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Archive for the ‘Literárias’ Category

Começa com um terremoto. Um tremor de terra, forte e vibrante, daqueles que puxa o chão debaixo dos pés como uma mão habilidosa tira de um golpe a toalha de uma mesa. Copos, pratos, talheres: tudo ao chão. O chão segue lá, depois do abalo que rearranja todo o resto – mesmo assim não há mais chão, não há mais céu, zênite e nadir anulados na escatológica ausência de referências. Uma inundação, seca, Sodoma e Gomorra, extinção. Não há rotação nem translação, as estrelas apodrecem e despencam do céu em um rastro amarelado, recendendo a enxofre. No olho do tornado, impera a calma; ao redor, confusão. Diante de tanta eloquência, mantenho o silêncio. Os tímpanos abafados, como se cobertos de cera de vela, como se a solidez do silêncio tornasse impossível todo e qualquer som. Olhando ao redor, nada se vê, e nada há para ser visto. O sol arde com a fúria de uma gigante vermelha; a chuva desaba inclemente como as lágrimas dos que não sabem chorar. Choro eu, junto com elas, enquanto meus lábios ensaiam a sombra de um sorriso. Rolo escada abaixo, caindo do topo das minhas certezas, de volta ao subsolo dos meus sonhos. Há fogo, sangue, gritos, risos. Tormentos e orgasmos. Poesia. Como poesia as bombas chovem do céu, enquantos relâmpagos surgem na trágica tentativa de abraço da terra com o firmamento. Mãos estendidas, surgem anjos e querubins: oferecem apoio, soluções, alternativas. E digo não. Terminou o Milênio, encerra-se o Kali Yuga, chega ao fim o décimo quarto b’ak’tun. É o fim do mundo: o que poderia ser feito a respeito? O fim encerra-se em si mesmo, não busca justificativas, não carece de nenhuma certeza ou explicação. Não busco salvação; estou perdido, e estou em paz. Contemplo a morte, bela como o rosto dos sonhos nunca lembrados, inevitável como o esquecimento que apaga a imagem e deixa apenas o eterno travo agridoce entre os lábios. A morte sorri; sorrio de volta, e me permito morrer. Haverá vida, depois de uma morte como essa? Não sei, não sei. E não importa. Estendo as mãos como um maestro, e enceno um regente diante da minha própria destruição. É o fim do mundo, e  me sinto bem. Muito bem.

(o embed do vídeo não é permitido. Morra, EMI America.)

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Herman Hesse sabia das coisas

De “O Jogo das Contas de Vidro”, que estou tendo o prazer de ler agora. Achei tão legal e tão adequado dentro de certas reflexões que ando tendo, que me dei ao trabalho de transcrever todo o trecho:

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“A insegurança e contrafação da vida espiritual daquela época, a qual, em muitos sentidos demonstrava possuir energia e grandeza, é por nós, homens de hoje, explicada como um sintoma do horror que se apossou do espírito ao encontrar-se, no final de uma época de aparentes vitórias e prosperidade, diante do nada; uma enorme pobreza material, um período de tempestades políticas e bélicas, e uma desconfiança de si próprio brotada com ímpeto das trevas, de um dia para o outro, uma desconfiança da sua própria força e dignidade, e até mesmo de sua própria existência. Não obstante, no período em que se pressentia a decadência, ainda havia produções intelectuais de enorme elevação, entre outras o início de uma ciência musical de que somos os gratos herdeiros. Mas assim como é fácil classificar dentro da história universal, com beleza e sentido, qualquer período do passado, o presente, seja ele qual for, é incapaz de classificar-se a si mesmo, de modo que naqueles tempos, à medida que as exigências e a produtividade do espírito baixavam a um nível modestíssimo, apossava-se dos intelectuais terrível incerteza e desespero. É que se acabara de descobrir – descoberta pressentida desde Nietzsche, aqui e acolá – que a juventude e o período criador de nossa cultura pertenciam ao passado, que a decrepitude e o ocaso haviam surgido, e em razão dessa descoberta pressentida por todos, e por muitos formulada sem rebuços, se esclareciam muitos sinais inquietantes dos tempos; a mecanização insulsa da vida, a profunda queda da moral, a falta de crença dos povos, a falta de veracidade da arte. Como naquela maravilhosa lenda chinesa, a “música da decadência” havia ressoado, e como o baixo ameaçador de um órgão, vibrava já há dezenas de anos, derramava-se qual corrupção nas escolas, nos jornais, nas academias, derramava-se como neurastenia e doenças mentais na maioria dos artistas e críticos sérios, debatia-se qual selvagem e diletântica super-produção em todas as artes. Havia várias maneiras de se contrapor a esse inimigo que se infiltrava e que não era mais possível libertar de seu feitiço. Podia-se procurar afastá-la como uma ilusão, e para esse fim os anunciadores literários da teoria da decadência da cultura ofereciam muitas armas cômodas; além disso, quem entrava em luta contra aqueles ameaçadores profetas, era ouvido pelo cidadão e adquiria influência sobre ele, porque o fato de a cultura, que ontem ainda se acreditava possuir e de que tanto se orgulhava, estava desprovida de vida, o fato de a instrução tão apreciada pelo cidadão ter deixado de ser uma genuína instrução, como a arte apreciada por ele deixara de ser genuína, parecia-lhe tão insuportável e chocante como a repentina crise monetária e a ameaça de perder a fortuna com revoluções. Além do mais, para combater o pressentimento da decadência havia ainda o comportamento cínico: ia-se dançar, e explicava-se qualquer preocupação pelo futuro como uma tolice arcaica, cantavam-se inspirados folhetins sobre o próximo fim da arte, da ciência e da linguagem, constatavam-se com uma volúpia semelhante à do suicida, a completa desmoralização do espírito, a inflação das ideias na época folhetinesca, nesse mesmo mundo que se havia construído de tecnologia e de papel. Era como se víssemos com cínica apatia, ou com excitação do bacanal, que não só a arte, o espírito, os costumes e a probidade desapareciam no abismo, mas que o mesmo acontecia com a Europa e o mundo, tal qual se conhecia então. Entre os bons reinava um pessimismo taciturno, e entre os maus um pessimismo pérfido. Era necessário primeiramente haver uma demolição do que sobrevivera e uma certa mudança de ordem do mundo e da moral, por meio da política e da guerra, antes que a cultura fosse capaz de uma verdadeira auto-observação e de uma nova organização”.

