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Archive for the ‘Cotidianas’ Category

Madrugada de sexta para sábado, primeiras horas de uma longa viagem de ônibus unindo Porto Alegre e São Paulo, o lado de lá da minha vida com o lado de cá do meu futuro, seja ele como e onde for. Madrugada quente, ônibus cheio, ar condicionado meia-boca, nenhum sono – elementos que, somados, provocam uma intensa necessidade de descer do ônibus, esticar as pernas, qualquer coisa. Nem as músicas salvadoras do meu mp3 player davam conta da ansiedade, ou seja, tava brabo o negócio. Finalmente, depois de alguns quilômetros de expectativa, o veículo estaciona em Sombrio (SC), numa das filiais do Japonez que pontuam as estradas do sul do Brasil. Alívio: uma passadinha no banheiro, um refrigerante gelado, uns bons minutos esticando as pernas para lá e para cá. Não imaginava eu que o nome da cidade onde estávamos ia acabar sendo bastante adequado para aquela madrugada…

Depois da inevitável pausa para tirar a água do joelho e o igualmente inevitável investimento de R$ 2,70 numa latinha de  Coca Cola, saí do estabelecimento, disposto a vagar sem rumo na volta do ônibus até que o motorista avisasse que era hora de embarcar. Ideia frustrada logo de cara, assim que saí do Japonez e vi que o meu ônibus, simplesmente, não estava mais lá. Com o raciocínio cínico e irônico que me caracteriza nesses momentos, pensei com meus botões imaginários que não tinha passado vinte minutos no banheiro, muito menos numa fila inexistente para pagar uma singela Coca gelada. E logo reconheci algumas pessoas que estavam comigo na jornada Brasil adentro – entre outros, um senhor falante com um defeito na mão que ia visitar a filha em Sampa, uma morena bonita e sorridente que rumava para Florianópolis, um cara que estava voltando de Pelotas onde tinha ido se matricular na Ufpel e uma trinca de irmãos, uma moça de vinte e poucos anos e dois garotos mais novos, que iam encontrar os pais em Camboriú ou algo assim. Ou seja, se eu tinha perdido a hora, não estava sozinho. Tinha um veículo da mesma empresa estacionado ali perto, mas vi pelo número do carro que não era o mesmo no qual eu tinha embarcado – algumas pessoas se confundiram, foram subindo as escadas e depois desciam, constrangidas com o equívoco e preocupadas com o abandono inesperado entre o nada e lugar algum.

Deduzi, após alguma consideração, que provavelmente o ônibus tinha ido abastecer sem avisar ninguém – algo bem possível, dada a pouca simpatia dos motoristas que nos conduziram pela viagem. Sou muito grato por terem me deixado em SP com segurança, mas pelo jeito eles trabalham demais, pois estavam bem estressados e foram um tanto grosseiros vez por outra. Enfim, a tragédia não era mesmo tão grande: depois de algum atraso, o busão reapareceu, as pessoas foram convidadas com toda a gentileza a embarcarem no veículo e beleza, vamos lá que ainda tem pelo menos umas 13h ou 14h de chão pela frente.

Sento no meu banco, ajeito os fones de ouvido e me preparo para fechar os olhos e tentar algo próximo do sono quando ouço o gemido, não muito alto, umas três ou quatro fileiras atrás de mim. Era um som misto, soma de uma dor ou desconforto genuíno com um lamento de decepção – algo do tipo “era só o que me faltava”, se é que me entendem. Como o som se repetiu algumas vezes, ficou claro que alguém atrás de mim estava passando mal – e imaginei que pudesse ser uma hipoglicemia, alguma coisa repentina e desagradável do tipo. Voltei-me para ver, mas estava um pouco longe, e os passageiros mais próximos já cercavam a pessoa que gemia, de modo que não dava para enxergar coisa alguma. Resolvi ficar sentado, já que muito ajuda quem não atrapalha – e abri os ouvidos, pois sabia que logo algum comentário perdido logo me esclareceria o que estava acontecendo.

Entendi a gravidade da coisa quando uma van dos bombeiros parou do lado do ônibus, descarregando dois paramédicos e equipamentos para transporte de pessoas imobilizadas. Quase ao mesmo tempo, ouço o senhor de mão defeituosa comentar algo do tipo “a mocinha tirou o joelho do lugar, coitada!”. Mais uma virada de cabeça, e finalmente enxergo: era a moça com dois irmãos, que estava rumando para a praia ao encontro dos pais que já estavam lá.  Antes dos paramédicos entrarem no ônibus, já tinha entendido tudo. A pessoa sentada na frente da moça tinha inclinado o assento para tentar dormir, e esquecido de colocá-lo na posição normal quando desceu para a pausa de 20 mins na viagem.  Ao embarcar, a moça acabou se contorcendo para desviar do assento inclinado e conseguir sentar no seu lugar – e nessa brincadeira, sei lá eu como, conseguiu de brinde um deslocamento de rótula. Bizarro, inesperado, e sem dúvida um bocado triste.

