prédio abandonado. Sou jornalista sempre, o tempo todo. E esse é, no fim das contas, o meu destino. Meu negócio não é ganhar dinheiro ou conseguir ótimos empregos, já percebi que não sou muito bom nessas coisas – meu negócio é contar histórias. Faço isso o tempo todo, porque simplesmente não posso e nem quero evitar. E vou fazer isso até morrer. Custe o que custar. Ainda bem que entendi isso, profunda e definitivamente – e, acima de tudo, ainda a tempo. Antes tarde do que nunca, diria o clichê.

Dito tudo isso, e embora ainda tivesse toneladas de coisas para dizer, acho que posso passar para a minha pequena lista de resoluções para 2010. Coisas que eu prometo solenemente, diante de vocês, que eu vou tentar fazer. Em 2010 eu quero ficar bem menos tempo no computador e sair bem mais para a rua, onde no fim das contas tudo continua acontecendo. Em 2010 eu vou carregar sempre um livro comigo, para eu ler todos os livros que deixei acumular por pura preguiça nos últimos anos. Em 2010 eu vou reunir os meus contos, participar de alguns concursos literários e bater na porta de algumas editoras. Em 2010 eu vou comprar roupas novas, e aproveitar que estou emagrecendo espontaneamente para fazer alguns exercícios. Em 2010 eu vou tentar achar alguém legal, que valha a pena ter do meu lado, mas sem pressa e sem galinhagem que isso nunca foi meu estilo. Em 2010 eu vou arranjar um lugar novo para morar, ou ao menos um teto novo sob o qual dormir. Em 2010 eu vou voltar para São Paulo e fazer coisas legais por lá, mas isso nem resolução é, trata-se apenas uma reafirmação. Em 2010 eu vou assistir todos os jogos do Grêmio que puder, em qualquer estádio que esteja ao meu alcance. Em 2010 eu não vou reclamar que não tenho dinheiro. Em 2010 eu vou ganhar dinheiro, tanto quanto puder, e espero que não seja pouco. Em 2010 eu vou continuar escrevendo, e vou escrever incansavelmente, tudo o que eu puder e até onde eu aguentar. Em 2010 vou ´publicar mais seguidamente aqui no blog, tentar fazer coisas mais jornalísticas e menos “querido diário”, e textos não tão longos também, se possível. Em 2010 eu vou fazer um monte de coisas legais, e torcer para que algumas delas sejam publicadas ou exibidas por aí. E em 2010 eu vou seguir fazendo a coisa mais certa que eu posso fazer: sendo eu mesmo. Para o bem, e para o bem também, que a gente ser exatamente quem é sem se pautar pelo que os outros querem ou pensam nunca vai ser algo ruim.

Por fim, terminado esse rascunho de Bíblia, alguns agradecimentos. A minha família, que me apoia mesmo quando não me entende e na qual eu sempre encontro carinho e abrigo. Ao Seu Luiz, Dona Agnes e Luciano, a família extraordinária que permitiu que eu me enfiasse na sua casa, me acolheu e me tratou de um modo que eu jamais serei capaz de agradecer tanto quando gostaria. A pessoas como o Renan, Ungaretti, Marques, Denise, Jorge, Sindia e vários outros, que me deram conselhos e oportunidades, mesmo às vezes sem saber direito quem eu era, apostando nesse desconhecido de barba ruiva e sem muita noção na cabeça. Aos meus amigos, os de POA, de SP e de outros lugares do Brasil e do mundo, que me ofereceram as verdadeiras lições, o sentimento mais bonito e o apoio mais importante, no momento que mais precisei. A todos, muitos até desconhecidos, que me ajudaram pagando comida ou cerveja, emprestando livros ou filmes, comentando alguma coisa que escrevi, puxando conversa no ônibus ou no metrô, dando uma informação, me presentando com um sorriso inesperado no meio da multidão indiferente. A São Paulo, por me receber tão bem, a Porto Alegre, por sempre me aceitar de volta, e ao mundo, por deixar claro que posso ir até ele a hora que eu quiser. Muito obrigado a todos, do fundo do meu coração. Graças a vocês, 2009 foi um ano inesquecível – e, talvez, o melhor de toda a minha vida.

E que venha 2010. Depois de 2009, acho que estou pronto.

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Voltei ontem de uma breve viagem ao Rio de Janeiro. Imagino que os meus poucos e gentis leitores tenham o primeiro impulso de pensar: “nossa, que legal! Visitou o Redentor? Farreou na Lapa? E as fotos?” Mas não, amigos/as, eu não fui no Rio de Janeiro dos turistas, aquele onde as praias são belas, as noites cheias de alegria e do qual as pessoas vão embora pensando em quando vão poder voltar. Eu fui até o Rio de verdade, o Rio da pobreza e da vida difícil, onde as pessoas exercitam a arte de viver da fé e as paisagens não rendem um cartão postal. Na minha primeira visita ao Estado do Rio de Janeiro, fui a trabalho para Nova Iguaçu e Belford Roxo, o que faz de mim um dos “turistas” menos comuns de se encontrar por aí. E, vocês já podiam imaginar, me traz algumas reflexões que preciso despejar em algum lugar.

