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Archive for the ‘Audiovisuais’ Category

Começa com um terremoto. Um tremor de terra, forte e vibrante, daqueles que puxa o chão debaixo dos pés como uma mão habilidosa tira de um golpe a toalha de uma mesa. Copos, pratos, talheres: tudo ao chão. O chão segue lá, depois do abalo que rearranja todo o resto – mesmo assim não há mais chão, não há mais céu, zênite e nadir anulados na escatológica ausência de referências. Uma inundação, seca, Sodoma e Gomorra, extinção. Não há rotação nem translação, as estrelas apodrecem e despencam do céu em um rastro amarelado, recendendo a enxofre. No olho do tornado, impera a calma; ao redor, confusão. Diante de tanta eloquência, mantenho o silêncio. Os tímpanos abafados, como se cobertos de cera de vela, como se a solidez do silêncio tornasse impossível todo e qualquer som. Olhando ao redor, nada se vê, e nada há para ser visto. O sol arde com a fúria de uma gigante vermelha; a chuva desaba inclemente como as lágrimas dos que não sabem chorar. Choro eu, junto com elas, enquanto meus lábios ensaiam a sombra de um sorriso. Rolo escada abaixo, caindo do topo das minhas certezas, de volta ao subsolo dos meus sonhos. Há fogo, sangue, gritos, risos. Tormentos e orgasmos. Poesia. Como poesia as bombas chovem do céu, enquantos relâmpagos surgem na trágica tentativa de abraço da terra com o firmamento. Mãos estendidas, surgem anjos e querubins: oferecem apoio, soluções, alternativas. E digo não. Terminou o Milênio, encerra-se o Kali Yuga, chega ao fim o décimo quarto b’ak’tun. É o fim do mundo: o que poderia ser feito a respeito? O fim encerra-se em si mesmo, não busca justificativas, não carece de nenhuma certeza ou explicação. Não busco salvação; estou perdido, e estou em paz. Contemplo a morte, bela como o rosto dos sonhos nunca lembrados, inevitável como o esquecimento que apaga a imagem e deixa apenas o eterno travo agridoce entre os lábios. A morte sorri; sorrio de volta, e me permito morrer. Haverá vida, depois de uma morte como essa? Não sei, não sei. E não importa. Estendo as mãos como um maestro, e enceno um regente diante da minha própria destruição. É o fim do mundo, e  me sinto bem. Muito bem.

(o embed do vídeo não é permitido. Morra, EMI America.)

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Como alguns de vocês já devem saber, sou um recém-chegado no Twitter. Depois de muita hesitação (causada, basicamente, pelo temor de ter mais uma armadilha virtual sugando a minha vida), decidi que seria útil para passar adiante as coisas que faço em sites e blogs por aí, além de me dar a chance de seguir pessoas bacanas e ter contato com coisas legais que talvez não descobrisse sozinho. Ainda estou pegando o jeito, mas espero que seja algo interessante e produtivo – mais do que outras ferramentas, tipo Orkut e Facebook, que tenho usado cada vez menos e não duvido que sumam da minha vida de vez. Enfim, se alguém tiver algum interesse no que eu tenho a dizer por lá, tem um link ali do lado para quem quiser se arriscar a me seguir.

De qualquer modo, claro que se tem a chance de ler coisas excelentes por meio do Twitter, do mesmo modo que se tem contato com muita porcaria – não é assim, no final das contas, com tudo que existe na Internet? E no segundo quesito, li uma hoje que me deu vontade de comentar. Eu não sigo o Pedro Bial, mas soube via Folha que o jornalista soltou esses dias, via Twitter, a seguinte pérola de sabedoria:

“quando cansa-se de espiar, cansa-se da vida”.

Fico imaginando que diabos o atual apresentador do Big Brother tinha em mente quando cometeu essa singela frase. Deduzo eu que a ideia era defender a relevância do programa que apresenta, fazendo uma analogia com a curiosidade inerente ao ser humano, ou qualquer coisa assim. Quem se diz cansado de espiar (ou seja, abre mão da curiosidade intrínseca ao gênero humano representada no programa) está cansado da vida – ou, dizendo de um modo mais claro e menos filosófico, quem critica e/ou abre mão de assistir o Big Brother está, na verdade, distanciando-se de algo que não é apenas entretenimento, mas fundamental para a própria humanidade. Coisa, aliás, que Bial já defendeu, com outras palavras, em várias entrevistas que podem ser localizadas com certa facilidade via Google.

Na minha opinião, uma gigantesca bobagem. O Big Brother trouxe para a TV duas das coisas mais deploráveis do nosso atual estágio de civilização: a curiosidade não-produtiva e o culto à personalidade, quanto mais vazia melhor. Graças a esse programa, tivemos uma longa década de figuras sem nenhum talento especial virando celebridades instantâneas, a maioria consumidas rapidamente pela mídia e sumindo sem deixar vestígios – diz aí, fora a Grazi e a Sabrina Sato, lembra de mais alguma? Toneladas de papel e terabytes de dados são desperdiçados com pessoas cujo único mérito é exporem a si mesmas em um programa de televisão. E pelo quê? Para estimular uma curiosidade meio patética, travestida de representação da realidade. Certamente que todos nós temos um pouco de vizinha fofoqueira, de investigadores inoportunos da vida alheia, e isso se manifesta em inúmeros aspectos do nosso dia a dia. Mas qual o mérito possível em um programa que ganha audiência e preenche espaços publicitários explorando esse tipo de coisa? Entretenimento não precisa ser necessariamente construtivo, mas eu nunca vi o Faustão ou o Sílvio Santos tentando convencer alguém que seus programas eram mais profundos do que pareciam…

A curiosidade que de fato leva a gente para algum lugar não é a mesma que move quem assiste o Big Brother – ou pelo menos não é da mesma natureza. Curiosos todos somos, mas dá para ser curioso de maneira produtiva, tentando entender as coisas, aprender algo novo, criar novas alternativas e soluções. Vários bons programas de TV, a maioria deles em emissoras públicas, fazem exatamente isso. Essa é a curiosidade do Twitter, aliás – a de querer saber algo da vida dos outros, dividir algo com essas pessoas, mas sempre com a possibilidade de apontar para algo além, algum tipo de troca positiva e produtiva. Um programa do tipo “reality show” não faz análise alguma da realidade, não apresenta nenhuma observação crítica, não importa o quanto o Bial tente nos convencer do contrário.

