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Os leitores que eventualmente passam por aqui já devem ter notado o silêncio virtual que tomou conta desse espaço nos últimos dois meses e tanto. Acho que o fato de estar todo esse tempo sem postar nada já explica várias coisas em si mesmo, mas mesmo assim os leitores e amigos merecem alguma satisfação. E esse post surge para romper o silêncio, ainda que avisando: daqui para a frente, o silêncio será permanente.
 
Estou encerrando as atividades do blog. Os motivos, como sempre, poderiam render um monte de conversa, mas acho que posso resumir tudo dizendo que não ando mais com vontade nenhuma de dizer absolutamente nada por aqui. Foi um espaço muito útil, no qual passei cerca de três anos expondo ideias e publicando textos que falavam de mim e do modo como eu encarava o mundo. Mas agora as coisas estão diferentes. Tenho desenvolvido há algum tempo um trabalho com o blog futebolístico Carta Na Manga, e estou muito feliz com o crescimento que ele tem tido. Atualmente, estamos incluídos entre os blogs parceiros do Sul21, uma iniciativa muito legal que eu espero que dê muito certo. Em outro sentido, estou disposto a retomar um velho e nunca concretizado projeto, sobre o qual não vou entrar em detalhes por enquanto, mas que vai envolver boa parte do meu tempo caso de fato se concretize. Ou seja, estarei fazendo bastante coisa na internet – e esse blog pessoal e sem foco simplesmente não combina mais com nada disso.

Por outro lado, a minha vida está mudando bastante também. Como quem leu meus posts no último ano e meio sabe, vivi um período de profundos questionamentos e muitas incertezas, tentando buscar um caminho que me levasse na direção dos meus sonhos. Não saiu como eu planejei, até porque coisas assim não dá para planejar – mas estou tomando decisões sérias, que vão fazer diferença na minha vida, e me convenci que não tenho mais tempo a perder. E, com toda a sinceridade, manter esse blog ativo seria uma perda de tempo para mim. O que eu podia dizer por meio dele eu já disse; o que ele podia me ajudar no sentido de entender a mim mesmo e ao mundo, ele já ajudou. Está na hora de fazer diferente – e é nessa direção que eu pretendo ir daqui para a frente.

Seguirei escrevendo, e não só para o Carta e para o novo projeto que talvez se concretize – quero retomar a produção literária, que ando negligenciando muito e que precisa de atenção e carinho da minha parte. Se eu quero que ela vá para algum lugar – e eu quero – preciso dar esse foco para ela também. Então boa parte do meu tempo livre vai para isso também.

Estão todos autorizados a retirar o blog de suas listas e blogrolls. O fim dele não é apenas retórico: em muito breve, coisa de um mês ou pouco mais, tirarei a página do ar de vez. Estou selecionando o que eu acho que merece ser preservado, e talvez no futuro esses textos escolhidos ressurjam em diferente roupagem; o resto, deletarei sem muita piedade.

Espero que não fique nenhuma impressão de amargura ou de tristeza nessa minha despedida. Pelo contrário: é uma decisão tranquila, feita com calma e até um certo alívio. Para os que estranham meu sumiço, bastante acentuado nos últimos meses, não se preocupem: estou bem, e em certos pontos posso inclusive dizer que nunca estive melhor. O que ainda está confuso ou fora de foco, pretendo corrigir nos próximos meses. E o caminho pode ser poeirento, a estrada dura de trilhar, mas as boas estradas estão esperando – e não tenho tempo a perder.

Saudações a todos, e nos vemos em breve. Isso é uma promessa!