Cerca de vinte minutos foram necessários para tirar a pobre do lugar onde estava e colocá-la dentro da ambulância. O espaço de um corredor de ônibus pode parecer estreito para nós, imagine então tendo que carregar uma moça com o joelho deslocado, e com o mínimo de oscilação possível. Acho que os paramédicos fizeram um bom trabalho: desistiram logo de usar uma maca, e apostaram num aparato simples, algumas tiras aplicadas sobre o joelho lesionado que impediam um estrago ainda maior. Com um pouco de jeito, conseguiram tirar a moça de dentro do carro – moça que agora já quase não gemia, apesar do rosto visivelmente contorcido pela dor. Admiro a dignidade das pessoas que sofrem em quase silêncio, assim como respeito a explosão de som dos que dividem sua agonia com quem quer que esteja por perto; no caso, era uma jovem corajosa que tentava ao máximo guardar a sua dor – que não devia ser pouca – só para si. Como a ambulância estava praticamente do lado da minha janela, pude ver os bombeiros embarcando a moça rumo ao hospital – pude até ver, com a curiosidade mórbida que me desagrada mas que não posso negar que tenho, o pobre joelho desmontado da menina, mal coberto pelas tiras ortopédicas que o mantinham mais ou menos no lugar.

Desejei mentalmente boa sorte para ela, e fiquei pensando em como a gente não pode realmente fazer planos, em como a gente nunca sabe o que vai acontecer ali, na próxima curva do destino. Num momento, ela estava a caminho do abraço dos pais e das opções de lazer do litoral; no outro, um acidente estúpido e improvável a levava direto para o hospital, e forçava ela e seus irmãos a ficarem parados no meio do caminho, em território totalmente desconhecido. Eu mesmo: em menos de uma hora, tinha passado por duas situações imprevisíveis, que podiam ter mudado totalmente os meus planos e me deixado ali, em Sombrio, uma cidade na qual eu não teria a mínima ideia de como me virar. Acho que, de certo modo, é isso que a sabedoria oriental quer dizer com “não-expectativa” – entendermos que o futuro se escreve por linhas imprevisíveis, e que nossos esforços em torná-lo controlável são condenados ao fracasso, mais cedo ou mais tarde. Apreciar a beleza de não saber o que vai ser, enfim – talvez seja filosofia demais para uma parada no meio da estrada, mas a minha mente deixou-se levar. E quando o ônibus finalmente voltou para a estrada, depois de cerca de hora e meia de atraso, percebi que estava no meio da estrada, sem saber o que ia ser e quando ia chegar – e não só naquele ônibus, mas também na própria vida.

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Como alguns de vocês já devem saber, sou um recém-chegado no Twitter. Depois de muita hesitação (causada, basicamente, pelo temor de ter mais uma armadilha virtual sugando a minha vida), decidi que seria útil para passar adiante as coisas que faço em sites e blogs por aí, além de me dar a chance de seguir pessoas bacanas e ter contato com coisas legais que talvez não descobrisse sozinho. Ainda estou pegando o jeito, mas espero que seja algo interessante e produtivo – mais do que outras ferramentas, tipo Orkut e Facebook, que tenho usado cada vez menos e não duvido que sumam da minha vida de vez. Enfim, se alguém tiver algum interesse no que eu tenho a dizer por lá, tem um link ali do lado para quem quiser se arriscar a me seguir.

De qualquer modo, claro que se tem a chance de ler coisas excelentes por meio do Twitter, do mesmo modo que se tem contato com muita porcaria – não é assim, no final das contas, com tudo que existe na Internet? E no segundo quesito, li uma hoje que me deu vontade de comentar. Eu não sigo o Pedro Bial, mas soube via Folha que o jornalista soltou esses dias, via Twitter, a seguinte pérola de sabedoria:

“quando cansa-se de espiar, cansa-se da vida”.

Fico imaginando que diabos o atual apresentador do Big Brother tinha em mente quando cometeu essa singela frase. Deduzo eu que a ideia era defender a relevância do programa que apresenta, fazendo uma analogia com a curiosidade inerente ao ser humano, ou qualquer coisa assim. Quem se diz cansado de espiar (ou seja, abre mão da curiosidade intrínseca ao gênero humano representada no programa) está cansado da vida – ou, dizendo de um modo mais claro e menos filosófico, quem critica e/ou abre mão de assistir o Big Brother está, na verdade, distanciando-se de algo que não é apenas entretenimento, mas fundamental para a própria humanidade. Coisa, aliás, que Bial já defendeu, com outras palavras, em várias entrevistas que podem ser localizadas com certa facilidade via Google.