A espiadinha do Big Brother encerra-se em si mesma – é uma curiosidade que anula, não traz entendimento, não aponta caminhos nem apresenta novidade alguma. É o mesmo sentimento que move alguém que assiste uma novela ou um seriado – a curiosidade de quem quer um pouco da vida dos outros para tentar esquecer da própria. E sem o potencial de crítica ou questionamento que uma novela ou seriado pode assumir, diga-se. Não é vida – é um anestésico. E nem um pouco construtivo. Pode até ser legítimo como distração, claro que pode – não gosto do programa, mas acho muito justo que alguém queira apenas uma distração rápida e rasteira no final do dia, por que não? Mas não venham querer me convencer que o Big Brother é algum tipo de análise social ou libelo a favor do espírito humano – porque, simplesmente, não é.

Em suma, e para combater uma frase de efeito com outra: se esse tipo de espiadinha é vida, então acho que a morte não deve ser tão ruim assim…

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Paulo LeminskiNo domingo, dei uma passada na exposição do Paulo Leminski no Itaú Cultural. Tinha outras coisas lá, claro, e o poeta nem era o motivo maior da nossa visita à princípio, mas enfim, no meio de tantas atrações culturais foi ele quem me venceu. Tinha tido um contato mais ou menos superficial com a obra dele até aquele momento, e foi muito interessante o modo como a exposição trabalhou visualmente os já bastante visuais poemas do Leminski. Para expor o trabalho de alguém tão criativo, o espaço precisa ser usado de forma inventiva, e isso com certeza foi muito bem explorado. E tem que considerar que os poemas do cara ajudam muito também, claro. Lendo aqueles poemas – e até comentei isso com a Clau em certo momento – me senti tão pouco criativo, meio cego de boas ideias, tão meia-boca… E ao mesmo tempo estimulado, algo do tipo foda-se se tu é meia-boca, Igor Natusch, vai lá e escreve, escreve muito, escreve sem parar, escreve um monte de merda que seja, escreve que alguma coisa minimamente decente há de sair. Acho que é isso que os bons poetas fazem com a gente: nos incomodam, mas é um incômodo positivo, um incômodo que aponta para a frente, e não para trás. Nesse sentido, Paulo Leminski é um ótimo poeta, sem a menor dúvida. E me anima saber que ainda existem 18 caixas cheias de material dele, muito poema esperando para ser lido, muita coisa para ser catalogada e revisada e publicada por muitos anos ainda. De certo modo, Paulo Leminski ainda não acabou – melhor para nós.

oiticicaO mesmo, de certo modo, não dá para dizer do legado do Hélio Oiticica, que no último dia 16 transformou-se quase todo em cinzas graças a um incêndio na casa de seu irmão, onde o material era mantido. Pelo que li, 90% das obras dele foram consumidas pelo fogo – e isso é algo que sinceramente me dá um aperto no peito. Imagine isso – a expressão artística de uma vida inteira, todo o esforço de uma pessoa no sentido de juntar suas alegrias e dores e frustrações e ambições e sonhos e tudo o mais e transcender essas coisas todas em forma de arte… E tudo isso sumindo, sendo devolvido para o universo em forma de fogo, cinzas e fumaça. Todo artista, mesmo o mais diletante, tem uma nem tão secreta pretensão à eternidade – e no caso do Oiticica, que era um tremendo artista, boa parte da sua potencial eternidade simplesmente não existe mais. Para nós, pobres humanos incapazes de lidar com a ideia de que nada realmente permanece no mundo, é um golpe duro em nossas ilusões. Além de, é claro, ser uma tristeza para a arte brasileira. Imagina se aquelas dezoito caixas cheias de Leminski somem no meio do fogo, e nunca ficamos sabendo do que perdemos? Imagina se existe, sei lá, um Dostoievski inédito criando traças em algum depósito russo, uma obra perfeita que nunca será lida, que mesmo tendo sido para ele terminará sendo consumida pelo não-ter-sido para os outros? Imaginar que a arte, esse subterfúgio que usamos ao mesmo tempo como fuga e justificativa para o absurdo da vida, é ela mesma frágil como todo o resto e pode sumir antes mesmo de chegar a nós? Inquietante, eu diria. Não é à toa que os antigos tinham tanto medo de que suas bibliotecas virassem carvão… Mas enfim, ao menos nos restam 10% nesse caso específico – melhor aproveitar o que sobrou do que chorar o que nos vai ficar faltando de qualquer jeito.

De qualquer modo, mesmo não tendo muito a ver com o assunto principal do post, o fato é que estou com um sorriso gravado na minha memória. Um sorriso meio tímido, inseguro, que talvez tivesse medo de ser mal recebido, sei lá. Um sorriso que demorou a sair, e quando surgiu foi bonito como todas as metáforas bobas e melosas que vocês possam imaginar. Um sorriso bonito, basicamente, porque era puro. Um sorriso de criança, mesmo que a criança em questão fosse de espírito, e não de corpo e de idade. Se eu fosse Leminski, faria um poema a respeito; se fosse Oiticica, uma escultura ou um parangolé. Como sou apenas um Igor Natusch, vou me contentar em registrá-lo aqui, torcendo para que um dia ele vire algo mais bonito e criativo do que um nota de rodapé em um post de blog. E, é claro, torcendo para um dia poder retribuí-lo com mais calma, com mais tempo. Sem medo, e sem pressa.