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O pequeno cãozinho sentou-se  no meio do Viaduto da Borges de Medeiros como se aquele lugar fosse dele, como se aquela calçada fosse sua propriedade eterna e inalienável. Era um vira-lata magrelo, de pêlo café-com-leite, algumas manchas pretas, várias costelas aparecendo. Seu dono não devia estar longe: pelo menos três moradores de rua dormiam a poucos metros do cão, cobertos debaixo de sujeira, indiferença e tiras de papelão. Na verdade, talvez o bichinho seja mesmo dono daquele espaço de chão, e eu que não tenha me apercebido disso. Afinal, quantas vezes terá o cachorro dormido ali, em noites frias ou calorentas, em quintas-feiras movimentadas ou domingos preguiçosos? As ruas têm suas próprias regras, seus códigos e soluções, então vai saber. Seja como for, sentou-se na calçada, com a inconsequência dos jovens de todas as espécies, com o ar distraído e tranquilo dos que nada entendem de stress, pressa ou compromissos.

Tal era a tranquilidade que emanava do bicho, tão forte era a sensação que ele passava de ser o dono daquele pedaço de pavimento, que de alguma maneira as pessoas que andavam por ali tornaram-se silenciosas cúmplices aquela auto-proclamada autoridade. Desviavam do cachorro de maneira quase inconsciente, muitas vezes sem nem olhar para baixo, convencidas de alguma forma mágica de que aquele animal estava em seu lugar e que a melhor coisa a fazer era seguirem em frente, sem incomodá-lo. Homens de terno e gravata, jovens moças sorridentes, vendedores ambulantes, trabalhadores, vagabundos e apressados de todos os tipos – todos desviavam do pequeno animal, sem ousar perturbá-lo, sem questionar a autoridade do grande espírito que comanda as ruas de todas as metrópoles do mundo.

Foi quando surgiu o casal. Não faço ideia de onde vieram; um casal humilde, com aquela idade indefinível dos pobres e sofridos, dos que tratam de viver sem ficarem contando a passagem dos dias e dos anos. O homem usava um jeans velho e chinelos de dedo; a mulher carregava uma bolsa chamativa e uma blusa que devia ter sido vermelha, mas agora tinha assumido um estranho tom de rosa esbranquiçado. Nenhum dos dois tinha todos os dentes na boca. Andavam de mãos dadas, sorrindo e conversando, como geralmente fazem os casais que se sentem felizes com a ideia de serem casais. Não eram um casal de tevê, de novela das oito; com certeza, eram muito mais interessantes. Iluminavam aquele viaduto sujo e mal cuidado com a beleza pura e ingênua do sentimento que nutriam um pelo outro, e eu gostei de vê-los, gostei de ser de certo modo testemunha daquela união.

E caminhou o casal em direção ao cão, atravessando a distância entre eles, aproximando-se até que a interação entre eles fosse inevitável. Ao contrário de muitos, perceberam o animal, e creio que comentaram algo a respeito dele, pois olharam para ele, olharam um para o outro e riram. E como precisassem desviar do bicho, e como não quisessem separar as mãos, simplesmente distanciaram-se um pouco um do outro, as mãos ainda dadas, erguendo levemente os braços em um pequeno arco. No momento em que passaram por cima do cachorro, o bichinho ergueu o olhar para um deles, com expressão de curiosidade, como quem honestamente não entendesse o propósito daquele improvisado balé. E assim os vi, o casal de mãos dadas, entre eles o cachorro, sobre o cachorro duas mãos que se uniam num misto de moldura e bênção.