Na minha opinião, uma gigantesca bobagem. O Big Brother trouxe para a TV duas das coisas mais deploráveis do nosso atual estágio de civilização: a curiosidade não-produtiva e o culto à personalidade, quanto mais vazia melhor. Graças a esse programa, tivemos uma longa década de figuras sem nenhum talento especial virando celebridades instantâneas, a maioria consumidas rapidamente pela mídia e sumindo sem deixar vestígios – diz aí, fora a Grazi e a Sabrina Sato, lembra de mais alguma? Toneladas de papel e terabytes de dados são desperdiçados com pessoas cujo único mérito é exporem a si mesmas em um programa de televisão. E pelo quê? Para estimular uma curiosidade meio patética, travestida de representação da realidade. Certamente que todos nós temos um pouco de vizinha fofoqueira, de investigadores inoportunos da vida alheia, e isso se manifesta em inúmeros aspectos do nosso dia a dia. Mas qual o mérito possível em um programa que ganha audiência e preenche espaços publicitários explorando esse tipo de coisa? Entretenimento não precisa ser necessariamente construtivo, mas eu nunca vi o Faustão ou o Sílvio Santos tentando convencer alguém que seus programas eram mais profundos do que pareciam…

A curiosidade que de fato leva a gente para algum lugar não é a mesma que move quem assiste o Big Brother – ou pelo menos não é da mesma natureza. Curiosos todos somos, mas dá para ser curioso de maneira produtiva, tentando entender as coisas, aprender algo novo, criar novas alternativas e soluções. Vários bons programas de TV, a maioria deles em emissoras públicas, fazem exatamente isso. Essa é a curiosidade do Twitter, aliás – a de querer saber algo da vida dos outros, dividir algo com essas pessoas, mas sempre com a possibilidade de apontar para algo além, algum tipo de troca positiva e produtiva. Um programa do tipo “reality show” não faz análise alguma da realidade, não apresenta nenhuma observação crítica, não importa o quanto o Bial tente nos convencer do contrário.

A espiadinha do Big Brother encerra-se em si mesma – é uma curiosidade que anula, não traz entendimento, não aponta caminhos nem apresenta novidade alguma. É o mesmo sentimento que move alguém que assiste uma novela ou um seriado – a curiosidade de quem quer um pouco da vida dos outros para tentar esquecer da própria. E sem o potencial de crítica ou questionamento que uma novela ou seriado pode assumir, diga-se. Não é vida – é um anestésico. E nem um pouco construtivo. Pode até ser legítimo como distração, claro que pode – não gosto do programa, mas acho muito justo que alguém queira apenas uma distração rápida e rasteira no final do dia, por que não? Mas não venham querer me convencer que o Big Brother é algum tipo de análise social ou libelo a favor do espírito humano – porque, simplesmente, não é.

Em suma, e para combater uma frase de efeito com outra: se esse tipo de espiadinha é vida, então acho que a morte não deve ser tão ruim assim…

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Nunca curti carnaval. E quando digo “nunca” é nunca MESMO – nem quando era bem moleque, nem quando a vida ainda era (ou era para ser) uma grande brincadeira irresponsável e sem nenhuma consciência do amanhã. Eu era um moleque que achava um saco ver desfile na TV e que ficava enchendo o saco para voltar para casa quando meus pais inventavam de me levar num baile infantil ou algo assim – daí vocês já podem perceber muito bem que tipo de criança eu era… A adolescência, apesar das mulheres nuas e seminuas, não mudou essa minha aversão, e a ojeriza está totalmente consolidada agora, quando relutantemente sou forçado a referir-me a mim mesmo como uma pessoa adulta.

Acho que isso tem a ver com a minha personalidade, de modo geral. Não sou uma pessoa dada a demonstrações chamativas de alegria, a comemorações sem propósito definido e coisas assim. Imagino que seja a mesma coisa que me afasta de casas noturnas, baladas movimentadas e coisas do tipo. No fundo, acho que nunca entendi qual a graça nessa entrega total a cinco dias sem critérios, sem limites e sem motivos, onde todo mundo faz tudo que dá na telha para esquecer que no resto do ano não pode ou não consegue fazer nada disso. Sei lá, é falta de propósito demais para a minha visão contemplativa de mundo. Não acho que isso seja defeito das pessoas, sabe; se alguém está errado nisso tudo, provavelmente seja eu mesmo. E meus carnavais geralmente são uma merda (ano passado, por ex, foi uma bosta monumental), de modo que a folia também não se ajuda, digamos assim…

Mas aí eu vejo um post tipo esse do blog do Ungaretti (de onde peguei a foto emprestada, aliás) e fico pensando se, de repente, não sou eu que sou rabugento demais e não dou uma chance pro carnaval de verdade – não esse carnaval pateta da televisão, não essa bobagem escrota de transformar folia em campeonato, e sim um carnaval mais autêntico, mais romântico, mais desencanado e menos desvirtuado. Uma coisa popular de verdade, não um pretexto para fazer merda sem controle ou para ganhar dinheiro com turismo e propagandas na TV. Não que eu ache que ia amar de paixão participar de um bloco de rua, ou que eu ia curtir horrores os carnavais dos anos 40 ou 50 – como eu disse, eu sou uma pessoa que não nasceu para festejar como se não houvesse amanhã, e isso não muda nem com coma alcoólico nem com lança-perfume nem com nada disso. Mas talvez eu fosse, sei lá, mais simpático a essa manifestação popular, vai saber?…