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Desde que foi lançado, no distante 1973, o álbum “Dark Side of the Moon” do Pink Floyd entrou sem pedir licença para a história do rock e da música em geral. Com músicas que se uniam umas às outras por uma série de efeitos sonoros, lidando com uma série de assuntos ligados aos dramas da existência humana e concebido para homenagear o ex-membro da banda Syd Barrett, o disco é um dos mais vendidos da história e até hoje é referência em musicalidade, produção musical, lirismo e capacidade de experimentação. Na verdade, o disco é realmente maravilhoso e sozinho rende pelo menos um ótimo post, o que talvez possa ser o caso no futuro, quem sabe? Seja como for, parece natural que até hoje o trabalho motive discussões, análises e todo tipo de reflexão sobre suas temáticas e sonoridades. Uma das que sempre me chamaram especialmente a atenção, além de ser uma das mais curiosas e improváveis, é o efeito que é obtido tocando o álbum enquanto se assiste o filme “Mágico de Oz” – efeito ao qual convencionou-se aplicar a alcunha “Dark Side of the Rainbow”, que une o nome do disco com o da canção “Over The Rainbow”, a mais conhecida da trilha sonora original do filme.

Hoje em dia é impossível determinar qual foi o primeiro maluco a ter a ideia brilhante de rodar o disco enquanto assistia o filme, mas os primeiros sinais da história surgem em 1993 ou 1994 no alt.music.pink-floyd, lista de discussão do Usenet.  Há quem diga que desde a segunda metade dos anos 80 a historinha circula entre fãs do Pink Floyd, mas pessoalmente acho difícil que a lenda tenha surgido muito antes de 1993, e por um motivo simples: antes disso, o formato CD ainda não tinha se popularizado tanto assim – e seria virtualmente impossível aproveitar o efeito nos tempos do vinil ou K7, tendo que trocar de lado e tudo o mais. Seja como for, logo a coisa se espalhou e uma série de sites surgiram tratando do negócio, além da história ter ganho espaço também em programas de TV e jornais e revistas espalhados pelo planeta. Hoje em dia, a lenda urbana é muito popular entre fãs de rock em geral, e uma busca simples no Google gera mais de 44.000 resultados referentes ao assunto, o que prova entre outras coisas que esse humilde artigo aqui é tudo, menos original…

pink-floyd-dark-side-of-the-moonMas o que diabos vem a ser exatamente esse “Dark Side of the Rainbow”, você me pergunta? Bem, a ideia em si é simples, embora absurda à primeira vista – e provavelmente depois da primeira também, mas enfim. Colocando o CD de “Dark Side of the Moon” para tocar junto com o filme “O Mágico de Oz”, uma série de coincidências entre música, letra e imagem acabam surgindo – tantas que em vários momentos chegam realmente a impressionar. Trechos da letra parecem adequar-se a atos de Dorothy e seus amigos, seções instrumentais encaixam perfeitamente com momentos-chave do filme e movimentos dos personagens e da própria edição parecem ter uma correspondência incomum com a música que sai das caixas de som. Até mesmo aspectos não-musicais mostram uma estranha coincidência – veja a capa aí do lado e perceba que, depois de passar pelo prisma, o raio de luz se divide em cores, como acontece no próprio filme quando Dorothy chega a Oz… A impressão é quase a de que o disco foi de certa forma planejado para ser uma trilha sonora alternativa para o filme – uma ideia que podemos descartar rapidamente usando um pouco de lógica, mas que é fascinante mesmo assim, como pretendo discutir um pouco adiante. Tentando teorizar um pouco mais em cima da questão, dá para dizer que o resultado do amálgama – o “Dark Side of the Rainbow” propriamente dito – acaba sendo quase uma alegoria por si só, juntando os conceitos de filme e álbum e gerando uma interpretação nova e surpreendente. Isso eu também vou abordar um pouquinho mais logo a seguir, mas enfim, uma coisa de cada vez.

Existem divergências a respeito de alguns aspectos da experiência, e dois deles são especialmente dignos de atenção. Um é sobre o exato ponto do filme no qual o disco deve começar a ser tocado para produzir a sincronia mais adequada. Geralmente considera-se como a melhor “deixa” a aparição do leão da MGM, empresa que produziu o filme – bastaria aguardar pelo terceiro rugido do bicho, liberar o “pause” do CD e voilá, eis uma trilha sonora alternativa pronta para sua apreciação.  Alguns, no entanto, discordam – para eles, a sincronia perfeita seria logo no primeiro rugido, ou então mais além, quando o bicho sumisse no “fade” inicial do filme, fazendo com que música e imagem começassem mais ou menos ao mesmo tempo. A outra dúvida, talvez até mais séria, refere-se ao que fazer quando acaba a reprodução do disco. Como qualquer um que conheça o álbum sabe, o disco tem pouco mais de 42 minutos de duração – o que, logicamente, acaba sendo pouco para cobrir os pouco mais de 90 minutos do “Mágico de Oz”. Criou-se, então, uma série de teorias sobre o que fazer quando os batimentos cardiácos ao final de “Eclipse” marcam o encerramento do CD. Alguns acham que o negócio é simplesmente parar de assistir o filme, o que convenhamos que não tem tanta graça – mas outros defendem que basta acionar o “repeat” e deixar o álbum tocar de novo até que o filme chegue ao final, e há quem proponha até usar outros álbuns na sequência, sendo as formações mais conhecidas as que incluem os álbuns Floydianos “Animals”, “Meddle” e “Wish You Were Here”.