Lamentei muito, muitíssimo mesmo, não ter algum equipamento comigo, ao menos um celular que pudesse registrar visualmente aquele momento de inesperada mágica. Se eu tivesse os meios, e se eu tivesse o talento, talvez pudesse ter extraído daquele pequeno instante parte da beleza que nele senti, e gerar uma imagem que fizesse a ele um mínimo de justiça. Mas assim não foi, infelizmente. Resta a imagem da minha visão, a foto agora impossível que carrego na minha retina e na minha memória. É uma bela foto, podem acreditar. De qualquer modo, a cidade segue me mandando esses sinais, esses pequenos momentos mágicos, essas histórias que se revelam e que precisam ser contadas. Não sei se a intensidade realmente aumentou, ou se sou eu que agora percebo melhor, que estou mais atento, os olhos mais abertos.

Enfim. Acho que preciso arranjar uma máquina fotográfica.

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São Paulo. Penúltimo dia do meu ano paulistano – afinal, agora nesse exato momento estou em Porto Alegre, onde entre festas com a família e reencontros com os sempre queridos amigos(as) vou terminar meu ano de fato. Um ano cheio de acontecimentos e de coisas sobre as quais pensar, mas enfim, não vem ao caso agora, ao menos não nesse post. O fato é que eu voltava para a casa onde (ainda) estou hospedado, pensando na vida e no que ainda precisava resolver para minha viagem até o Sul do Brasil, quando o típico barulho na janela do ônibus despertou minha atenção. Chuva, e não das mais fracas – pelo contrário, era uma rajada forte, violenta, do tipo que aparece quase de surpresa para jogar São Paulo no caos. Companheira de todos os atrasos e engarrafamentos, alguém poderia dizer. Seja como for, vinha eu tão distraído que nem imaginei que pudesse chover – e é claro que, como os que me conhecem melhor podem bem imaginar, eu não trazia comigo nenhum guarda-chuva nem nada do tipo. Ou seja, assim que eu saísse daquele ônibus, estaria à mercê do poder inclemente da Natureza – ou, falando sem poesia, ia tomar um belo de um caldo.

Pensei rapidamente nas minhas chances de fuga, e concluí que a melhor coisa seria descer uma parada depois do originalmente previsto. Nesse caso, além de me proteger embaixo do teto da parada de ônibus, mais amplo do que o de onde geralmente desço, teria a chance de me esconder no toldo de uma padaria logo à frente, caso a coisa continuasse preta como estava. Não era o plano mais infalível do mundo, eu sei, mas era o que tínhamos para o momento, de modo que o segui à risca. Fui até a parada, desci rapidinho para não me molhar e ali fiquei, totalmente ilhado, já que a chuva tava pesada e não tinha jeito de que ia aliviar de jeito nenhum. Situação complicada, essa – estava pertinho de meu provisório lar, mas não tinha a menor perspectiva de conseguir chegar até ele naquelas condições. É nessas horas que eu penso que, um dia, deveria arranjar um guarda-chuva para mim – mas sou meio acomodado nessas coisas, além de que nunca gostei de carregar guarda-chuvas, então vou levando e pensando com meus botões que desta vez passa, que na próxima oportunidade eu compro um, sim Deus, eu prometo. Sempre em vão. Deus já deve ter se acostumado, a essa altura.

Estava sozinho na parada, até duas mulheres chegarem, um pouco apressadas e conversando alto entre si. Chegaram, fecharam seus guarda-chuvas e ficaram ali, retomando o fôlego enquanto esperavam o ônibus que, pelo trajeto das linhas que ali passavam, deveria ser o que as levaria para a casa. Imagino, pela diferença de idade, que fossem parentes, talvez mãe e filha; uma senhora com o rosto emoldurado pelos primeiros cabelos brancos e uma moça de vinte e poucos anos, ambas de pele negra, roupas simples e o ar de tocante dignidade típico das pessoas humildes que nada devem a ninguém. A mais jovem, aliás, era uma moça muito bonita – cheia daquela beleza que, por não encaixar nos padrões absurdos e surreais que jogam todos os dias para cima de nós, acaba sendo assumida por muitos como beleza menor, ou como se nem beleza fosse. Era bonito o modo como ela sorria enquanto falava, um sorriso de dentes perfeitos e de uma alegria despretensiosa e sem disfarces. Era  bonito o modo como ela prendia o cabelo em um pequeno coque logo acima da nuca, e era bonito o pescoço que surgia pela gola da blusa cor de vinho que aquela moça vestia. Era bonita a cintura que às vezes se revelava entre a mesma blusa cor de vinho e o jeans sem cinto que a moça usava, e e era bonita a maneira como ela se inclinava de leve para ver se o ônibus vinha de trás da curva da rua. E eu confesso que fiquei ali, admirando discretamente aquela beleza que talvez nem se soubesse bonita, um pequeno e agradável consolo no meio daquela metrópole encharcada de trânsito, de chuva e de solidão.