Começa com um terremoto. Um tremor de terra, forte e vibrante, daqueles que puxa o chão debaixo dos pés como uma mão habilidosa tira de um golpe a toalha de uma mesa. Copos, pratos, talheres: tudo ao chão. O chão segue lá, depois do abalo que rearranja todo o resto – mesmo assim não há mais chão, não há mais céu, zênite e nadir anulados na escatológica ausência de referências. Uma inundação, seca, Sodoma e Gomorra, extinção. Não há rotação nem translação, as estrelas apodrecem e despencam do céu em um rastro amarelado, recendendo a enxofre. No olho do tornado, impera a calma; ao redor, confusão. Diante de tanta eloquência, mantenho o silêncio. Os tímpanos abafados, como se cobertos de cera de vela, como se a solidez do silêncio tornasse impossível todo e qualquer som. Olhando ao redor, nada se vê, e nada há para ser visto. O sol arde com a fúria de uma gigante vermelha; a chuva desaba inclemente como as lágrimas dos que não sabem chorar. Choro eu, junto com elas, enquanto meus lábios ensaiam a sombra de um sorriso. Rolo escada abaixo, caindo do topo das minhas certezas, de volta ao subsolo dos meus sonhos. Há fogo, sangue, gritos, risos. Tormentos e orgasmos. Poesia. Como poesia as bombas chovem do céu, enquantos relâmpagos surgem na trágica tentativa de abraço da terra com o firmamento. Mãos estendidas, surgem anjos e querubins: oferecem apoio, soluções, alternativas. E digo não. Terminou o Milênio, encerra-se o Kali Yuga, chega ao fim o décimo quarto b’ak’tun. É o fim do mundo: o que poderia ser feito a respeito? O fim encerra-se em si mesmo, não busca justificativas, não carece de nenhuma certeza ou explicação. Não busco salvação; estou perdido, e estou em paz. Contemplo a morte, bela como o rosto dos sonhos nunca lembrados, inevitável como o esquecimento que apaga a imagem e deixa apenas o eterno travo agridoce entre os lábios. A morte sorri; sorrio de volta, e me permito morrer. Haverá vida, depois de uma morte como essa? Não sei, não sei. E não importa. Estendo as mãos como um maestro, e enceno um regente diante da minha própria destruição. É o fim do mundo, e  me sinto bem. Muito bem.

(o embed do vídeo não é permitido. Morra, EMI America.)

Uma elegia fabicana

Acabo de descobrir que pintaram de branco as paredes do Dacom.

Para quem não sabe, o Dacom é o Diretório Acadêmico da Comunicação da Fabico (UFRGS), faculdade que cursei e graças a qual tenho hoje um diploma de jornalista. Costumava ser um lugar como todos os DAs que vocês possam imaginar: poltronas detonadas na laterais, um mesa de sinuca semidestruída no centro, um manequim coberto de tinta ao lado da porta, uma geladeira vermelha (e desligada) no canto e, ao fundo, a porta da salinha onde a gente entraria para fazer as carteirinhas de ônibus, isso se ela estivesse por milagre aberta naquele dia. Nas paredes, todo o tipo de desenhos, rabiscos, gravuras e frases de ordem, distribuídas sem nenhuma lógica ou padrão pelas outrora imaculadas paredes da sala. Um elogio ao anárquico, ao desleixado e ao sem sentido – exatamente o que um bando de alunos de comunicação precisa no intervalo (ou na fuga) das aulas.

Era um lugar muito agradável, o Dacom. Aquela sala era, de certo modo, o centro pulsante daquela faculdade – o lugar onde as pessoas dos mais variados semestres conviviam e, muitas vezes, compensavam a cretinice de certas cadeiras com trocas muito mais enriquecedoras. No Dacom vivi muitos dos momentos mais marcantes da minha vida universitária e, por que não dizer, da minha vida em geral. Naquele local me iniciei no truco gaudério, e foi naquela salinha adjacente quase sempre trancada que nasceu a Cofatruco, fundação de inegável sucesso e que até hoje une muitas das pessoas mais brilhantes que conheci naquele centro de ensino. Por lá conheci amigos e amigas de grande valor, gente que carregarei comigo vida adentro, se não na convivência ao menos no coração. Naquele local tiveram início ou desenvolvimento algumas das (não muitas) histórias amorosas da minha vida (não muito) adulta. Naquela sala comemorei o quarto gol do Grêmio contra o Caxias em 2007, um dos jogos mais emocionantes da minha vida e que eu sequer pude assistir. Naquele ambiente comi Bocconitos, naquele lugar tomei doses clandestinas de uísque, e uma vez esqueci uma barra de chocolate em cima da geladeira vermelha desativada – barra que consegui, milagrosamente, resgatar intacta no dia seguinte. Em uma noite antológica, passei pela portaria do prédio e entrei no Dacom, sem medo – e esse gesto me garantiu citação em um processo disciplinar do qual, confesso, muito me orgulho. Muitas partidas de sinuca lá disputei, muitas discussões acaloradas lá presenciei, e muitas vezes fiquei lá sozinho, em horários de pouco movimento, lendo algum polígrafo ou tirando notas pouco afinadas do violão quase sem cordas que rodava por ali. Aproveitei bastante aquele lugar, podem ter certeza – e devo a ele muito do que fez a minha vida universitária ser enriquecedora e inesquecível.