Bom, eu não ia fazer essa propaganda toda e deixar vocês na mão, certo? Então, amiguinhos/as, vou colocar aqui uma sequência de vídeos tirados direto do nosso amigo YouTube, no qual o serviço já está prontinho: é só carregar e assistir. Esses vídeos seguem a sincronia do terceiro rugido que citei acima, e cortam em sincronia com as faixas do CD para facilitar o carregamento, o que eu pessoalmente achei uma boa ideia. Vai parecer meio assustador o tamanho final do post, mas resolvi deixar eles aqui mesmo na página do blog para facilitar a vida de quem quiser assistir – quem não estiver com tempo ou vontade, pule ao final do post e estará tudo bem, espero. Embaixo de cada parte, vou listar rapidamente algumas das situações que acontecem em cada trecho do vídeo, como um pequeno guia mesmo. Na verdade, o ideal é que as pessoas tenham algum conhecimento do filme e/ou do disco, além de sacarem inglês para pegarem os detalhes das letras com maior facilidade – mas não tem problema, boa parte da coisa toda é bem intuitiva e dá para pegar bem rapidinho. Preparados? Então lá vai:

TRECHO 1

Nesse trecho inicial, acho que o mais chamativo são as sincronias do final da letra de “Breathe” com as cenas que vão ocorrendo no filme. David Gilmour canta “dig that hole” (“cave o buraco”) quando um personagem aponta para o chão, canta “the work is done” (“o trabalho acabou”) quando o homem fere a mão e para seu trabalho, “balanced on the biggest wave” (“balançando na onda mais alta”) enquanto Dorothy balança em cima da cerca e “you race towards an early grave” (“você se precipita para uma sepultura antes da hora”) quando ela cai no chão! Sem contar que a queda de Dorothy marca também o começo de “On the Run”, casando perfeitamente com a mudança de clima da cena… É interessante notar que até algumas ações do cachorrinho Toto combinam com elementos desta música.

TRECHO  2

O início de “Time” coincide com a situação do filme de tal maneira que dispensa maiores comentários.  Acho fascinante também ver que a letra “waiting for someone or something to show you the way” (“esperando por algo ou alguém que mostre o caminho”) surge logo antes de Toto reaparecer na janela de Dorothy, o que vai fazer com que ela decida fugir de casa… Gilmour canta “no one told you when to run” (“Ninguém te disse quando fugir”) em uma cena na qual Dorothy está sumindo no horizonte, e a sequência na qual aparece o velho com a bola de cristal também permite algumas interessantes relações.

TRECHO 3

A música “The Great Gig In the Sky” (“O Grande Evento no Céu”) começa no momento que Dorothy foge da presença do vidente, e serve de trilha sonora para… O tornado que a leva para a Oz! Essa parte é bem sensorial e bastante impressionante, nem tem muito o que explicar, assistam e percebam…

TRECHO 4

“Money” marca o início do lado B do disco – e também, como se vê aqui, a chegada de Dorothy em Oz e o começo da parte colorida do filme. A letra em si não me parece permitir muitas relações, mas a transição de clima é bem perceptível – afinal, a música é a mais “colorida” do álbum, e marca muito bem o surgimento da cor no próprio “Mágico de Oz”, além da chegada de Dorothy a um mundo muito diferente do qual ela está acostumada.

TRECHO 5

A abertura da faixa com os dizeres “Certificate of Death” (atestado de óbito) coincide com uma mudança no início de “Us and Them”. Note como as bailarinas entram em cena numa arrepiante sincronia com a linha inicial “Us… us… us…” (Nós) e como a dança a partir daí encaixa com o ritmo das mudanças da música. A Bruxa Má do Oeste surge ao som da palavra “Black” (negro), e logo depois David Gilmour canta “Blue” (azul), que é a cor do vestido de Dorothy! Sem contar que logo depois vem a frase “and who knows which is which” (“e quem é que sabe quem é quem”) – é só ouvir o segundo “which” como “witch” (bruxa) e o sentido muda bastante…

TRECHO 6

Trecho final, e com algumas sincronias clássicas. O início da música “Brain Damage” (“Lesão Cerebral”) é no momento em que surge nosso amigo Espantalho – que, como quem viu o filme sabe bem, quer ter um cérebro… O trecho “the lunatic is on the grass” (“o lunático está na grama”) é bem significativo. As árvores gritam com Dorothy no momento em que a letra fala de um “trovão em seu ouvido” (“Thunder in your ear”). E o melhor de tudo, para mim, está no final: o já belíssimo encerramento do disco com “Eclipse” fica ainda mais belo combinado com a cena em que surge o Homem de Lata. Perceba como a coisa tem um dramatismo e um lirismo todo especiais. E o disco termina como começou, com batidas de coração – no mesmo momento em que o Homem de Lata revela para seus amigos que não tem coração…

Bueno, depois de toda essa conversa, você me pergunta: e aí? Como explicar essa história toda? Embora ainda haja muitos que defendem a, digamos, intencionalidade da coisa (abraço, Milman), um esforço deliberado dos músicos e produtores nesse sentido parece bem improvável. Não só as dificuldades técnicas tornavam tudo muito difícil – basta lembrar que até 1975 não existiam nem mesmo videocassetes disponíveis no mercado – como também o formato em vinil tornava quase impossível apreciar plenamente o efeito, como já dito anteriormente. E o CD ainda estava a mais de uma década de distância… Ou seja, os caras teriam que se dar a um trabalho enorme, levando projetores para dentro do estúdio e tudo o mais, para gravar algo que não seria fácil de ouvir, pensando que em sabe-se lá quantos anos surgiriam equipamentos capazes de reproduzir um álbum em sequência e sem intervalos… Meio complicado, convenhamos – ainda mais que alguns dos músicos envolvidos, como David Gilmour e Nick Mason, já negaram mais de uma vez qualquer esforço nesse sentido. Ao mesmo tempo, deixar tudo como mera obra do acaso, coincidências simples sem qualquer significado real, acaba sendo uma solução meio desconfortável – se fosse uma coincidência aqui e outra ali, tudo bem, mas se vocês viram os vídeos devem ter percebido que não é bem por aí… Os mais céticos abraçariam a ideia de mera coincidência sem pensar muito, mas eu não sou cético, então ela pessoalmente não me agrada muito também.