Enfim, devaneios. O carnaval está aí, e – vai saber? – quem sabe ele resolve ser menos carrasco comigo desta vez. Vou ficar em Porto Alegre, em casa, sozinho e sem dinheiro – convenhamos, não é exatamente a situação mais animadora do universo, mas enfim. Algumas pessoas amigas vão compartilhar da folia-que-não-é-folia portoalegrense, então acho que alguns momentos divertidos vai dar para garantir. E, é claro, sempre tem muitos livros, filmes e CDs acumulados esperando por mim.  Tevê, só para assistir filmes e seriados… Vai ser, do mesmo modo, a minha última semana antes de voltar para São Paulo e definir, de vez, algumas coisas na minha vida. Ou seja, vai ser meio que um retiro com um sabor de despedida – o que, isso sim, se encaixa bem com minha visão contemplativa das coisas do mundo. Mal posso esperar, e espero que não demore muito para acabar…

Quanto ao blog, vamos ver. Vou estar basicamente ocioso, então talvez publique algo por aqui. Nada muito profundo e/ou pretensioso, até porque convenhamos, ninguém vai parar para ler justo o meu blog no meio do carnaval… Enfim, se você gosta de carnaval, divirta-se, e nos vemos a partir da quarta-feira de cinzas. E se você não gosta, boa sorte para nós, e a gente se encontra em breve por aí também. Saudações a todos, e sejam felizes, cada um do seu jeito.

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Esse post, embora curto, é praticamente comemorativo. Afinal, hoje foi o dia em que eu e um milhão e tanto de moradores de Porto Alegre entramos para a história. Às 17h30 de hoje, dia 03/fev/2010, um termômetro no bairro Menino Deus marcou 41,3ºC – temperatura que vem a ser a mais alta já registrada na cidade desde o começo das medições, no mui distante 1910. Ou seja, tivemos simplesmente o dia mais quente dos últimos 100 anos. Mais: o AccuWeather apontou a região de Porto Alegre como a mais quente do mundo nas últimas 48 horas. Claro que em alguns lugares tivemos temperaturas absolutas bem maiores, como no Saara, por ex – mas não esqueçamos que no deserto a temperatura cai muito quando a noite chega, de modo que a média do dia fica muito mais baixa do que o esperado. Na ponta do lápis e nos cálculos dos medidores, a região metropolitana de Porto Alegre venceu todo o resto do mundo – incrível, eu sei, mas absolutamente real.

No momento em que digito essas linhas, o termômetro marca 33,1ºC em Porto Alegre – e são 00:36 da madrugada de quarta para quinta-feira. Todas as informações dos institutos de meteorologia dizem que a temperatura não baixará dos 30ºC – algo inédito. Já estão desligando preventivamente a luz em algumas regiões da cidade, para evitar um apagão… Com tudo isso, não tenho a menor esperança de dormir hoje – sou uma pessoa calorenta por natureza, e mesmo em noites mais amenas do que essa (ou seja, todas) tenho dificuldade de conciliar o sono, então já viu. Vou passar a madrugada ouvindo música, lendo, escrevendo, sei lá – tentando desligar o cérebro desse calor horrendo e pensar em qualquer outra coisa.

De qualquer modo, sou testemunha de um momento histórico, de uma história que será contada em prosa e verso para as incrédulas gerações que virão – os dias em que Porto Alegre virou Forno Alegre, a cidade mais quente do planeta. Sinto-me quase orgulhoso, como talvez se sinta um sobrevivente de guerra. Ou de batalha, apenas: a previsão é de calor insano até segunda-feira que vem, com a possibilidade de atingirmos os 42ºC e, quem sabe, até superarmos o recorde nacional, de assustadores (mas alcançáveis) 45°C em Orleans (SC) e Paratinga (BA). A essa altura, eu não duvido – convenhamos, quem já chegou até aqui pode ir uns míseros graus Celsius mais longe…

Fica esse post como registro comemorativo, como abertura de campanha, e também como documento, caso todos morramos derretidos. Foi um privilégio, e até a próxima, se houver…

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O pequeno cãozinho sentou-se  no meio do Viaduto da Borges de Medeiros como se aquele lugar fosse dele, como se aquela calçada fosse sua propriedade eterna e inalienável. Era um vira-lata magrelo, de pêlo café-com-leite, algumas manchas pretas, várias costelas aparecendo. Seu dono não devia estar longe: pelo menos três moradores de rua dormiam a poucos metros do cão, cobertos debaixo de sujeira, indiferença e tiras de papelão. Na verdade, talvez o bichinho seja mesmo dono daquele espaço de chão, e eu que não tenha me apercebido disso. Afinal, quantas vezes terá o cachorro dormido ali, em noites frias ou calorentas, em quintas-feiras movimentadas ou domingos preguiçosos? As ruas têm suas próprias regras, seus códigos e soluções, então vai saber. Seja como for, sentou-se na calçada, com a inconsequência dos jovens de todas as espécies, com o ar distraído e tranquilo dos que nada entendem de stress, pressa ou compromissos.