Na verdade, há tempos tentava-se liquidar com a vida no Dacom, em nome de interesses que eu prefiro nem saber direito quais sejam. As chinelagens, festas dentro do prédio que eram fundamentais na integração entre fabicanos, foram proibidas e, apesar dos protestos, nunca plenamente retomadas. O sucateamento dos móveis e a falta de limpeza espantavam muitos alunos, especialmente os mais impressionáveis. Mas a grande medida de esvaziamento, o símbolo máximo da incompreensão e da falta de diálogo entre administradores e alunos, era a insistência da direção em pintar as paredes desenhadas e rabiscadas do Dacom, em nome de uma suposta revitalização do local. Em pelo menos uma oportunidade, isso quase ocorreu – por sorte, a então administração do DA entrou em acordo com a direção e conseguiu salvar parte do maravilhoso acervo registrado naquelas paredes.

Pois sim, tratava-se de um verdadeiro acervo. Acho difícil explicar para quem nunca esteve lá a quantidade de coisas incríveis escritas naquelas paredes – tudo que se possa imaginar, desde poesias e frases de efeito a registros históricos e absurdos de aulas e partidas de sinuca e truco. Desenhos, alguns sublimes e outros terríveis, juntavam-se aos textos bem ou mal escritos em uma multitude de cores, traços e caligrafias. Eu mesmo deixei pelo menos um registro lá, assinalando a data da minha última aula com a legenda “fui, agora se virem”. Vendo aquelas paredes, a gente se sentia parte de algo maior – era como um registro coletivo de nossas impressões, um maravilhoso elogio à juventude e criatividade de quem ainda carregava sonhos no coração. Era meio feio, mas era lindíssimo ao mesmo tempo. E era muito, muito bom entrar no Dacom e ter contato com aquele espírito vibrante, registrado da maneira mais anárquica e mais bela possível.

Pois, amigos e amigas, pintaram de branco as paredes do Dacom. Apagaram tudo – todos os desenhos, todas as frases, todas as poesias e brincadeiras e recortes e citações. Passaram tinta por cima do que talvez fosse nosso mais valioso registro histórico. E fico feliz de estar em São Paulo nesse momento – e portanto incapaz de testemunhar o golpe final no espírito fabicano que conheci e que agora está condenado a ser apenas um traço de memória individual.

Imagino que as pessoas que autorizaram essa medida já tenham sido universitárias, em algum momento de suas vidas. Pena que, lamentavelmente, alguma coisa deve ter se perdido no meio do caminho. Em suas mentes, julgaram fazer o melhor para a Fabico, dentro da lógica administrativa que para elas é, compreensivelmente até, a mais importante. Com a reforma do térreo, aquela sala ficaria ainda mais realçada em sua feiura desarmônica. Urgia uma padronização, um embelezamento, algo que fizesse daquele andar algo mais respeitável e funcional. Uma faculdade renovada, com novos equipamentos e laboratórios e com um currículo novo em folha, não podia conviver com aquele atentado estético. Talvez fosse inevitável mesmo, vai saber? Afinal de contas, era só uma sala, nada mais que isso. Apenas uma sala. E uma nova sala virá no lugar dela – talvez ampliada, talvez com móveis recém-adquiridos, quem sabe até com uma nova mesa de sinuca. Uma sala de paredes brancas e limpas. Renovada. Antisséptica. Morta.

Resta-nos confiar na força maior que move a juventude, a energia avessa à limpeza e contrária a todo padrão que faz do mundo um lugar que ainda vale a pena. Haverá uma mão, entre as muitas que talvez circulem pelo renovado Dacom, que puxará uma esferográfica, um lápis ou um pincel atômico, e deixará nas paredes límpidas um primeiro e maravilhoso traço de artística sujeira. Outras mãos, incentivadas pelo rabisco primordial, por lá deixarão também suas impressões. Alguém mais talentoso fará o primeiro desenho, usando grafite ou uma esferográfica – e logo o caos voltará, bonito e renovado, para encher de vida o espaço que nenhuma demão de tinta poderá destruir. Não sei, sinceramente, se isso vai mesmo acontecer – mas gosto de pensar que será assim, e que nenhum progresso estéril poderá jamais deter a poesia, desordenada e cheia de força e de vida.