magico-de-oz01E o que nos resta? Pessoalmente, gosto da ideia da sincronicidade, que os mais ligados em Carl Jung devem conhecer muito bem – uma linha de estudos que busca explicação racional para coisas que não fazem sentido dentro dos mecanismos de análise da ciência tradicional. A ideia toda serve como meio de analisar fenômenos que não são exatamente críveis, mas que fazem muito sentido para seus protagonistas, como a precognição e a clarividência. Eu acho que o que temos aqui é uma coisa parecida – afinal, são duas obras separadas no tempo e no espaço, mas que mesmo assim parecem ter uma ligação que vai além da mera coincidência. Mesmo porque, se a gente parar para pensar, os dois trabalhos lidam de modo geral com questões mais semelhantes do que podemos supor a princípio – inadequação, o confronto entre os dois lados antagônicos de nossas personalidades, a busca de algum tipo de transcendência de uma realidade que nos limita e oprime. Ambos são inegavelmente trabalhos de excelência em seus respectivos nichos – e talvez, quando a gente consiga atingir certo grau de brilhantismo, acabemos entrando em contato com uma certa esfera de consciência coletiva… Sei lá. Em resumo, “Dark Side Of the Moon” e “O Mágico de Oz” se relacionam porque foram inspirados pelo mesmo tipo de vibração, energia ou seja lá como você queira chamar – e isso pode soar meio Nova Era demais, eu sei, mas me parece a explicação menos absurda e estou sendo muito sincero a esse respeito. Inclusive, li em algum lugar há muito tempo atrás que o “Dark Side of the Rainbow” – ou seja, a junção das duas obras – seria de certo modo uma representação artística da vida de Judy Garland, a atriz e cantora que atua como Dorothy no filme. Acho a ideia muito fascinante, e o pior é que faz considerável sentido – dê uma pesquisadinha na Wikipedia e veja como a vida de Judy foi, digamos, complicadinha. Ela com certeza conheceu de perto o lado escuro da Lua, e tenho certeza que ela gostaria de encontrar um mundo mágico no qual seus problemas fossem eliminados em uma nova e colorida realidade. Não sei, mas considero essa brincadeira toda como uma das grandes evidências de que existe mais coisa unindo nossas vidas do que a simples luta diária por sustento, sobrevivência e perpetuação da espécie – pelo menos para mim, que gosto muito de música e de cinema, ela é muito tocante. E bem, sei que isso está longe de ser um fim original para um artigo que em si mesmo não é dos mais inovadores, mas faço minhas as palavras da música “Eclipse”, que tão bem encerra o disco que motiva essa história toda:

And all that is now
And all that is gone
And all that’s to come
And everything under the sun is in tune.

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Então tá. Já tive tempo para desarrumar todas as malas (não que tenha feito isso do jeito que deveria, mas enfim), então acho que é bom escrever logo meu relato sobre a semana em Gramado antes que a poeira baixe e eu esqueça todos os detalhes sórdidos de vez. Já é a quarta vez que embarco nessa aventura de cobrir todo o Gramado Cine Vídeo e todo o Festival de Cinema de Gramado – e, como era de se esperar, certas coisas se repetem de ano a ano, de modo que já não são de modo algum novidades nessa brincadeira. Por outro lado, sempre temos coisas diferentes acontecendo também – e, falando de um modo mais pseudo-filosófico, sempre é um Igor Natusch diferente que vai para lá, até mesmo porque sempre acabo fazendo aniversário por lá mesmo de qualquer modo. Então, é essa mistura de repetição e novidade que sempre acaba marcando esse período – e vou deixar aqui algumas impressões a respeito, sem muita preocupação com forma, estrutura, relevância ou qualquer outra coisa. Segurem-se, porque lá vai.

Bom, antes de mais nada, tenho que dizer que fui um pouco iludido para Gramado. Desta vez, como não era mais aluno da faculdade (sabe como é, me formei), minha ligação com o projeto era exclusivamente como técnico. Ou seja, imaginei na minha infinita ingenuidade que ia trabalhar um pouquinho menos – que ia ficar mais cuidando de fitas, baterias e cabos de microfone, deixando o bate-perna atrás de entrevistas e imagens para os alunos envolvidos com a brincadeira. Tolo, tolo que fui! Pois tive inúmeras vezes que participar da cobertura, porque sempre tinha muita coisa ao mesmo tempo – e igual tinha que cuidar de todo o equipamento, ou seja, muitas vezes trabalhei dobrado. O pessoal da sala de coletivas já me chamava até pelo nome, porque todo dia eu estava lá armando tripé e posicionando microfone – e de lá eu ia correndo para nosso QG, que o pessoal queria câmera pronta para as outras coberturas… Corrido, amiguinhos(as), bastante corrido. Mas que não pareça um lamento grande demais, porque foi divertido e eu gosto desse tipo de correria – estou só fazendo drama, como de hábito.

Quanto à equipe em si, conseguiu me surpreender positivamente. Não que eu esperasse uma tragédia, bem entendido – a questão é que era um grupo bastante novo, cheio de pessoas com pouca experiência no estúdio, e era de se esperar alguma dispersão e/ou falta de confiança em certos momentos. Mas não foi o que rolou – na verdade, todo mundo fez seu papel bem direitinho, sem problemas e quase sem episódios de embromação ou de “não-quero-fazer-isso”. Alguns momentos foram especialmente bacanas – como numa noite de tapete vermelho, em que a Isabel estava altamente tímida e sem jeito de ir entrevistas as pessoas, e de repente se empolgou e saiu atrás das pessoas e não perdoava uma celebridade ou pseudo-celebridade que fosse. Até a Elke Maravilha ela entrevistou! Se bem que a própria foi entrevistada pelo Mendigo (vocês sabem, o que era do Pânico e agora está sabe Deus em que emissora de TV), o que mostra que ela tem um ímã para entrevistas bizarras, seja de que lado do microfone ela fique… De qualquer modo, uma equipe bastante eficiente – e, embora eu ainda não tenha visto boa parte das imagens brutas que captamos, acho que não vamos ter muitos problemas para fazermos coisas legais com o que pegamos por lá. Parabéns para todo mundo, pois.