Ficaram as duas ali talvez uns cinco minutos, rindo e conversando, até que o ônibus chegou e as levou para algum lugar longe do meu mundo e da minha vista. Fiquei de novo sozinho, eu e minhas ideias, eu e meus pensamentos, eu e minhas incertezas. Tudo bem, já estou me acostumando com essas companheiras, sempre presentes nos meus momentos de solidão. Passei com certeza uns dez minutos mais ali, sozinho, as pilhas do mp3 player gastas, ouvindo apenas o som da chuva e o compasso repetitivo dos meus pensamentos. Até que alguma coisa me disse para dar uma olhada para trás, para os assentos de ferro coberto de gotas de chuva, e o que eu vi? Um guarda-chuva. Um guarda-chuva enorme, vermelho e chamativo – que logo reconheci como o guarda-chuva da moça bonita que até menos de quinze minutos havia estado ali, naquela parada de ônibus, alegrando um pouco meus olhos enquanto esperava condução para a casa. Aparentemente, a moça o deixou ali por algum motivo qualquer, talvez para que o excesso de água escorresse, talvez para ajeitar alguma coisa nas suas roupas ou pegar algo na bolsa ou qualquer coisa do tipo – e, na pressa de subir no ônibus, o esqueceu atrás de si, deixando-o deitado entre os assentos pronto para ser útil a algum anônimo da cidade. Mais especificamente, para mim, esse humilde servo que ora vos digita.

Hesitei um pouco, admito. Me pareceu coincidência demais, um guarda-chuva enorme daqueles, esquecido em cima de uma fileira de assentos em um momento em que chovia tanto naquela área da cidade. Estaria quebrado? Peguei e testei rapidamente o bichinho: uma das pontas estava solta, mas fora isso funcionava perfeitamente. Ninguém em sã consciência deixaria intencionalmente para trás aquele guarda-chuva só por causa desse defeitinho de nada… Num dos cantos do tecido, estava o logo do Shopping Pátio Paulista, e uma mensagem alusiva ao 455º aniversário de São Paulo – coisa que, segundo me diz o Google, aconteceu nesse ano da graça de 2009, ou seja, o guarda-chuva era bem novinho no fim das contas. Enfim, pensei um pouco, medi os prós e contras da situação, e não deu para disfarçar um sorriso quando finalmente decidi aceitar a gentil oferta do Destino, abrir o guarda-chuva e encarar, agora totalmente protegido da tormenta, o caminho de volta para casa.

Ainda não me decidi se foi a moça quem, sem saber, me deu um singelo presente de Natal, ou se foi a cidade de São Paulo que, por meio dela, resolveu mandar um sinal de que vai com a minha cara e quer me ver de volta no ano que vem. Na verdade, podem ser as duas coisas ao mesmo tempo, por que não? Seja como for, fiquei sinceramente muito agradecido, e aproveito o final da historinha para desejar um Feliz Natal para a moça bonita da parada de ônibus, para a cidade de São Paulo e para todos vocês, queridos e persistentes leitores, que de um modo ou de outro me acompanharam nessa jornada maluca e emocionante 2009 adentro. Pretendo publicar mais dois textos aqui até o fim do ano: uma lista dos meus melhores discos de 2009 (que não saíram necessariamente em 2009, como vocês verão) que deve aparecer na véspera de Natal e um derradeiro post na finaleira do ano, fazendo do melhor modo possível a retrospectiva desse ano que foi, definitivamente, o mais bonito e cheio de lições de toda a minha vida adulta. Um grande abraço, e a gente se vê em seguida.

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Das incontáveis esquinas pelas quais tenho passado nas minhas andanças por São Paulo, uma delas talvez mereça um pequeno destaque. Trata-se do cruzamento da Avenida Brigadeiro Luís Antônio com a Rua dos Ingleses, que eu imagino que seja ainda na Bela Vista, embora não seja exatamente a esquina mais bonita da cidade. Passo por ali mais ou menos seguidamente, especialmente quando vou encontrar a Pati para uma conversa sobre a vida regada a alguns copos de cerveja. Para os que conhecem as ruas de São Paulo pelas referências da Corrida de São Silvestre (tudo bem, eu também era assim), digo que a Brigadeiro não é o que parece pela TV – trata-se de uma avenida sem muito encanto, que poderia ser bela se os seus prédios mais históricos não tivessem todo o jeito de terem servido de carvão para churrasco, e que é pouso cotidiano de uma série de mendigos e desgraçados de todas as cores e idades. A Rua dos Ingleses, por sua vez, é bem mais bonitinha, com belos jardins, sacadas e prédios daqueles que precisa ser alguém rico apenas para cogitar pagar o condomínio. O trecho que se encontra com a Brigadeiro, no entanto, não é dos mais bucólicos – de modo que, se quiséssemos traçar um paralelo entre mundos diferentes que se cruzam numa esquina, teríamos que procurar outro endereço, porque no cruzamento da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses tudo é mais ou menos a mesma coisa, para o bem e para o mal.