Tal era a tranquilidade que emanava do bicho, tão forte era a sensação que ele passava de ser o dono daquele pedaço de pavimento, que de alguma maneira as pessoas que andavam por ali tornaram-se silenciosas cúmplices aquela auto-proclamada autoridade. Desviavam do cachorro de maneira quase inconsciente, muitas vezes sem nem olhar para baixo, convencidas de alguma forma mágica de que aquele animal estava em seu lugar e que a melhor coisa a fazer era seguirem em frente, sem incomodá-lo. Homens de terno e gravata, jovens moças sorridentes, vendedores ambulantes, trabalhadores, vagabundos e apressados de todos os tipos – todos desviavam do pequeno animal, sem ousar perturbá-lo, sem questionar a autoridade do grande espírito que comanda as ruas de todas as metrópoles do mundo.

Foi quando surgiu o casal. Não faço ideia de onde vieram; um casal humilde, com aquela idade indefinível dos pobres e sofridos, dos que tratam de viver sem ficarem contando a passagem dos dias e dos anos. O homem usava um jeans velho e chinelos de dedo; a mulher carregava uma bolsa chamativa e uma blusa que devia ter sido vermelha, mas agora tinha assumido um estranho tom de rosa esbranquiçado. Nenhum dos dois tinha todos os dentes na boca. Andavam de mãos dadas, sorrindo e conversando, como geralmente fazem os casais que se sentem felizes com a ideia de serem casais. Não eram um casal de tevê, de novela das oito; com certeza, eram muito mais interessantes. Iluminavam aquele viaduto sujo e mal cuidado com a beleza pura e ingênua do sentimento que nutriam um pelo outro, e eu gostei de vê-los, gostei de ser de certo modo testemunha daquela união.

E caminhou o casal em direção ao cão, atravessando a distância entre eles, aproximando-se até que a interação entre eles fosse inevitável. Ao contrário de muitos, perceberam o animal, e creio que comentaram algo a respeito dele, pois olharam para ele, olharam um para o outro e riram. E como precisassem desviar do bicho, e como não quisessem separar as mãos, simplesmente distanciaram-se um pouco um do outro, as mãos ainda dadas, erguendo levemente os braços em um pequeno arco. No momento em que passaram por cima do cachorro, o bichinho ergueu o olhar para um deles, com expressão de curiosidade, como quem honestamente não entendesse o propósito daquele improvisado balé. E assim os vi, o casal de mãos dadas, entre eles o cachorro, sobre o cachorro duas mãos que se uniam num misto de moldura e bênção.

Lamentei muito, muitíssimo mesmo, não ter algum equipamento comigo, ao menos um celular que pudesse registrar visualmente aquele momento de inesperada mágica. Se eu tivesse os meios, e se eu tivesse o talento, talvez pudesse ter extraído daquele pequeno instante parte da beleza que nele senti, e gerar uma imagem que fizesse a ele um mínimo de justiça. Mas assim não foi, infelizmente. Resta a imagem da minha visão, a foto agora impossível que carrego na minha retina e na minha memória. É uma bela foto, podem acreditar. De qualquer modo, a cidade segue me mandando esses sinais, esses pequenos momentos mágicos, essas histórias que se revelam e que precisam ser contadas. Não sei se a intensidade realmente aumentou, ou se sou eu que agora percebo melhor, que estou mais atento, os olhos mais abertos.

Enfim. Acho que preciso arranjar uma máquina fotográfica.

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São Paulo. Penúltimo dia do meu ano paulistano – afinal, agora nesse exato momento estou em Porto Alegre, onde entre festas com a família e reencontros com os sempre queridos amigos(as) vou terminar meu ano de fato. Um ano cheio de acontecimentos e de coisas sobre as quais pensar, mas enfim, não vem ao caso agora, ao menos não nesse post. O fato é que eu voltava para a casa onde (ainda) estou hospedado, pensando na vida e no que ainda precisava resolver para minha viagem até o Sul do Brasil, quando o típico barulho na janela do ônibus despertou minha atenção. Chuva, e não das mais fracas – pelo contrário, era uma rajada forte, violenta, do tipo que aparece quase de surpresa para jogar São Paulo no caos. Companheira de todos os atrasos e engarrafamentos, alguém poderia dizer. Seja como for, vinha eu tão distraído que nem imaginei que pudesse chover – e é claro que, como os que me conhecem melhor podem bem imaginar, eu não trazia comigo nenhum guarda-chuva nem nada do tipo. Ou seja, assim que eu saísse daquele ônibus, estaria à mercê do poder inclemente da Natureza – ou, falando sem poesia, ia tomar um belo de um caldo.