Na verdade, o objetivo mesmo era em Belford Roxo – mas, como simplesmente não existe onde se hospedar na cidade, eu e a equipe com a qual estou envolvido ficamos no Mont Blanc Hotel, que imagino eu ser o melhor – se não o único – de Nova Iguaçu. Um bom hotel, sem a menor dúvida – do tipo que deixa o ar condicionado do quarto ficar ligado o dia todo, sabendo que tu vai chegar todo suado e desesperado por um ambiente fresco para descansar. Deu para dar uma pequena explorada na cidade, o que inclui conhecer o shopping próximo do hotel, a área dos barzinhos (que imagino ser umas três quadras, se isso), o terminal rodoviário da cidade (que fica de frente para o hotel e, me perdoem os nativos, é feio que dói) e algumas coisas nas redondezas, tipo a Praça do Skate, um pracinha que me pareceu bem pequena mas que por lá serve de ponto de referência. Nos falaram de duas baladas fortes na área, a do Exclusiv e do Gregos e Troianos – se as grafias estão erradas, me perdoem, eu só ouvi falar e não li os nomes em lugar algum. Mas como fomos embora na sexta mesmo, nem se eu quisesse poderia ter me aventurado na night de Nova Iguaçu – onde, nos disseram, faríamos “sucesso” já que éramos “gente de fora”… Enfim, ao menos engraçado teria sido. De qualquer modo, ficou a impressão de uma cidade simples, bem subúrbio mesmo, cheia de gente humilde e trabalhadora. Um lugar que eu gostaria de explorar um pouco mais, tivesse tido mais tempo…

Belford Roxo sim, é o lado mais sujo e violento do RJ exposto abertamente para quem quiser ver. O parque industrial da Bayer, que é por assim dizer o coração econômico da região, está tristemente cercado de pobreza por todos os lados. Meio por acaso, acabamos conhecendo o Gogó da Ema, supostamente a parte mais perigosa da cidade, e rapaz… O negócio é de cortar o coração, ao mesmo tempo que dá um medo considerável. É difícil descrever, mas fiquei com a nítida sensação de que aquele era um lugar hostil a mim – afinal, eu era um cara de classe média e pele branca no meio de casas precárias e pessoas miseráveis, e o Corsa que nos levou até lá era uma Ferrari naquele ambiente, como bem descreveu o Heitor, um dos meus colegas de empreitada. No mais, muita pobreza, muita sujeira, muito descaso e muito abandono por todos os lados. Aparentemente, o poder público não funciona muito bem por lá – e o resultado, obviamente, é o crescimento dos poderes paralelos, se é que me faço entender. Não é o que parece ser na capital do Estado, um contraste entre luxuosos condomínios e favelas paupérrimas – em Belford Roxo o negócio é pobre mesmo, e a escala vai dos humildes até os desgraçados, não vi gente rica em lugar algum. E em termos de segurança, bem, basta eu citar que vi um mero guarda de trânsito com um tremendo revólver na cintura para perceber que o negócio é um tanto tenso por lá…

De qualquer maneira, pude notar algo em comum nas pessoas que lá vi e conheci, uma espécie de sentimento comum que as unia: uma filosofia de vida, digamos assim. Tanto em Belford Roxo quanto em Nova Iguaçu, as pessoas parecem apreciar a vida de um jeito um pouco diferente – não sei se me faço entender, mas é como se elas esperassem menos da vida do que eu ou as pessoas com as quais eu geralmente convivo. E isso não num sentido necessariamente ruim: elas simplesmente conseguem se sentir felizes com o que possuem ou com o pouco que conseguem, ao invés de sofrerem aquela coisa de sempre querer mais e nunca estarem satisfeitas. Isso pode ser negativo por um lado, já que leva muitas aquelas pessoas a aceitarem coisas as quais ninguém deveria ser submetido. Mas por outro lado, de uma maneira talvez esquisita, elas estão quase bem, elas se viram, elas são em sua maioria pessoas boas que sorriem com pureza e do fundo do coração. E todos nós, os que reclamamos de barriga cheia, os que ficamos de braços cruzados e permitimos que elas sejam forçadas a viver certas privações, temos MUITO o que aprender com elas. E, em comparação, algumas coisas das quais nos envergonharmos, inclusive. Se o espírito carioca é, como dizem, um sentimento descontraído diante da vida, o pessoal da Baixada Fluminense certamente o carrega dentro de si – e de uma forma, suspeito eu, muito mais verdadeira do que a que se percebe nas ruas e atrações do Rio de Janeiro moldado para agradar turistas. Tenho certeza que foi ótimo começar a conhecer o RJ por aí, sem viciar meu olhar com praias bonitas, moças de biquíni e farras na Lapa ou Botafogo. Cada estado é o povo que nele habita, e a realidade pode não ser mais bela que a ficção turística, mas certamente vale mais a pena. Pelo menos para mim. E não, não bati fotos do Rio – fica para a próxima…

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