A foto que ilustra o post foi tirada durante uma Hora do Jazz de Natal, evento promovido por mim e pelo meu querido amigo Fred Posselt. O desenho do Syd Barrett, à esq, já era; as frases da Rosa Nívea, à dir, foram pro beleléu; até o manequim, tantas vezes espancado e naquela tarde transformado por nós em uma vistosa árvore de natal, deve ter ido parar em alguma caçamba de entulho por aí. Mas algo permaneceu, tenho certeza – e que Deus permita que nunca vá embora. Obrigado a todos que leram esse longo desabafo até o fim, sejam felizes e até a próxima.

Madrugada de sexta para sábado, primeiras horas de uma longa viagem de ônibus unindo Porto Alegre e São Paulo, o lado de lá da minha vida com o lado de cá do meu futuro, seja ele como e onde for. Madrugada quente, ônibus cheio, ar condicionado meia-boca, nenhum sono – elementos que, somados, provocam uma intensa necessidade de descer do ônibus, esticar as pernas, qualquer coisa. Nem as músicas salvadoras do meu mp3 player davam conta da ansiedade, ou seja, tava brabo o negócio. Finalmente, depois de alguns quilômetros de expectativa, o veículo estaciona em Sombrio (SC), numa das filiais do Japonez que pontuam as estradas do sul do Brasil. Alívio: uma passadinha no banheiro, um refrigerante gelado, uns bons minutos esticando as pernas para lá e para cá. Não imaginava eu que o nome da cidade onde estávamos ia acabar sendo bastante adequado para aquela madrugada…

Depois da inevitável pausa para tirar a água do joelho e o igualmente inevitável investimento de R$ 2,70 numa latinha de  Coca Cola, saí do estabelecimento, disposto a vagar sem rumo na volta do ônibus até que o motorista avisasse que era hora de embarcar. Ideia frustrada logo de cara, assim que saí do Japonez e vi que o meu ônibus, simplesmente, não estava mais lá. Com o raciocínio cínico e irônico que me caracteriza nesses momentos, pensei com meus botões imaginários que não tinha passado vinte minutos no banheiro, muito menos numa fila inexistente para pagar uma singela Coca gelada. E logo reconheci algumas pessoas que estavam comigo na jornada Brasil adentro – entre outros, um senhor falante com um defeito na mão que ia visitar a filha em Sampa, uma morena bonita e sorridente que rumava para Florianópolis, um cara que estava voltando de Pelotas onde tinha ido se matricular na Ufpel e uma trinca de irmãos, uma moça de vinte e poucos anos e dois garotos mais novos, que iam encontrar os pais em Camboriú ou algo assim. Ou seja, se eu tinha perdido a hora, não estava sozinho. Tinha um veículo da mesma empresa estacionado ali perto, mas vi pelo número do carro que não era o mesmo no qual eu tinha embarcado – algumas pessoas se confundiram, foram subindo as escadas e depois desciam, constrangidas com o equívoco e preocupadas com o abandono inesperado entre o nada e lugar algum.

Deduzi, após alguma consideração, que provavelmente o ônibus tinha ido abastecer sem avisar ninguém – algo bem possível, dada a pouca simpatia dos motoristas que nos conduziram pela viagem. Sou muito grato por terem me deixado em SP com segurança, mas pelo jeito eles trabalham demais, pois estavam bem estressados e foram um tanto grosseiros vez por outra. Enfim, a tragédia não era mesmo tão grande: depois de algum atraso, o busão reapareceu, as pessoas foram convidadas com toda a gentileza a embarcarem no veículo e beleza, vamos lá que ainda tem pelo menos umas 13h ou 14h de chão pela frente.