Mas enfim, tergiverso. O que de fato interessa na citada esquina é a barreira colocada dos dois lados da via, saindo da esquina da Brigadeiro e avançando alguns metros dentro da Rua dos Ingleses. A ideia, basicamente, é aumentar a segurança de pedestres e motoristas. O cruzamento é bastante movimentado, sendo uma das vias mais comuns de escoamento de carros para quem quer sair da Brigadeiro – e somando isso à geografia do lugar, capaz de ocultar pedestres que atravessem descuidados a rua, torna-se necessário uma grade do tipo para diminuir o risco de atropelamentos e demais acidentes. É um pequeno incômodo: ao invés de atravessar diretamente na esquina, o transeunte que vai pela Brigadeiro é forçado a subir um pouquinho a Rua dos Ingleses e atravessar uns dez metros adiante, onde fica mais fácil ver os carros que se preparam para subir a rua, oriundo dos dois sentidos da avenida.

Quer dizer, era para ser assim. Porque na verdade a preocupação do poder público com o bem estar do cidadão já foi suplantada, sendo substituída pela praticidade pouco responsável, mas eficiente no que se propõe. Algumas das armações metálicas que constituem a barreira foram torcidas, ou por meios mecânicos ou por insistência humana mesmo, e acabaram abrindo espaço para que as pessoas possam atravessar pelo meio delas, chegando ao outro lado da via sem ter que fazer o indesejado trajeto extra. Ou seja, criou-se um atalho no meio da barreira, automaticamente transformando a barreira inteira em pouco mais do que uma peça decorativa, um estranho pedaço de bizarra arte conceitual no meio da imensidão cinzenta. Perdi a conta de quantos eu vi passando pelos espaços abertos no meio daquele cercado já quase inútil – homens, mulheres, crianças, trabalhadores e vagabundos de todos os tipos, esgueirando-se entre o espaço aberto e cruzando rapidamente de um lado a outro, alheios a tudo a não ser suas próprias necessidades e urgências.

Estou a semanas perguntando a mim mesmo por que, no fim das contas, eu ignoro o espaço no meio da barreira e sempre acabo fazendo todo o trajeto, atravessando certinho no lugar indicado. Na verdade, é algo automático: eu simplesmente contorno o cercado, sem pensar no que estou fazendo, atravesso para o outro lado e só quando estou de novo na Brigadeiro é que me dou conta de que, mais uma vez, fiz o caminho mais longo. Sim, claro que é um dilema dos mais insignificantes; mas, por outro lado, me intriga essa atitude simples e mecânica, esse condicionamento a fazer algo que não é fisicamente necessário, e fico matutando sobre o que me leva a agir dessa maneira. Ainda mais reparando que praticamente ninguém age do mesmo modo, que escassos são os que se dão ao trabalho de atravessar no lugar certo, tendo a oportunidade de cruzar por entre as armações e chegar mais rápido do outro lado. Minha última lembrança nesse sentido é a de uma velhinha bem miúda, amparada por alguma parente ou acompanhante, que atravessou vagarosamente a rua e que, obviamente, não tinha condições físicas de fazer a pequena transgressão que os demais fazem de modo quase automático todos os dias. Não era o meu caso, no entanto – não vendo saúde, certo, mas tampouco teria problemas em fazer um pequeníssimo esforço de contorcionismo e atravessar pelo meio das grades. O que, então me impede? Preguiça? Medo de ir contra a lei? Cabeça dura? Conveniência?

Acho que a resposta me ocorreu agora a pouco, ao lembrar outra pessoa que vi atravessando a via no ponto correto, em direção contrária à minha. Era tarde da noite já, início de madrugada de um dia de semana, e o homem que vi era humilde, um negro de bermudas velhas e chinelos de dedo. Alguém que talvez more em algum cortiço próximo, e que havia certamente estado em algum boteco tomando cachaça antes de retornar para o relativo aconchego do lar. Vinha em passos lentos, mas não exatamente trôpegos, e tinha um pequeno sorriso no rosto, como quem está perdido em recordações leves e agradáveis. Duvido que tenha reparado em mim; passou reto, sem hostilidade mas sem interesse, andando devagar de volta para onde quer que fosse o lugar que chamava de lar. Eu, da minha parte, reparei nele, e especialmente no fato de que atravessou a esquina da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses de modo seguro e exemplar, como certamente teria sido recomendado por qualquer manual da Prefeitura. Tranquilo, sorridente, relaxado pelo álcool talvez, mas certamente sem pressa. Sem pressa nenhuma.