Pensei rapidamente nas minhas chances de fuga, e concluí que a melhor coisa seria descer uma parada depois do originalmente previsto. Nesse caso, além de me proteger embaixo do teto da parada de ônibus, mais amplo do que o de onde geralmente desço, teria a chance de me esconder no toldo de uma padaria logo à frente, caso a coisa continuasse preta como estava. Não era o plano mais infalível do mundo, eu sei, mas era o que tínhamos para o momento, de modo que o segui à risca. Fui até a parada, desci rapidinho para não me molhar e ali fiquei, totalmente ilhado, já que a chuva tava pesada e não tinha jeito de que ia aliviar de jeito nenhum. Situação complicada, essa – estava pertinho de meu provisório lar, mas não tinha a menor perspectiva de conseguir chegar até ele naquelas condições. É nessas horas que eu penso que, um dia, deveria arranjar um guarda-chuva para mim – mas sou meio acomodado nessas coisas, além de que nunca gostei de carregar guarda-chuvas, então vou levando e pensando com meus botões que desta vez passa, que na próxima oportunidade eu compro um, sim Deus, eu prometo. Sempre em vão. Deus já deve ter se acostumado, a essa altura.

Estava sozinho na parada, até duas mulheres chegarem, um pouco apressadas e conversando alto entre si. Chegaram, fecharam seus guarda-chuvas e ficaram ali, retomando o fôlego enquanto esperavam o ônibus que, pelo trajeto das linhas que ali passavam, deveria ser o que as levaria para a casa. Imagino, pela diferença de idade, que fossem parentes, talvez mãe e filha; uma senhora com o rosto emoldurado pelos primeiros cabelos brancos e uma moça de vinte e poucos anos, ambas de pele negra, roupas simples e o ar de tocante dignidade típico das pessoas humildes que nada devem a ninguém. A mais jovem, aliás, era uma moça muito bonita – cheia daquela beleza que, por não encaixar nos padrões absurdos e surreais que jogam todos os dias para cima de nós, acaba sendo assumida por muitos como beleza menor, ou como se nem beleza fosse. Era bonito o modo como ela sorria enquanto falava, um sorriso de dentes perfeitos e de uma alegria despretensiosa e sem disfarces. Era  bonito o modo como ela prendia o cabelo em um pequeno coque logo acima da nuca, e era bonito o pescoço que surgia pela gola da blusa cor de vinho que aquela moça vestia. Era bonita a cintura que às vezes se revelava entre a mesma blusa cor de vinho e o jeans sem cinto que a moça usava, e e era bonita a maneira como ela se inclinava de leve para ver se o ônibus vinha de trás da curva da rua. E eu confesso que fiquei ali, admirando discretamente aquela beleza que talvez nem se soubesse bonita, um pequeno e agradável consolo no meio daquela metrópole encharcada de trânsito, de chuva e de solidão.

Ficaram as duas ali talvez uns cinco minutos, rindo e conversando, até que o ônibus chegou e as levou para algum lugar longe do meu mundo e da minha vista. Fiquei de novo sozinho, eu e minhas ideias, eu e meus pensamentos, eu e minhas incertezas. Tudo bem, já estou me acostumando com essas companheiras, sempre presentes nos meus momentos de solidão. Passei com certeza uns dez minutos mais ali, sozinho, as pilhas do mp3 player gastas, ouvindo apenas o som da chuva e o compasso repetitivo dos meus pensamentos. Até que alguma coisa me disse para dar uma olhada para trás, para os assentos de ferro coberto de gotas de chuva, e o que eu vi? Um guarda-chuva. Um guarda-chuva enorme, vermelho e chamativo – que logo reconheci como o guarda-chuva da moça bonita que até menos de quinze minutos havia estado ali, naquela parada de ônibus, alegrando um pouco meus olhos enquanto esperava condução para a casa. Aparentemente, a moça o deixou ali por algum motivo qualquer, talvez para que o excesso de água escorresse, talvez para ajeitar alguma coisa nas suas roupas ou pegar algo na bolsa ou qualquer coisa do tipo – e, na pressa de subir no ônibus, o esqueceu atrás de si, deixando-o deitado entre os assentos pronto para ser útil a algum anônimo da cidade. Mais especificamente, para mim, esse humilde servo que ora vos digita.