Sento no meu banco, ajeito os fones de ouvido e me preparo para fechar os olhos e tentar algo próximo do sono quando ouço o gemido, não muito alto, umas três ou quatro fileiras atrás de mim. Era um som misto, soma de uma dor ou desconforto genuíno com um lamento de decepção – algo do tipo “era só o que me faltava”, se é que me entendem. Como o som se repetiu algumas vezes, ficou claro que alguém atrás de mim estava passando mal – e imaginei que pudesse ser uma hipoglicemia, alguma coisa repentina e desagradável do tipo. Voltei-me para ver, mas estava um pouco longe, e os passageiros mais próximos já cercavam a pessoa que gemia, de modo que não dava para enxergar coisa alguma. Resolvi ficar sentado, já que muito ajuda quem não atrapalha – e abri os ouvidos, pois sabia que logo algum comentário perdido logo me esclareceria o que estava acontecendo.

Entendi a gravidade da coisa quando uma van dos bombeiros parou do lado do ônibus, descarregando dois paramédicos e equipamentos para transporte de pessoas imobilizadas. Quase ao mesmo tempo, ouço o senhor de mão defeituosa comentar algo do tipo “a mocinha tirou o joelho do lugar, coitada!”. Mais uma virada de cabeça, e finalmente enxergo: era a moça com dois irmãos, que estava rumando para a praia ao encontro dos pais que já estavam lá.  Antes dos paramédicos entrarem no ônibus, já tinha entendido tudo. A pessoa sentada na frente da moça tinha inclinado o assento para tentar dormir, e esquecido de colocá-lo na posição normal quando desceu para a pausa de 20 mins na viagem.  Ao embarcar, a moça acabou se contorcendo para desviar do assento inclinado e conseguir sentar no seu lugar – e nessa brincadeira, sei lá eu como, conseguiu de brinde um deslocamento de rótula. Bizarro, inesperado, e sem dúvida um bocado triste.

Cerca de vinte minutos foram necessários para tirar a pobre do lugar onde estava e colocá-la dentro da ambulância. O espaço de um corredor de ônibus pode parecer estreito para nós, imagine então tendo que carregar uma moça com o joelho deslocado, e com o mínimo de oscilação possível. Acho que os paramédicos fizeram um bom trabalho: desistiram logo de usar uma maca, e apostaram num aparato simples, algumas tiras aplicadas sobre o joelho lesionado que impediam um estrago ainda maior. Com um pouco de jeito, conseguiram tirar a moça de dentro do carro – moça que agora já quase não gemia, apesar do rosto visivelmente contorcido pela dor. Admiro a dignidade das pessoas que sofrem em quase silêncio, assim como respeito a explosão de som dos que dividem sua agonia com quem quer que esteja por perto; no caso, era uma jovem corajosa que tentava ao máximo guardar a sua dor – que não devia ser pouca – só para si. Como a ambulância estava praticamente do lado da minha janela, pude ver os bombeiros embarcando a moça rumo ao hospital – pude até ver, com a curiosidade mórbida que me desagrada mas que não posso negar que tenho, o pobre joelho desmontado da menina, mal coberto pelas tiras ortopédicas que o mantinham mais ou menos no lugar.

Desejei mentalmente boa sorte para ela, e fiquei pensando em como a gente não pode realmente fazer planos, em como a gente nunca sabe o que vai acontecer ali, na próxima curva do destino. Num momento, ela estava a caminho do abraço dos pais e das opções de lazer do litoral; no outro, um acidente estúpido e improvável a levava direto para o hospital, e forçava ela e seus irmãos a ficarem parados no meio do caminho, em território totalmente desconhecido. Eu mesmo: em menos de uma hora, tinha passado por duas situações imprevisíveis, que podiam ter mudado totalmente os meus planos e me deixado ali, em Sombrio, uma cidade na qual eu não teria a mínima ideia de como me virar. Acho que, de certo modo, é isso que a sabedoria oriental quer dizer com “não-expectativa” – entendermos que o futuro se escreve por linhas imprevisíveis, e que nossos esforços em torná-lo controlável são condenados ao fracasso, mais cedo ou mais tarde. Apreciar a beleza de não saber o que vai ser, enfim – talvez seja filosofia demais para uma parada no meio da estrada, mas a minha mente deixou-se levar. E quando o ônibus finalmente voltou para a estrada, depois de cerca de hora e meia de atraso, percebi que estava no meio da estrada, sem saber o que ia ser e quando ia chegar – e não só naquele ônibus, mas também na própria vida.