Acho que é isso, sabe? Isso é que me une a ele, isso que me une à velhinha e as outras poucas pessoas que vi atravessando aquela rua bem certinho, na faixa, sem passar por cima de barreira nenhuma: não temos, nenhum de nós, pressa nenhuma de chegar do outro lado. Quem corre são eles, os que têm trabalho, os que têm família, compromissos, obrigações, os que têm tudo, menos tempo a perder. Eu não sou um deles – e acho que mesmo que estivesse empregado, bem feliz da vida, ou mesmo num futuro com esposa, filhos e prestações me esperando, eu continuaria não sendo um deles. Porque eu estou aprendendo, e isso é uma das grandes lições desse 2009 maluco que estou tendo, que ter pressa não adianta nada; o negócio não é a rapidez, e sim a insistência. A vida não é uma corrida, não é uma competição de quem chega primeiro, e cada vez mais me parece que ninguém vence ou perde no final. Atravesso a esquina da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses no lugar indicado porque não tenho motivos para fazer diferente, e nenhuma vontade de me apressar. Acho que, agora um pouco melhor do que antes, entendo o que o Prof. Ungaretti sempre dizia sobre o jornalista ter que manter sempre a alma de um vagabundo. Se a gente corre demais, não aprecia a paisagem – e é isso que o negro de bermudas e cachaça na cabeça estava fazendo: ele estava, simplesmente, apreciando a paisagem. Sem pressa de chegar. Gosto de pensar que, no fundo, estou fazendo o mesmo, sabe? Mesmo porque, por mais cinzenta que seja, São Paulo sempre tem alguma paisagem para apreciar.

EM TEMPO: abri uma conta no Recanto das Letras, uma indicação do Jovem Posselt. Um lugar bacana, onde pessoas de todo o Brasil publicam seus trabalhos e onde colocarei sempre que possível parte da minha produção literária. Com a vantagem de ficar tudo protegido por Creative Commons, o que é bem útil e interessante. Estão todos convidados, desde já, a darem uma passadinha lá de vez em quando. Obrigado.

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Ok, ok, sei que isso aqui anda literário-inconsequente demais – vou tentar maneirar daqui por diante. Por enquanto, lá vai:

Era uma vez um rapaz que resolveu sair para tomar chuva. E fazia tempo que não chovia naquele mundo, para falar a verdade. Os escritores por aí gostam de falar de raios trovões que bagunçam e chovem todos os dias, mas às vezes se esquecem, por desatenção ou por desinteresse lírico, de falar dos trovões que nunca soam, das chuvas fugidias que nunca caem e acabam não bagunçando coisa nenhuma. Eis como era a situação do tempo no mundo do rapaz em questão – sol entre nuvens, um dia mais úmido ali, uma semana de ar seco ali, mas chuva mesmo não caia nunca.

Até que apareceu uma grande nuvem cinzenta no céu daquele mundo, e o rapaz animou-se bastante com aquilo. Era uma nuvem vendaval céu preto trovoada que prometia uma chuva daquelas, o que era uma tremenda novidade e deixou o rapaz imediatamente atento e com os olhos e ouvidos bem abertos. Estava longe ainda, não dava para ter certeza de quão grande era a nuvem e de quanta chuva trazia dentro de si – e, como a coisa toda estava demorando bastante para se aproximar, o que era animação foi virando ansiedade e o rapaz começou a ficar preocupado. Era só o que faltava, depois de tanta espera e tanta promessa, o trovão virar estalinho e a chuva virar vento molhado. Uma brisa gostosa vinha da direção na qual a nuvem surgia, trazendo um frescor agradável e um cheiro bom de terra molhada. O rapaz gostava daquilo, mas não achava que fosse o suficiente, e começou a caminhar na direção da nuvem, com uma ideia absurda na cabeça de que, se chegasse mais perto, a espera ia diminuir e ia ter mais chuva na qual se molhar.

Ficou andando o rapaz por um tempinho, mas a nuvem não parecia estar mais perto – na verdade, ela parecia estar se distanciando, como se um vento inoportuno surgisse sabe-se lá de onde para levá-la embora e fazê-la chover em outra freguesia. Começou a andar mais rápido, quase correr, mas não dava jeito de conseguir se aproximar da nuvem vento contrário relâmpago surdo não posso chover aqui desculpe até outro dia. Foi atrás dela por um bom tempo ainda, cada vez menos esperançoso, até que parou, frustrado e cansado, fechando os olhos enquanto tentava recuperar o fôlego.

De repente, assim mesmo sem aviso e sem sentido, começou a chover. Uma chuvinha bem leve de início, uma chuvinha ventinho frio barulho na janela carícia no rosto que pegou o rapaz de olhos fechados totalmente desprevenido, tanto que ele levou um tempo até perceber que de alguma maneira ele tinha alcançado a nuvem ou a nuvem tinha ido em direção a ele ou ambos ou nem um nem outro enfim não faz diferença. Abriu os olhos, viu encantado a chuva fraca caindo, sorriu com a timidez de quem nem lembrava que uma chuva de vez em quando podia ser tão agradável e bem-vinda. E ficou na chuva, e deixou que a chuva chovesse.