Hesitei um pouco, admito. Me pareceu coincidência demais, um guarda-chuva enorme daqueles, esquecido em cima de uma fileira de assentos em um momento em que chovia tanto naquela área da cidade. Estaria quebrado? Peguei e testei rapidamente o bichinho: uma das pontas estava solta, mas fora isso funcionava perfeitamente. Ninguém em sã consciência deixaria intencionalmente para trás aquele guarda-chuva só por causa desse defeitinho de nada… Num dos cantos do tecido, estava o logo do Shopping Pátio Paulista, e uma mensagem alusiva ao 455º aniversário de São Paulo – coisa que, segundo me diz o Google, aconteceu nesse ano da graça de 2009, ou seja, o guarda-chuva era bem novinho no fim das contas. Enfim, pensei um pouco, medi os prós e contras da situação, e não deu para disfarçar um sorriso quando finalmente decidi aceitar a gentil oferta do Destino, abrir o guarda-chuva e encarar, agora totalmente protegido da tormenta, o caminho de volta para casa.

Ainda não me decidi se foi a moça quem, sem saber, me deu um singelo presente de Natal, ou se foi a cidade de São Paulo que, por meio dela, resolveu mandar um sinal de que vai com a minha cara e quer me ver de volta no ano que vem. Na verdade, podem ser as duas coisas ao mesmo tempo, por que não? Seja como for, fiquei sinceramente muito agradecido, e aproveito o final da historinha para desejar um Feliz Natal para a moça bonita da parada de ônibus, para a cidade de São Paulo e para todos vocês, queridos e persistentes leitores, que de um modo ou de outro me acompanharam nessa jornada maluca e emocionante 2009 adentro. Pretendo publicar mais dois textos aqui até o fim do ano: uma lista dos meus melhores discos de 2009 (que não saíram necessariamente em 2009, como vocês verão) que deve aparecer na véspera de Natal e um derradeiro post na finaleira do ano, fazendo do melhor modo possível a retrospectiva desse ano que foi, definitivamente, o mais bonito e cheio de lições de toda a minha vida adulta. Um grande abraço, e a gente se vê em seguida.

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Das incontáveis esquinas pelas quais tenho passado nas minhas andanças por São Paulo, uma delas talvez mereça um pequeno destaque. Trata-se do cruzamento da Avenida Brigadeiro Luís Antônio com a Rua dos Ingleses, que eu imagino que seja ainda na Bela Vista, embora não seja exatamente a esquina mais bonita da cidade. Passo por ali mais ou menos seguidamente, especialmente quando vou encontrar a Pati para uma conversa sobre a vida regada a alguns copos de cerveja. Para os que conhecem as ruas de São Paulo pelas referências da Corrida de São Silvestre (tudo bem, eu também era assim), digo que a Brigadeiro não é o que parece pela TV – trata-se de uma avenida sem muito encanto, que poderia ser bela se os seus prédios mais históricos não tivessem todo o jeito de terem servido de carvão para churrasco, e que é pouso cotidiano de uma série de mendigos e desgraçados de todas as cores e idades. A Rua dos Ingleses, por sua vez, é bem mais bonitinha, com belos jardins, sacadas e prédios daqueles que precisa ser alguém rico apenas para cogitar pagar o condomínio. O trecho que se encontra com a Brigadeiro, no entanto, não é dos mais bucólicos – de modo que, se quiséssemos traçar um paralelo entre mundos diferentes que se cruzam numa esquina, teríamos que procurar outro endereço, porque no cruzamento da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses tudo é mais ou menos a mesma coisa, para o bem e para o mal.

Mas enfim, tergiverso. O que de fato interessa na citada esquina é a barreira colocada dos dois lados da via, saindo da esquina da Brigadeiro e avançando alguns metros dentro da Rua dos Ingleses. A ideia, basicamente, é aumentar a segurança de pedestres e motoristas. O cruzamento é bastante movimentado, sendo uma das vias mais comuns de escoamento de carros para quem quer sair da Brigadeiro – e somando isso à geografia do lugar, capaz de ocultar pedestres que atravessem descuidados a rua, torna-se necessário uma grade do tipo para diminuir o risco de atropelamentos e demais acidentes. É um pequeno incômodo: ao invés de atravessar diretamente na esquina, o transeunte que vai pela Brigadeiro é forçado a subir um pouquinho a Rua dos Ingleses e atravessar uns dez metros adiante, onde fica mais fácil ver os carros que se preparam para subir a rua, oriundo dos dois sentidos da avenida.

Quer dizer, era para ser assim. Porque na verdade a preocupação do poder público com o bem estar do cidadão já foi suplantada, sendo substituída pela praticidade pouco responsável, mas eficiente no que se propõe. Algumas das armações metálicas que constituem a barreira foram torcidas, ou por meios mecânicos ou por insistência humana mesmo, e acabaram abrindo espaço para que as pessoas possam atravessar pelo meio delas, chegando ao outro lado da via sem ter que fazer o indesejado trajeto extra. Ou seja, criou-se um atalho no meio da barreira, automaticamente transformando a barreira inteira em pouco mais do que uma peça decorativa, um estranho pedaço de bizarra arte conceitual no meio da imensidão cinzenta. Perdi a conta de quantos eu vi passando pelos espaços abertos no meio daquele cercado já quase inútil – homens, mulheres, crianças, trabalhadores e vagabundos de todos os tipos, esgueirando-se entre o espaço aberto e cruzando rapidamente de um lado a outro, alheios a tudo a não ser suas próprias necessidades e urgências.