Como alguns de vocês já devem saber, sou um recém-chegado no Twitter. Depois de muita hesitação (causada, basicamente, pelo temor de ter mais uma armadilha virtual sugando a minha vida), decidi que seria útil para passar adiante as coisas que faço em sites e blogs por aí, além de me dar a chance de seguir pessoas bacanas e ter contato com coisas legais que talvez não descobrisse sozinho. Ainda estou pegando o jeito, mas espero que seja algo interessante e produtivo – mais do que outras ferramentas, tipo Orkut e Facebook, que tenho usado cada vez menos e não duvido que sumam da minha vida de vez. Enfim, se alguém tiver algum interesse no que eu tenho a dizer por lá, tem um link ali do lado para quem quiser se arriscar a me seguir.

De qualquer modo, claro que se tem a chance de ler coisas excelentes por meio do Twitter, do mesmo modo que se tem contato com muita porcaria – não é assim, no final das contas, com tudo que existe na Internet? E no segundo quesito, li uma hoje que me deu vontade de comentar. Eu não sigo o Pedro Bial, mas soube via Folha que o jornalista soltou esses dias, via Twitter, a seguinte pérola de sabedoria:

“quando cansa-se de espiar, cansa-se da vida”.

Fico imaginando que diabos o atual apresentador do Big Brother tinha em mente quando cometeu essa singela frase. Deduzo eu que a ideia era defender a relevância do programa que apresenta, fazendo uma analogia com a curiosidade inerente ao ser humano, ou qualquer coisa assim. Quem se diz cansado de espiar (ou seja, abre mão da curiosidade intrínseca ao gênero humano representada no programa) está cansado da vida – ou, dizendo de um modo mais claro e menos filosófico, quem critica e/ou abre mão de assistir o Big Brother está, na verdade, distanciando-se de algo que não é apenas entretenimento, mas fundamental para a própria humanidade. Coisa, aliás, que Bial já defendeu, com outras palavras, em várias entrevistas que podem ser localizadas com certa facilidade via Google.

Na minha opinião, uma gigantesca bobagem. O Big Brother trouxe para a TV duas das coisas mais deploráveis do nosso atual estágio de civilização: a curiosidade não-produtiva e o culto à personalidade, quanto mais vazia melhor. Graças a esse programa, tivemos uma longa década de figuras sem nenhum talento especial virando celebridades instantâneas, a maioria consumidas rapidamente pela mídia e sumindo sem deixar vestígios – diz aí, fora a Grazi e a Sabrina Sato, lembra de mais alguma? Toneladas de papel e terabytes de dados são desperdiçados com pessoas cujo único mérito é exporem a si mesmas em um programa de televisão. E pelo quê? Para estimular uma curiosidade meio patética, travestida de representação da realidade. Certamente que todos nós temos um pouco de vizinha fofoqueira, de investigadores inoportunos da vida alheia, e isso se manifesta em inúmeros aspectos do nosso dia a dia. Mas qual o mérito possível em um programa que ganha audiência e preenche espaços publicitários explorando esse tipo de coisa? Entretenimento não precisa ser necessariamente construtivo, mas eu nunca vi o Faustão ou o Sílvio Santos tentando convencer alguém que seus programas eram mais profundos do que pareciam…

A curiosidade que de fato leva a gente para algum lugar não é a mesma que move quem assiste o Big Brother – ou pelo menos não é da mesma natureza. Curiosos todos somos, mas dá para ser curioso de maneira produtiva, tentando entender as coisas, aprender algo novo, criar novas alternativas e soluções. Vários bons programas de TV, a maioria deles em emissoras públicas, fazem exatamente isso. Essa é a curiosidade do Twitter, aliás – a de querer saber algo da vida dos outros, dividir algo com essas pessoas, mas sempre com a possibilidade de apontar para algo além, algum tipo de troca positiva e produtiva. Um programa do tipo “reality show” não faz análise alguma da realidade, não apresenta nenhuma observação crítica, não importa o quanto o Bial tente nos convencer do contrário.