E então, tão de repente quanto tinha chegado, a chuva fraca dobrou-se num barulho de trovão e virou um temporal daqueles de meter medo. Uma chuvarada barulhão luz de relâmpago guarda chuva quebrado rua alagada engarrafamento que surpreendeu muito o rapaz, ao mesmo tempo que o deixou extasiado. Mal acostumado que estava, achava ele que qualquer garoa de quinta-feira à tarde era digna de ser chamada de chuva, de modo que nunca tinha imaginado que uma chuva pudesse ser tão forte, tão bonita e tão poderosa. Ficou totalmente encharcado em questão de instantes, e achou aquilo simplesmente sensacional, fechando de novo os olhos para saborear a sensação.

Pena, para o rapaz, que o temporal foi rápido – e parou tão de repente que, não estivesse o rapaz ensopado da cabeça aos pés, poderia até pensar que nunca tinha chovido. A chuva sumiu num vento gelado calçada molhada passarinho cantando chovi demais nem devia ter chovido chega de chuva adeus boa sorte, e veio um sol forte, um sol de protetor solar fator 50 para cima, um sol daqueles que parece dizer já era, rapaz, aqui não vai chover é nunca mais se depender de mim. Aceitou bem até o rapaz aquele final abrupto; afinal, uma chuva bonita e forte como aquela não podia mesmo ser normal. Ficou triste, mas ao mesmo tempo satisfeito de ter saído para tomar chuva, e resolveu ficar um tempo no sol, para ver se ficava seco e podia então voltar para casa.

Mas, e isso era uma coisa engraçada, ele nunca ficava plenamente seco. Por mais tempo que passasse, sempre parecia que tinha uma dobra da camisa, um espaço entre a meia e o tênis, algum lugar que continua molhado com as águas daquele temporal cada vez mais distante na memória. E dependendo de como o rapaz se mexesse, dependendo de como movesse a cabeça ou balançasse os braços ou olhasse para o horizonte, a descoberta de uma nova região úmida causava um calafrio dolorido, uma sensação debaixo da pele que era fria e quente ao mesmo tempo, uma espécie de dor que não doía mas que mesmo assim dava vontade de chorar.

Ficou um tempo bem grande ali, esperando que algo acontecesse, embora não soubesse àquela altura o que estava esperando no fim das contas. Então decidiu ir embora. Olhou rapidamente para o sol, que continuava ardendo como se fosse o único e eterno dono do céu, e começou a caminhar de volta para o mundo de sol entre nuvens do qual tinha saído. E foi com um susto e com uma correria no coração que viu o fiapo de nuvem cinza, bem longe na fronteira do céu com a terra, tão distante que um pouco mais de desatenção e o rapaz nunca teria reparado. Era parecida com a nuvem que tinha visto antes, a que tinha chovido tão bonito e o deixado todo molhado, mas podia muito bem ser uma nuvem diferente, de uma outra qualidade de chuva: estava muito longe, e ele não conseguia ter certeza. Ficou olhando, e começou a lembrar do vento gostoso, do cheiro de terra molhada e de tudo que tinha vindo depois daquilo.

Ficou na dúvida: ia até lá, ou ficava esperando? Tinha sido uma linda chuva, mas a sensação de estar todo molhado no meio do sol tinha sido muito ruim, e ele ainda lembrava, e ele tinha medo de sentir aquilo de novo. De mais a mais, estava tão longe… Hesitou um tempo, mas na verdade a hesitação era apenas da sua mente: seus pés já estavam andando na direção da tempestade.

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Era uma vez um Homem que, de uma hora para a outra, percebeu-se sem Perspectivas. Foi uma consciência muito repentina, e tão inesperada que pegou o Homem completamente de surpresa. Naquele instante inicial, sua reação foi de choque, quase de terror; sentiu-se indefeso, exposto ao ridículo como alguém que sonha estar nu em um escritório ou em sala de aula. Tratou de esconder sua falta de Perspectivas como pôde, disfarçando-a com sorrisos e frases de efeito, enquanto procurava um lugar no qual pudesse ficar sozinho e contemplar essa estranha e inesperada ausência.

Por mais que tentasse, foi incapaz o Homem de lembrar exatamente quando e como, no fim das contas, havia perdido suas Perspectivas. Teria ele, talvez, as esquecido dentro do ônibus, enquanto ia ou voltava do trabalho? Deixado alguma moça bela e perigosa levá-las consigo, entre beijos em uma pista de dança ou entre lençóis de uma cama de motel? Teria o Homem vendido suas Perspectivas em troca de uma casa bonita, um carro novo, um pouco de conforto, fins de semana livres, uma noite de sono? Ou talvez suas Perspectivas teriam simplesmente ido embora, cansadas de não servirem para nada, chateadas com a omissão do Homem, com sua falta de interesse e consideração? Essa última ideia, em especial, enchia o Homem de medo; pois se suas Perspectivas tinham o abandonado por vontade própria, de nada adiantaria procurá-las, pois elas se recusariam a voltar. Terrível, aquela sensação. De qualquer modo, não sabia o Homem como havia se dado a perda de suas Perspectivas, e por dias e dias ficou a remoer essa ausência, tentando entender onde havia errado, buscando de novo e de novo respostas para uma pergunta que sequer era capaz de formular com clareza.