Quanto aos eventos em si, bem… Talvez o fato de ter visto outras três edições de cada um esteja meio que “viciando” a minha visão, mas acho que ambos estão em processo claro e evidente de mudança. O Gramado Cine Vídeo já se separou de vez do Granimado (mostra de animação, que agora vai rolar no período do Dia da Criança), parece estar seguindo o mesmo sentido com o Cinesocial (que esse ano estava enorme, tomando quase metade da programação do próprio GCV) e até com o Cineambiental, que ainda parece ter grande potencial de crescimento. Ou seja, o Gramado Cine Vídeo está se desmembrando, virando mais uma concentração de eventos do que um evento em si mesmo – o que não é ruim, de modo algum, apenas estou curioso para ver como vão administrar essa situação. E o Festival de Cinema, por sua vez, ainda está tentando achar o norte, depois de um tempo em que tinha virado um mero pretexto para o desfile dos globais. Acho que estão no caminho certo, mas a coisa tende a demorar – mesmo porque tanto público quanto imprensa ainda estão forçando a barra no sentido do glamour oco e sem sentido, e bem ou mal isso chama pessoas, o que é tudo que a administração de Gramado quer. É engraçado (e meio triste) ver gente que não tem nada para fazer em Gramado, tipo aquelas não-entidades do Big Brother, recebendo atenção e causando furor – enquanto o Domingos de Oliveira, que fez o melhor filme dos que pude ver no festival (Juventude) desfilava incógnito pelas ruas da cidade, cena que vi com os próprios olhos. Pois é, eu sei… Mundo cruel. Certas coisas não mudam num estalar de dedos, de qualquer modo.

Dos filmes que vi, “Nome Próprio” (que ganhou o prêmio de melhor filme e está estreando agorinha em Porto Alegre) é um trabalho bacana, com uma atuação profunda da Leandra Leal e algumas boas sacadas de câmera e tal. O problema é que ele é meio longo demais – chega um momento em que nada de relevante acontece, fica uma baita embromação e acaba sendo realmente irritante para quem já está há mais de hora e meia no cinema ver tudo se repetindo sem um motivo convincente. Não é mau filme, de modo algum – mas, considerando toda a badalação em cima, era para ser melhor. Como diz a sabedoria gringa, don’t believe the hype. E por falar em hype… “Netto e o Domador de Cavalos”. Como dizer? O filme vem sendo badaladíssimo há tempos, gastou-se uma grana pesada nele, vinha sido aguardado com expectativa já há mais de dois anos… E é uma bomba. Claro que as resenhas no Correio do Povo ou na Zero Hora vão dizer que é um filmaço (como já disseram), e não me dá muito prazer descascar o filme, pois alguns amigos(as) muito legais se envolveram de algum modo na produção e tal. Mas um “épico” de 90 minutos, com vários personagens que surgem e somem sem dizerem nada para a história, com falas risíveis como as do açoitamento do estancieiro dono do Negrinho e planos de fato muito bonitos sendo esquartejados com o uso inacreditável de zoom(!!!)… Não dá, fica difícil demais ser generoso nesse caso. E quando lembro de alguns dizerem que o cinema gaúcho é o “melhor do Brasil”, ahn… Enfim. O melhor que posso fazer é nem falar mais do assunto, então vamos pensar nos outros filmes. “Vingança” é uma boa estréia do Paulo Pons, um filme barato mas bem conduzido e que merece uma assistida assim, como quem não quer nada. “Dias e Noites”, infelizmente, é outro filme gaúcho de baixa qualidade (tomara que “Ainda Orangotangos” salve a nossa cara!), enquanto o mexicano “Cochochi” é daqueles que provavelmente jamais vai passar no cinema por aqui, mas merece uma passada na locadora ou uma procurada no Submarino – um filme sobre dois irmãos que perdem o cavalo do avô, bem tocante e rodado num estilo bem rústico, muito interessante. E “Juventude”, como já dito, é um baita filme – uma visão sobre amigos que se vêem ingressando na velhice, mas sem piedade e amargura. Pelo contrário, é um filme leve, divertido, que faz a pessoa levantar da poltrona sorridente e de pazes feitas com a vida. Não é à toa que foi aplaudido em cena aberta pelo menos três vezes, e que Domingos de Oliveira e o ator Paulo José foram aplaudidos de pé ao final da sessão. Filmaço, recomendo mesmo. O resto (incluindo o badalado e polêmico “Festa da Menina Morta”) eu não vi, então não posso falar nada.