A espiadinha do Big Brother encerra-se em si mesma – é uma curiosidade que anula, não traz entendimento, não aponta caminhos nem apresenta novidade alguma. É o mesmo sentimento que move alguém que assiste uma novela ou um seriado – a curiosidade de quem quer um pouco da vida dos outros para tentar esquecer da própria. E sem o potencial de crítica ou questionamento que uma novela ou seriado pode assumir, diga-se. Não é vida – é um anestésico. E nem um pouco construtivo. Pode até ser legítimo como distração, claro que pode – não gosto do programa, mas acho muito justo que alguém queira apenas uma distração rápida e rasteira no final do dia, por que não? Mas não venham querer me convencer que o Big Brother é algum tipo de análise social ou libelo a favor do espírito humano – porque, simplesmente, não é.

Em suma, e para combater uma frase de efeito com outra: se esse tipo de espiadinha é vida, então acho que a morte não deve ser tão ruim assim…

Herman Hesse sabia das coisas

De “O Jogo das Contas de Vidro”, que estou tendo o prazer de ler agora. Achei tão legal e tão adequado dentro de certas reflexões que ando tendo, que me dei ao trabalho de transcrever todo o trecho:

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“A insegurança e contrafação da vida espiritual daquela época, a qual, em muitos sentidos demonstrava possuir energia e grandeza, é por nós, homens de hoje, explicada como um sintoma do horror que se apossou do espírito ao encontrar-se, no final de uma época de aparentes vitórias e prosperidade, diante do nada; uma enorme pobreza material, um período de tempestades políticas e bélicas, e uma desconfiança de si próprio brotada com ímpeto das trevas, de um dia para o outro, uma desconfiança da sua própria força e dignidade, e até mesmo de sua própria existência. Não obstante, no período em que se pressentia a decadência, ainda havia produções intelectuais de enorme elevação, entre outras o início de uma ciência musical de que somos os gratos herdeiros. Mas assim como é fácil classificar dentro da história universal, com beleza e sentido, qualquer período do passado, o presente, seja ele qual for, é incapaz de classificar-se a si mesmo, de modo que naqueles tempos, à medida que as exigências e a produtividade do espírito baixavam a um nível modestíssimo, apossava-se dos intelectuais terrível incerteza e desespero. É que se acabara de descobrir – descoberta pressentida desde Nietzsche, aqui e acolá – que a juventude e o período criador de nossa cultura pertenciam ao passado, que a decrepitude e o ocaso haviam surgido, e em razão dessa descoberta pressentida por todos, e por muitos formulada sem rebuços, se esclareciam muitos sinais inquietantes dos tempos; a mecanização insulsa da vida, a profunda queda da moral, a falta de crença dos povos, a falta de veracidade da arte. Como naquela maravilhosa lenda chinesa, a “música da decadência” havia ressoado, e como o baixo ameaçador de um órgão, vibrava já há dezenas de anos, derramava-se qual corrupção nas escolas, nos jornais, nas academias, derramava-se como neurastenia e doenças mentais na maioria dos artistas e críticos sérios, debatia-se qual selvagem e diletântica super-produção em todas as artes. Havia várias maneiras de se contrapor a esse inimigo que se infiltrava e que não era mais possível libertar de seu feitiço. Podia-se procurar afastá-la como uma ilusão, e para esse fim os anunciadores literários da teoria da decadência da cultura ofereciam muitas armas cômodas; além disso, quem entrava em luta contra aqueles ameaçadores profetas, era ouvido pelo cidadão e adquiria influência sobre ele, porque o fato de a cultura, que ontem ainda se acreditava possuir e de que tanto se orgulhava, estava desprovida de vida, o fato de a instrução tão apreciada pelo cidadão ter deixado de ser uma genuína instrução, como a arte apreciada por ele deixara de ser genuína, parecia-lhe tão insuportável e chocante como a repentina crise monetária e a ameaça de perder a fortuna com revoluções. Além do mais, para combater o pressentimento da decadência havia ainda o comportamento cínico: ia-se dançar, e explicava-se qualquer preocupação pelo futuro como uma tolice arcaica, cantavam-se inspirados folhetins sobre o próximo fim da arte, da ciência e da linguagem, constatavam-se com uma volúpia semelhante à do suicida, a completa desmoralização do espírito, a inflação das ideias na época folhetinesca, nesse mesmo mundo que se havia construído de tecnologia e de papel. Era como se víssemos com cínica apatia, ou com excitação do bacanal, que não só a arte, o espírito, os costumes e a probidade desapareciam no abismo, mas que o mesmo acontecia com a Europa e o mundo, tal qual se conhecia então. Entre os bons reinava um pessimismo taciturno, e entre os maus um pessimismo pérfido. Era necessário primeiramente haver uma demolição do que sobrevivera e uma certa mudança de ordem do mundo e da moral, por meio da política e da guerra, antes que a cultura fosse capaz de uma verdadeira auto-observação e de uma nova organização”.

