Como as pessoas que me conhecem bem sabem, eu sou um grande apreciador de futebol e, acima de tudo, gremista de quatro costados, torcedor empedernido, fanático mesmo. E, questionem o quanto quiserem, mas é fato que para o Grêmio a Copa Libertadores de América tem um gosto especial. Não que para os outros clubes que a disputam ela nada valha, pelo contrário: a competição continental é valorizadíssima, e tem até um outro clube gaúcho (que, daqui para a frente, citarei por termos como “o time deles”, “os do lado de lá” e coisas assim, mesmo porque todo mundo sabe de que time estou falando) que a conquistou em 2006, com méritos e galhardia, alçando a partir dali o voo que os levaria à conquista do Mundial Interclubes também (suspiro). Mas a Libertadores é um campeonato pelo qual os gremistas nutrem um carinho diferenciado, por mais de um motivo – por exemplo, foi a primeira conquista gremista (sem ser o famigerado Gauchão) que pudemos utilizar como argumento contra o time do lado de lá – e lembrem que em 1983 eles já eram tricampeões do Brasileirão, enquanto ostentávamos um solitário título, conquistado dois anos antes. E já faz parte do inconsciente gremista essa coisa de partidas heróicas, vitórias supostamente impossíveis, conquistas contra tudo e todos – o que às vezes, sinceramente, nos atrapalha até, mas quando bem direcionado gera equipes tricolores difíceis de vencer, e quem viveu 1995-96 sabe do que estou falando. Isso tomou forma na Libertadores, e na Libertadores encontra o campo mais fértil para a nossa imaginação coletiva. Um ano com Libertadores é sempre um ano especial para a torcida gremista, e isso qualquer pessoa que vista azul, preto e branco poderá confirmar aos de pouca fé.
Fico pensando nessas coisas porque amanhã tem Caracas x Grêmio, válido pelas quartas de final da Libertadores 2009. E é meio estranho perceber que é a primeira Libertadores que eu acompanho fora de Porto Alegre, e como está requerendo um esforço considerável para eu me manter realmente informado sobre tudo – e o mais significativo, como o clima da competição é muito diferente estando longe da querência. Devo ter visto umas três ou quatro camisetas gremistas em dois meses de megalópole, no máximo, as notícias sobre o Grêmio nas mídias clássicas são as mais escassas que se possa imaginar (excluindo, claro, emissoras de TV especializadas como a Sportv). Mesmo os clubes paulistas envolvidos são vistos com um sentimento diferente, um pouco menos de empolgação, digamos – o que eu credito à natureza do futebol gaúcho, com uma divisão muito clara entre Grêmio e o outro time, o que torna a participação de um clube local na Libertadores muito mais extraordinária. Seja como for, amanhã tem Caracas x Grêmio, e eu não sei como vou fazer para assistir – Acho que a Sportv e o FX vão me deixar na mão de novo, e mal tenho dinheiro para me virar por aqui, que dirá ficar pagando pay per view… O negócio vai ser o Rojadirecta ou o MyP2P – e, se a conexão estiver meio capenga, uma rádio online mesmo. Não tenho muito com quem comentar as coisas pessoalmente também, geralmente ou é com a Pati ou com o Seu Luis, dono da casa onde estou e o que eu chamaria de “gremista residual” – já é praticamente um corintiano, mas ainda lembra dos seus tempos de gremismo no Sul. Fora isso, só pela internet mesmo. Ou seja, tá meio difícil ser gremista por aqui – o que me lembra de 2007, a última Libertadores que acompanhei estando em Porto Alegre, e que também foi bem complicada de acompanhar, embora por motivos distintos.