Estou a semanas perguntando a mim mesmo por que, no fim das contas, eu ignoro o espaço no meio da barreira e sempre acabo fazendo todo o trajeto, atravessando certinho no lugar indicado. Na verdade, é algo automático: eu simplesmente contorno o cercado, sem pensar no que estou fazendo, atravesso para o outro lado e só quando estou de novo na Brigadeiro é que me dou conta de que, mais uma vez, fiz o caminho mais longo. Sim, claro que é um dilema dos mais insignificantes; mas, por outro lado, me intriga essa atitude simples e mecânica, esse condicionamento a fazer algo que não é fisicamente necessário, e fico matutando sobre o que me leva a agir dessa maneira. Ainda mais reparando que praticamente ninguém age do mesmo modo, que escassos são os que se dão ao trabalho de atravessar no lugar certo, tendo a oportunidade de cruzar por entre as armações e chegar mais rápido do outro lado. Minha última lembrança nesse sentido é a de uma velhinha bem miúda, amparada por alguma parente ou acompanhante, que atravessou vagarosamente a rua e que, obviamente, não tinha condições físicas de fazer a pequena transgressão que os demais fazem de modo quase automático todos os dias. Não era o meu caso, no entanto – não vendo saúde, certo, mas tampouco teria problemas em fazer um pequeníssimo esforço de contorcionismo e atravessar pelo meio das grades. O que, então me impede? Preguiça? Medo de ir contra a lei? Cabeça dura? Conveniência?

Acho que a resposta me ocorreu agora a pouco, ao lembrar outra pessoa que vi atravessando a via no ponto correto, em direção contrária à minha. Era tarde da noite já, início de madrugada de um dia de semana, e o homem que vi era humilde, um negro de bermudas velhas e chinelos de dedo. Alguém que talvez more em algum cortiço próximo, e que havia certamente estado em algum boteco tomando cachaça antes de retornar para o relativo aconchego do lar. Vinha em passos lentos, mas não exatamente trôpegos, e tinha um pequeno sorriso no rosto, como quem está perdido em recordações leves e agradáveis. Duvido que tenha reparado em mim; passou reto, sem hostilidade mas sem interesse, andando devagar de volta para onde quer que fosse o lugar que chamava de lar. Eu, da minha parte, reparei nele, e especialmente no fato de que atravessou a esquina da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses de modo seguro e exemplar, como certamente teria sido recomendado por qualquer manual da Prefeitura. Tranquilo, sorridente, relaxado pelo álcool talvez, mas certamente sem pressa. Sem pressa nenhuma.

Acho que é isso, sabe? Isso é que me une a ele, isso que me une à velhinha e as outras poucas pessoas que vi atravessando aquela rua bem certinho, na faixa, sem passar por cima de barreira nenhuma: não temos, nenhum de nós, pressa nenhuma de chegar do outro lado. Quem corre são eles, os que têm trabalho, os que têm família, compromissos, obrigações, os que têm tudo, menos tempo a perder. Eu não sou um deles – e acho que mesmo que estivesse empregado, bem feliz da vida, ou mesmo num futuro com esposa, filhos e prestações me esperando, eu continuaria não sendo um deles. Porque eu estou aprendendo, e isso é uma das grandes lições desse 2009 maluco que estou tendo, que ter pressa não adianta nada; o negócio não é a rapidez, e sim a insistência. A vida não é uma corrida, não é uma competição de quem chega primeiro, e cada vez mais me parece que ninguém vence ou perde no final. Atravesso a esquina da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses no lugar indicado porque não tenho motivos para fazer diferente, e nenhuma vontade de me apressar. Acho que, agora um pouco melhor do que antes, entendo o que o Prof. Ungaretti sempre dizia sobre o jornalista ter que manter sempre a alma de um vagabundo. Se a gente corre demais, não aprecia a paisagem – e é isso que o negro de bermudas e cachaça na cabeça estava fazendo: ele estava, simplesmente, apreciando a paisagem. Sem pressa de chegar. Gosto de pensar que, no fundo, estou fazendo o mesmo, sabe? Mesmo porque, por mais cinzenta que seja, São Paulo sempre tem alguma paisagem para apreciar.

EM TEMPO: abri uma conta no Recanto das Letras, uma indicação do Jovem Posselt. Um lugar bacana, onde pessoas de todo o Brasil publicam seus trabalhos e onde colocarei sempre que possível parte da minha produção literária. Com a vantagem de ficar tudo protegido por Creative Commons, o que é bem útil e interessante. Estão todos convidados, desde já, a darem uma passadinha lá de vez em quando. Obrigado.

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