Esse ano não ganhei prêmio algum lá no GCV (não que esperasse ganhar, mas enfim). Em compensação, consegui duas vezes saborear o histórico xis calabresa do Skilo Lanches, em oposição à solitária sessão de junk food celestial de 2007. Meu aniversário foi um horror, um dia em que virtualmente TUDO que podia dar errado aconteceu – datas e locais dos eventos sendo modificados a torto e a direito, problemas com transporte, dores de cabeça, e nem vou comentar sobre a cerimônia de encerramento do Gramado Cine Vídeo senão fico aqui até 2014. Mas fiquei admirado de ver como meu cinismo e ironia sobrevivem extraordinariamente bem em situações extremas – até na festinha terrível do fim da noite (verdadeira chave de chumbo para fechar um dia infernal) consegui dar risada e cometer algumas das minhas pérolas curtidas em veneno de cobra. Não tive muito tempo para contemplar as situações, coisa que gosto tanto de fazer – mas esse ano deu tempo de comprar uns chocolates para a galera, coisa que antes era quase impossível devido à correria. Ou seja, foi uma semana de opostos, de coisas que se anulavam e/ou se completavam. Num período em que tanta coisa está se encerrando na minha vida, Gramado 2008 também teve um indisfarçável sabor de “fim de festa” – mesmo porque não sei se farei esse programa novamente ano que vem e, caso o faça, se vai ser em circunstâncias iguais a que vivi esse ano e nos anteriores. Talvez seja hora de passar um aniversário em casa… Mas, do mesmo jeito de tantas coisas que estão acabando ou mudando de modo definitivo na minha vida, Gramado não ficou com um gosto ruim, pelo contrário – voltei para Porto Alegre com a mente tranqüila e o sentimento do dever cumprido, da melhor maneira. Tenho muitas idéias para digerir ainda – talvez algumas apareçam por aqui, talvez não. E, vai saber, pode nem ter sido um “tchau”, talvez seja apenas um “até mais ver”.

Era isso. Aos que me seguiram até aqui, obrigado e até a próxima.

P.S.: Não entendeu o título do post? Assistam “Juventude”, então ;)

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A Eurocopa anda dando várias satisfações para o meu lado apreciador de futebol. Quando falo em “apreciador de futebol”, entendam, não estou me referindo ao futebol bailarino, aos dribles da foca e pedaladas à Robinho que tantos elogios arrancam de nossa “mídia esportiva” – afinal, malabarismos com bola os elefantes de circo também fazem, e ninguém sai por aí chamando isso de futebol. Falo do futebol como eu acho que tem que ser – aguerrido, de qualidade técnica sim, mas disputado com determinação e acima de tudo emocionante. E quem falar que a Euro anda “chata” deve ser fã de hóquei ou algo assim, porque convenhamos, jogo emocionante não anda faltando…

Sexta-feira, por exemplo. Cróacia x Turquia, quartas de final. Como em praticamente todos os jogos importantes da minha vida, estou no estúdio, trabalhando – ajeitando arquivos, arrumando coisinhas, servicinho burocrático mesmo. A opção que me restava para ir acompanhando o jogo era o minuto a minuto do Terra, que é um lixo mas ao menos abre em qualquer PC furreca. Zero a zero. Aparentemente a Croácia pressionava, mas Rustu (o goleiro turco, para os não-iniciados) estava em grande jornada e mantinha o empatezinho sem graça. As horas vão passando, e o placar fechado se arrastando. Termina o tempo normal, e lá vem prorrogação, tudo no mesmo ritmo rumo-aos-pênaltis de antes. Nisso, aparecem dois alunos para perguntarem de edições e inscrições para o Gramado Cine Vídeo – gente, aliás, que eu sei de outros carnavais que são apreciadores de um futebolzinho amigo sempre que possível. Aproveitando o intervalo no trabalho para um gesto hospitaleiro e unindo o útil ao agradável, apelei às delícias do MyP2P futebolístico (coloquei o link ali do lado, aos interessados) para assistir em tempo real o finzinho do jogo. Demorou um tempinho, mas achei um canal funcionando no Media Player – e nisso já era uns 13mins do segundo tempo da prorrogação. Logo a seguir, gol da Croácia, numa falha do Rustu que estava até ali salvando os turcos da derrota: festa insana dos croatas, e eu e mais de três quartos do mundo pensamos cá com nossos botões “é, já era para a Turquia”. Já estamos nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação, não tinha tempo para mais nada do ponto de vista racional, e os dois alunos e eu estamos conversando sobre a iminente classificação croata. No momento fatal, só eu estou olhando para a tela do computador, um pouco distraído até – e eis que Rustu, o herói que quase vira vilão, dá um chutão para a frente, a defesa croata bobeia, e em um milésimo de segundo eu encarno repentinamente Paulo Odone na Batalha dos Aflitos, gritando “OLHA LÁ, OLHA LÁ” enquanto os dois estão dando risada de alguma coisa que não lembro o que é. Não adiantou, claro: só eu vi o gol milagroso da Turquia, empatando o jogo no apagar das luzes para o espanto de todo o mundo – e para desespero de um dos presentes, que até pouco antes do desfecho inesperado estava a lembrar alegremente as raízes européias de seu avô ou bisavô croata. Mais uma vez, o futebol ensinava ao mundo que nada está decidido antes do apito final, e que sempre está em tempo de um milagre, mesmo que tudo conspire contra.

Os turcos terem ganho nos pênaltis no fim das contas (com Rustu pegando o derradeiro e virando de vez o favorito nas próximas eleições para a presidência da Turquia) nem faz diferença no final da história: o negócio foi a superação heróica num momento em que nem a mãe do Rustu deveria ainda acreditar no milagre. E ainda enchem a boca para dizer que a Euro 2008 está “fraca”. Querem futebol arte, meus amigos? Peçam emprestado o DeLorean de Doc Brown, porque nem a seleção brasileira anda oferecendo isso – muito pelo contrário, aliás. Querem ver a torcida mineira bater palma para o Messi, ouvir o Galvão Bueno gritando “PEDAAAAAALA ROBINHO!” nos momentos mais esdrúxulos, e assistir um time de burocratas amarelos correndo atrás de uma bola com o fastio de quem já conquistou tudo que queria na vida, tudo isso em nome de um patriotismo oportunista e bolorento? Tudo bem, boa sorte para vocês. Da minha parte, morro abraçado com os jogos talvez pouco brilhantes, mas dramáticos e emocionantes da Euro, que eu ganho mais.