Nessa época, eu estava plenamente envolvido com as questões relativas ao meu antigo emprego – editando, dando treinamento para monitores, operando câmera, essas coisas. Trabalhava todas as noites até as 22h, e por isso ficava inviabilizada minha ida ao Olímpico naquela época. Não só isso, mas até acompanhar os jogos era um drama – afinal, apesar de ser um estúdio de TV não tinha nenhum aparelho capaz de captar programação de fora, e a internet era das mais oscilantes, o que tornava difícil usar streaming para assistir os jogos. Como resultado, muitas vezes só me restava mesmo o radinho, ouvindo os jogos pelo meu tosco walkman – não, àquela altura não dava mais para ouvir fitas nele, mas o rádio pegava direitinho e era por esse aparelho que ia acompanhando o desenlace dos confrontos gremistas da Libertadores. Quando possível, tentava fugir do serviço o mais rápido possível, para assistir parte dos jogos em casa ou para pelo menos encontrar pelo caminho de volta uma TV na qual pudesse acompanhar os jogos. Muitas vezes não era possível, mas geralmente era o único jeito, mesmo.
Algumas situações foram particularmente dramáticas, e uma delas em especial serve como ótimo exemplo do que me leva a escrever esse post. Grêmio x Defensor, partida de volta das quartas de final. Quinta-feira, jogo às 19h30 – ou seja, nem por milagre eu conseguiria estar livre para acompanhar decentemente aquela partida decisiva para a classificação. Na verdade, eu não tinha nada para fazer por lá naquele dia – mas uma câmera tinha sido retirada para trabalho externo, e como eu era responsável por verificar tudo quando ela voltasse eu não podia simplesmente pegar o chapéu e ir embora, mesmo que isso significasse ficar lá sem fazer nada enquanto o Grêmio decidia vaga na competição mais importante do ano. Então fiquei lá, totalmente sozinho, andando para lá e para cá dentro do aquário do estúdio, gemendo a cada chance perdida e festejando de modo solitário (e, imagino eu, em chamas) os dois gols gremistas que levaram o jogo para os pênaltis. Pois bem, tudo se definiria nas penalidades máximas – e bem na hora que vai ser batida a primeira cobrança me entra alguém pela porta do estúdio, e eu me animo imaginando que seria a monitora que tinha saído com a câmera trazendo a criança de volta. Não: era uma aluna, trazendo alguns DVDs e pedindo que eu gravasse sei lá o quê para ela. Confesso a grosseria: não tirei os fones, e fiquei ouvindo os primeiros dois ou três arremates enquanto tentava entender o que ela queria. Tentei ser o mais gentil possível, mas não sei se tive muito sucesso, sinceramente. De qualquer modo, após dois minutos que mais pareceriam eras geológicas de tanto que demoraram para passar, pude voltar à minha concentração, e logo depois comemorar alegremente o último pênalti convertido – pelo Ramon, quem diria – e a classificação final.
Pouco depois, a Bruna chega com o equipamento, e depois de termos organizado tudo acabo recebendo uma recompensa pela espera. O pai dela ia buscá-la, ela morava perto da minha casa, eu por acaso não queria uma carona? Oras, óbvio que sim – e lá fui eu, feliz da vida, aproveitar a chance de ao menos escapar de uma longa viagem de ônibus. O pai dela, motorista do veículo, optou por pegar um atalho, pelo qual passaríamos meio ao largo do Olímpico – a idéia, claro, era fugir da loucura que deveria o trânsito nas redondezas do estádio. E quem disse que adiantou? Pegamos um tráfego intenso, uma aglomeração de carros e uma cidade à beira da histeria coletiva. Quem estava em Porto Alegre naqueles dias é capaz de entender o que quero dizer; aos meus amigos/leitores(as) de São Paulo e de outros lugares, eu realmente não sei se consigo com simples palavras explicar o que era aquilo. Buzinaço, pessoas bebendo e dançando no meio da rua, carros tocando o hino do Grêmio a todo volume, bandeiras, alarido e confusão. O que de fato impressionava nem era ver acontecendo essas coisas todas, mas sim o fato de elas estarem acontecendo bastante longe do palco do jogo, e com a