No domingo, dei uma passada na exposição do Paulo Leminski no Itaú Cultural. Tinha outras coisas lá, claro, e o poeta nem era o motivo maior da nossa visita à princípio, mas enfim, no meio de tantas atrações culturais foi ele quem me venceu. Tinha tido um contato mais ou menos superficial com a obra dele até aquele momento, e foi muito interessante o modo como a exposição trabalhou visualmente os já bastante visuais poemas do Leminski. Para expor o trabalho de alguém tão criativo, o espaço precisa ser usado de forma inventiva, e isso com certeza foi muito bem explorado. E tem que considerar que os poemas do cara ajudam muito também, claro. Lendo aqueles poemas – e até comentei isso com a Clau em certo momento – me senti tão pouco criativo, meio cego de boas ideias, tão meia-boca… E ao mesmo tempo estimulado, algo do tipo foda-se se tu é meia-boca, Igor Natusch, vai lá e escreve, escreve muito, escreve sem parar, escreve um monte de merda que seja, escreve que alguma coisa minimamente decente há de sair. Acho que é isso que os bons poetas fazem com a gente: nos incomodam, mas é um incômodo positivo, um incômodo que aponta para a frente, e não para trás. Nesse sentido, Paulo Leminski é um ótimo poeta, sem a menor dúvida. E me anima saber que ainda existem 18 caixas cheias de material dele, muito poema esperando para ser lido, muita coisa para ser catalogada e revisada e publicada por muitos anos ainda. De certo modo, Paulo Leminski ainda não acabou – melhor para nós.
O mesmo, de certo modo, não dá para dizer do legado do Hélio Oiticica, que no último dia 16 transformou-se quase todo em cinzas graças a um incêndio na casa de seu irmão, onde o material era mantido. Pelo que li, 90% das obras dele foram consumidas pelo fogo – e isso é algo que sinceramente me dá um aperto no peito. Imagine isso – a expressão artística de uma vida inteira, todo o esforço de uma pessoa no sentido de juntar suas alegrias e dores e frustrações e ambições e sonhos e tudo o mais e transcender essas coisas todas em forma de arte… E tudo isso sumindo, sendo devolvido para o universo em forma de fogo, cinzas e fumaça. Todo artista, mesmo o mais diletante, tem uma nem tão secreta pretensão à eternidade – e no caso do Oiticica, que era um tremendo artista, boa parte da sua potencial eternidade simplesmente não existe mais. Para nós, pobres humanos incapazes de lidar com a ideia de que nada realmente permanece no mundo, é um golpe duro em nossas ilusões. Além de, é claro, ser uma tristeza para a arte brasileira. Imagina se aquelas dezoito caixas cheias de Leminski somem no meio do fogo, e nunca ficamos sabendo do que perdemos? Imagina se existe, sei lá, um Dostoievski inédito criando traças em algum depósito russo, uma obra perfeita que nunca será lida, que mesmo tendo sido para ele terminará sendo consumida pelo não-ter-sido para os outros? Imaginar que a arte, esse subterfúgio que usamos ao mesmo tempo como fuga e justificativa para o absurdo da vida, é ela mesma frágil como todo o resto e pode sumir antes mesmo de chegar a nós? Inquietante, eu diria. Não é à toa que os antigos tinham tanto medo de que suas bibliotecas virassem carvão… Mas enfim, ao menos nos restam 10% nesse caso específico – melhor aproveitar o que sobrou do que chorar o que nos vai ficar faltando de qualquer jeito.
De qualquer modo, mesmo não tendo muito a ver com o assunto principal do post, o fato é que estou com um sorriso gravado na minha memória. Um sorriso meio tímido, inseguro, que talvez tivesse medo de ser mal recebido, sei lá. Um sorriso que demorou a sair, e quando surgiu foi bonito como todas as metáforas bobas e melosas que vocês possam imaginar. Um sorriso bonito, basicamente, porque era puro. Um sorriso de criança, mesmo que a criança em questão fosse de espírito, e não de corpo e de idade. Se eu fosse Leminski, faria um poema a respeito; se fosse Oiticica, uma escultura ou um parangolé. Como sou apenas um Igor Natusch, vou me contentar em registrá-lo aqui, torcendo para que um dia ele vire algo mais bonito e criativo do que um nota de rodapé em um post de blog. E, é claro, torcendo para um dia poder retribuí-lo com mais calma, com mais tempo. Sem medo, e sem pressa.
eu não revelei a ninguém, mas depois da exposição do Leminski eu tive vontade de jogar tudo para o alto. e seja o que deus quiser.
Por algum motivo essa tua revelação não me surpreende, clau… Acho que pesquei um pouco isso enquanto a gente tava no bar depois…