Nunca curti carnaval. E quando digo “nunca” é nunca MESMO – nem quando era bem moleque, nem quando a vida ainda era (ou era para ser) uma grande brincadeira irresponsável e sem nenhuma consciência do amanhã. Eu era um moleque que achava um saco ver desfile na TV e que ficava enchendo o saco para voltar para casa quando meus pais inventavam de me levar num baile infantil ou algo assim – daí vocês já podem perceber muito bem que tipo de criança eu era… A adolescência, apesar das mulheres nuas e seminuas, não mudou essa minha aversão, e a ojeriza está totalmente consolidada agora, quando relutantemente sou forçado a referir-me a mim mesmo como uma pessoa adulta.

Acho que isso tem a ver com a minha personalidade, de modo geral. Não sou uma pessoa dada a demonstrações chamativas de alegria, a comemorações sem propósito definido e coisas assim. Imagino que seja a mesma coisa que me afasta de casas noturnas, baladas movimentadas e coisas do tipo. No fundo, acho que nunca entendi qual a graça nessa entrega total a cinco dias sem critérios, sem limites e sem motivos, onde todo mundo faz tudo que dá na telha para esquecer que no resto do ano não pode ou não consegue fazer nada disso. Sei lá, é falta de propósito demais para a minha visão contemplativa de mundo. Não acho que isso seja defeito das pessoas, sabe; se alguém está errado nisso tudo, provavelmente seja eu mesmo. E meus carnavais geralmente são uma merda (ano passado, por ex, foi uma bosta monumental), de modo que a folia também não se ajuda, digamos assim…

Mas aí eu vejo um post tipo esse do blog do Ungaretti (de onde peguei a foto emprestada, aliás) e fico pensando se, de repente, não sou eu que sou rabugento demais e não dou uma chance pro carnaval de verdade – não esse carnaval pateta da televisão, não essa bobagem escrota de transformar folia em campeonato, e sim um carnaval mais autêntico, mais romântico, mais desencanado e menos desvirtuado. Uma coisa popular de verdade, não um pretexto para fazer merda sem controle ou para ganhar dinheiro com turismo e propagandas na TV. Não que eu ache que ia amar de paixão participar de um bloco de rua, ou que eu ia curtir horrores os carnavais dos anos 40 ou 50 – como eu disse, eu sou uma pessoa que não nasceu para festejar como se não houvesse amanhã, e isso não muda nem com coma alcoólico nem com lança-perfume nem com nada disso. Mas talvez eu fosse, sei lá, mais simpático a essa manifestação popular, vai saber?…

Enfim, devaneios. O carnaval está aí, e – vai saber? – quem sabe ele resolve ser menos carrasco comigo desta vez. Vou ficar em Porto Alegre, em casa, sozinho e sem dinheiro – convenhamos, não é exatamente a situação mais animadora do universo, mas enfim. Algumas pessoas amigas vão compartilhar da folia-que-não-é-folia portoalegrense, então acho que alguns momentos divertidos vai dar para garantir. E, é claro, sempre tem muitos livros, filmes e CDs acumulados esperando por mim.  Tevê, só para assistir filmes e seriados… Vai ser, do mesmo modo, a minha última semana antes de voltar para São Paulo e definir, de vez, algumas coisas na minha vida. Ou seja, vai ser meio que um retiro com um sabor de despedida – o que, isso sim, se encaixa bem com minha visão contemplativa das coisas do mundo. Mal posso esperar, e espero que não demore muito para acabar…

Quanto ao blog, vamos ver. Vou estar basicamente ocioso, então talvez publique algo por aqui. Nada muito profundo e/ou pretensioso, até porque convenhamos, ninguém vai parar para ler justo o meu blog no meio do carnaval… Enfim, se você gosta de carnaval, divirta-se, e nos vemos a partir da quarta-feira de cinzas. E se você não gosta, boa sorte para nós, e a gente se encontra em breve por aí também. Saudações a todos, e sejam felizes, cada um do seu jeito.

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