mesma intensidade que deveriam ter lá, do lado do Olímpico Monumental. Para terem uma idéia, em determinada esquina um guarda de trânsito tentava orientar o fluxo de veículos ao lado de um sinaleira queimada – e o policial tinha em mãos uma bandeira do Grêmio, que agitava alegremente a todo o momento, recebendo em troca buzinas e gritos de festa dos motoristas identificados com aquelas cores e aquela vitória. Um policial em serviço, festejando ostensivamente a vitória de um time de futebol. Foi vendo essa e outras cenas que percebi a dimensão daqueles dias para quem gosta de futebol no RS – especialmente porque o ano anterior tinha sido de total triunfo para os vizinhos de vermelho, e a idéia de devolver já no ano seguinte aquelas conquistas certamente animou muitos torcedores ao frenesi quase absoluto. Acho bonito isso, perceber como o futebol pode ser bom para as pessoas, libertá-las dos problemas e dar a elas uma alegria, um sorriso, mesmo que eventual e momentâneo. E eram quartas-de-final, amigos(as) – imaginem então o que teria sido de Porto Alegre se o Grêmio tivesse vencido o Boca Juniors e levado a taça…
Talvez seja falta de isenção minha, mas essas coisas eu ainda não vi por aqui – essa empolgação quase insana, essa paixão que faz de um campeonato algo muito mais próximo de uma batalha moral e uma questão de honra do que de um mero evento esportivo. E confesso que sinto falta desse clima, tenho estranhado a falta de camisetas gremistas na rua, a ausência de provocações dos do outro lado, o clima de urgência e expectativa que tomava conta de cada dia de jogo. Sinto falta, evidentemente, também do Olímpico – mas ao estádio eu quase não pude ir durante a Libertadores de 2007, então com isso estou infelizmente quase me acostumando. O que mais faz falta mesmo é o tão falado “clima” de Libertadores – clima que, estando distante dele, consigo agora perceber em suas dimensões com uma clareza muito maior do que eu a sentia antes, estando imerso nele. E sinto saudades dele, de estar envolvido por algo que quase nada tinha de racional e, ao mesmo tempo, fazia um enorme sentido. Mas mesmo assim continuo me empolgando com a idéia de estarmos lutando pela conquista da América – e essa torcida tem sido uma das coisas que, em plena cidade de São Paulo, mais me aproximam do meu pago, da minha querência, do meu chão.
Pois então, amanhã tem Caracas x Grêmio, Libertadores 2009. Provavelmente, vou ter que apelar à internet para conseguir acompanhar. Mas vou estar com vocês, amigos e amigas gremistas – e vamos nessa, que o Tri está chegando. Abraço a todos (até aos que, mesmo torcendo para outro time ou detestando futebol, foram gentis de lerem isso até o final), e vejo vocês por aí.
Cara, eu moro em São Paulo há 7 anos e sou igualmente gremista. No começo era uma merda para acompanhar – não existia justintv e as transmissões de rádio via web ainda eram muito porcas. Agora já tá uma maravilha.
Mas eu realmente sinto falta do clima de Libertadores. Não ter como ir ao estádio eu já me acostumei, mas não ter com quem conversar sobre o Grêmio (e que entenda o que eu quero dizer, passe pelas mesmas coisas) é a pior parte. Meus amigos até já se acostumaram, mas conversar com um gremista sempre é diferente.
Eu entendo o que tu estás a passar haha.
Imagino o teu sofrimento daí, Igor. Mas saiba que o clima desta Libertadores aqui em Porto Alegre está sendo bem diferente daquela loucura de 2007. Por todas as razões que tu apontou, aquela foi uma Libertadores muito especial. Mas tenho certeza de que contra adversários mais fortes, nas fases finais, a loucura voltará.
Abraço tricolor!
Mais um post desses e eu volto correndo pra Porto Alegre, Igor Natusch.
Olha, te digo o mesmo, não fosse tu não ia ter mísero gremista para comentar e conversar. Tava muito acostumada a conviver com muitos gremistas na Fabico e com meu pai, principalmente, sem dúvidas o maior gremista de Farroupilha.
Mas é aquela coisa, o Grêmio precisa de uns promotores e entusiastas fora do Rio Grande, isso que me consola :P