EM TEMPO (1): Não sei o que é mais estranho: usar terno ou uniforme de trabalho…

EM TEMPO (2): Deixem de ser chatos, oh, vocês que criticam “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”. Não podem simplesmente sentirem-se gratos de termos um novo filme de Indiana Jones depois de todos esses anos, ao invés de ficarem reclamando de tudo? Tá que o ritmo quase lúdico dos filmes anteriores meio que se perde no meio de algumas cenas de ação que mais parecem Matrix, que o carinha de jaqueta de couro e metido a motoqueiro não tem muito carisma e que o fim da história é um tanto quanto nada-a-ver, mas e daí? É um filme divertidíssimo, que se assiste alegremente comendo pipoca enquanto o cérebro dá uma voltinha – qual o problema com isso? Não era isso mesmo que os outros eram? E que diabos, tem a Cate Blanchett ainda por cima. Chatos, chatos, todos vocês. Hunf.

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1) Podemos dizer que estou em férias desde o dia 28 de dezembro do (vejam só) ano passado – e graças ao recesso de carnaval, podemos dizer também que as minhas férias irão até o dia 06 de fevereiro, quarta feira de cinzas, quando terei que trabalhar no turno da tarde. Ou seja, já se passaram pouco mais de duas semanas, e ainda tenho quase um mês de descanso. E, como não poderia deixar de ser, já está começando a encher o saco.

2) Tenho ido deitar muito tarde ultimamente – e quando eu digo “muito tarde” é tarde mesmo, quando o calor do dia já é apenas uma lembrança, quando não tem mais vivalma no msn e quando os canais de TV já estão passando desenhos do Popeye para preencher espaço e poderem dizer que ficam 24 horas no ar. Claro que eu sempre deitei tarde, mas a situação de estar em férias parece ter levado esse hábito a extremos – tanto que, um dia desses, fiquei pensando se eu não fazia isso com alguma intenção inconsciente, como se eu quisesse avançar dormindo durante o dia para fazê-lo parecer um pouco menor. De repente, pode até ser isso mesmo.

3) Tenho ouvido muito, mas muito punk rock ultimamente. Não que isso seja inédito na minha vida, já que eu sempre gostei da coisa e nunca fiz segredo disso – mas nos últimos dias o negócio anda realmente exacerbado, praticamente fugindo de controle. Redescobri o Bad Religion, tirei os velhos CDs do GBH da estante e ando baixando um monte de bandas de street punk e Oi! Music – que muita gente associa com skinheads nazistas e movimentos de extrema-direita, mas que na moral pouco ou quase nada tem a ver com isso. Um dia, talvez, eu aprofunde o assunto. De qualquer modo, Cockney Rejects, The Business, UK Subs, Dropkick Murphys, The Oppressed, são essas bandas que andam marcando presença na minha playlist (detesto essa palavra, mas enfim). E a coisa fica mais grave, se consideramos que eu ando não só ouvindo como também compondo músicas punk! É assustador, eu sei, mas está acontecendo de verdade. Um dia desses vou ter que juntar uns caras e fazer uns ensaios por aí… Não surpreende, portanto, que eu vá usar uma música do Cock Sparrer na minha formatura – quem estiver lá, ouvirá. Ou não, porque o som toca super baixo e o pessoal faz bastante barulho, mas vai saber…

4) Sobre a formatura, aliás: ando pensando nela bem menos do que deveria. E não consigo me sentir culpado por isso.

5) Estava sem nada em casa para ler, daí dei uma vasculhada no fundo do armário e achei uma coletânea de contos de Brett Harte, edição bem vagabunda da Cultrix, que eu tinha comprado a preço de banana numa Feira do Livro da vida e não tinha nem olhado depois disso. Então tá, melhor que nada, vamos ver qual é a do homem. Resultado: li todos os contos, e assim que acabei o último deles eu simplesmente comecei a reler o livro todo. O cara escreve sobre a corrida do ouro nos EUA, e as histórias dele juntam muitas das coisas que mais me atraem na literatura: personagens simples, muitas vezes ‘malditos’, que oferecem pequenos atos de indignidade, pequenos gestos de bondade e nobreza, e que com essas pequenas atitudes nos fazem pensar em muitas, muitas coisas. Li na introdução que Dickens teria ficado comovido às lágrimas depois de ler “Os Exilados de Poker Flat” – e eu o entendo, pois de fato é um conto lindo, em mais de um aspecto. Segunda feira eu devo dar uma vasculhada em uns sebos por aí, em busca de coisas para ler, e Brett Harte será sem dúvida lembrado com carinho na hora de encher o saco dos atendentes.

6) Ir ao cinema, definitivamente, é o melhor programa para quem está de férias, sozinho, em uma cidade que mais parece uma fornalha. Nem tanto pelos filmes (não vi nenhum que eu realmente tenha curtido, para ser honesto, mas isso deve mudar quando eu finalmente for assistir “Across the Universe”), mas muito mais por sair de casa e poder curtir um ar condicionado. Só de ter algo para fazer já me sinto melhor: tenho chegado a inventar compras ou contas para pagar, só para ter uma coisa com a qual ocupar o meu tempo. Eu tive até que ir no estúdio uma vez, para resolver pequenas pendengas, e achei divertido… É incrível como, quando a pessoa está trabalhando, tudo que ela quer é parar – e, depois de meras duas semanas parada, essa mesma pessoa não agüenta mais e quer desesperadamente achar algo para fazer. O calor só dificulta: convenhamos que ter vontade de sair quando não há sombra à vista, vento é uma peça de ficção e o termômetro aponta 38 graus é tarefa das menos estimulantes. E o legal é que, esses dias, fomos eu e o Ramiro lá no Gasômetro, testar o áudio do curta “O Horla” (co-dirigido e roteirizado por esse humilde servo que vos fala), e a sala de cinema está sem ar condicionado devido a uma reforma. Foi tão divertido, vocês nem imaginam…

RESUMO DA ÓPERA: não ando fazendo nada que preste e tenho me sentindo sozinho para caramba. Mas acho que vou sobreviver :)

Por enquanto, é isso. Voltamos outra hora, se possível com um post menos personalista, mais relevante e menos reclamão. Saludos!

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