Depois de algum tempo, conformou-se o Homem a não ter mais Perspectivas, e voltou aos poucos ao convívio dos seus, tentando ao máximo portar-se como antes, ver as coisas como antes, agir como se nada tivesse se perdido pelo caminho. Mas era difícil: uma vez percebendo que não tinha Perspectivas consigo, ficava o Homem incapaz de agir como antes, quando as tinha por perto ainda que não as notasse. Além disso, a convivência com as pessoas, antes tão agradável, tornava-se para ele amarga, cinzenta, quase uma tortura dependendo do dia e da situação. Via pessoas cercadas de Perspectivas que as ignoravam quase completamente, outras inclusive já sem nenhuma Perspectiva a seu lado, e vê-las totalmente alheias provocava no Homem calafrios de ódio. Por que, em nome de Deus, não conseguia o Homem ser como aquelas pessoas, ignorar totalmente o fato de não mais ter Perspectivas, viver dias sem significado com a alegria dos que simplesmente não se importam? E os que tinham Perspectivas, e as cultivavam, esses enchiam o Homem de um desconsolo que beirava a depressão. Pois aqueles Homens e Mulheres lembravam a ele que talvez tivesse perdido as suas Perspectivas para sempre, algo que sentia ter sido valioso e agora temia nunca mais poder recuperar. Aquelas pessoas, que andavam felizes ao lado de suas Perspectivas, tinham sido mais sábias e atentas do que ele próprio, e ao Homem pesava como chumbo a dor dessa constatação.

O outono virou inverno, o inverno reacendeu-se na primavera, a primavera ardeu em chamas no verão – mas para o Homem sem Perspectivas tudo era a mesma coisa, todos os dias eram cinzentos, todas as horas arrastavam-se dolorosamente rumo a um futuro que nada mais era do que uma extensão insossa do presente. Convencido pela próprio tristeza de que jamais reencontraria suas Perspectivas, entregava-se o Homem a uma Vida sem viver, a uma espera amarga pelo último suspiro, torcendo talvez para que a névoa dos dias nublasse sua consciência e o fizesse esquecer, enfim, que um dia Perspectivas haviam estado presentes em sua existência. Esqueceu muitas coisas, nesses dias que passaram sem que ninguém os tivesse contado – mas foi incapaz o Homem de ignorar completamente aquele espaço vazio dentro de si, por mais que o tentasse preencher com o que quer que parecesse adequado no momento. Tentou anestesiá-lo com bebida, apagá-lo com distrações eletrônicas, esquecê-lo nos braços e carícias de mulheres sem nome. Tentou cansar-se, desgastar-se, exaurir a si mesmo até que nada restasse, até que pudesse apenas jogar-se na cama e dormir por um longo tempo, dormir uma vida inteira, acordar renovado e esquecido de tudo que não estava certo em si e no resto do mundo. Mas por maior que fosse o sono, sempre acabava despertando – e, por mais que dormisse, nunca havia sido o suficiente.

Até que um dia, andando silencioso por uma rua cheia de som e vazia de harmonias, o Homem sentiu algo diferente. Não soube precisar, naquele exato instante, o que o havia atingido – foi algo fugaz, uma lufada de vento, o suave toque de uma Mão que escondeu-se antes que ele pudesse vê-la ou agarrá-la. De onde teria vindo? Foi para o Homem um momento febril; era como algo novo e ainda assim conhecido, uma sensação de reencontro indefinida e que pressionava seu peito com tanta força que deixava-o quase sem ar. Olhou para os lados, para os rostos indiferentes ao seu redor, e entendeu que, fosse o que fosse aquela sensação, era apenas sua: ninguém mais a percebia e, portanto, só ele poderia decifrá-la. Fechou os olhos, atendendo a um conselho vindo de algum lugar geralmente silencioso dentro de si: cheirou o ar, ouviu os sons da tarde, sentiu o vento suave contra as partes descobertas de seu corpo.

Então, decidiu-se. Andou em passos rápidos, sem saber para onde, sem calcular, movido apenas pelo impulso e pela urgência. Atravessou a rua, dobrou a esquina, viu uma porta, entrou. Demorou alguns segundos para perceber onde estava; não era um lugar extraordinário à primeira vista, e por algum tempo não conseguiu notar nada de especial à sua volta. Então, em um súbito raio de consciência, a Mão o tocou uma vez mais; o Homem voltou-se rápido, e então ele viu. Teve medo, mas respirou fundo, sustentando o olhar, deixando até escapar algo próximo a um sorriso de satisfação. A Perspectiva diante de si, porém, não devolveu o sorriso. Sem grosseria, mas com firmeza, agarrou o Homem pelo braço e apenas disse: vamos lá, mexa-se, estamos perdendo tempo.

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