Sim, eu sei que muita gente por aí está cansada de ouvir falar de política. O desencanto toma conta de quase todo mundo, e as pessoas encaram as eleições como um incômodo passageiro, um estorvo do qual é bom se livrar o mais cedo possível, já que todo mundo é ladrão mesmo e o Brasil nunca vai mudar. No entanto, não compartilho de forma alguma desses sentimentos – pelo contrário, continuo interessadíssimo no assunto, dei graças aos céus por termos nos livrado da Manuela no segundo turno em Porto Alegre e vou apoiar entusiasticamente a Maria do Rosário, porque apesar de tudo que anda acontecendo com o PT ainda prefiro alguma esperança, ou ilusão, do que esperança e ilusão nenhuma. Natural, portanto, que eu ande pensando um pouco nesse tipo de assunto – o que me levou a recordar ontem, junto com algumas monitoras do Estúdio de TV, da campanha eleitoral mais emocionante, bizarra e marcante que o Brasil já viu: as eleições de 1989.
Desde muito pequeno eu tive um interesse considerável por política. Acho que isso se explica pelo cenário que tomava conta do Brasil durante os primeiros anos da minha vida: anistia, Diretas Já, fim do regime militar e um lento retorno ao estado democrático. Lembro de ter visto pela TV a formação do Colégio Eleitoral, a eleição de Tancredo Neves para presidente e o anúncio da morte dele, feita pelo assessor de imprensa Antônio Britto (sim, aquele mesmo que governou o RS e fez uma bela de uma lambança). Lembro que eu (então com menos de cinco anos de idade), minha mãe e uma empregada doméstica assistimos o enterro de Tancredo pela TV, e eu e minha mãe chorávamos – ela por ver acabando daquele jeito as esperanças no primeiro presidente civil em mais de vinte anos, eu simplesmente entristecido porque minha mãe estava triste também. Claro que eu não entendia nada de política, mas acabei meio que absorvido por um momento onde a vida política fervilhava – e isso me interessou, de um modo ou de outro, por toda a minha infância. De modo que, quando chegou a hora de eleger o sucessor do Sarney, eu acompanhei todo o processo eleitoral, talvez já numa manifestação do jornalista que muitos anos mais tarde eu acabaria me tornando. E, isso eu digo para vocês, foi sem dúvida uma campanha política extraordínária.
Tudo que envolveu aquela campanha foi cercado pela confusão e pela bagunça. A começar pelo número de candidatos: vinte e dois. Sim, mais de duas dezenas de candidatos à presidência do Brasil – muitos deles escudados por legendas inexpressivas, a maioria extinta pouco depois da votação, como o PDC do B (Partido Democrata Cristão do Brasil), PLP (Partido Liberal Progressista), PTR (Partido Trabalhista Renovador) e o glorioso PCN, ou Partido Comunitário Nacional. Sabe-se lá o que defendia uma sigla dessas, mas enfim. Se não me engano, o horário político tinha uma hora de duração, e mesmo assim muitos candidatos tinham menos de 30segs para falar – o que, é claro, gerava soluções que iam do cômico ao patético. Foi em 1989, caso não lembrem, que surgiu o Prona e Enéas Carneiro, que falava aos gritos e em velocidade supersônica, encerrando com o histórico bordão “meu nome é Enéas!”. Tinha um outro cidadão - cujo nome admito que esqueci – que nos primeiros dias aparecia nas sombras, sem ser identificado (para criar um clima de mistério, sabem como é), até que de repente surgiu e mostrou ser um engravatado chocho, que deve ter ganho meia dúzia de votos no fim das contas. Outra figurinha clássica é José Alcides de Oliveira – ou o Marronzinho, candidato do PSP que tinha um jornal chamado “A Voz do Povo” e usava como slogan o bordão “pobre vota em pobre!”. Esse foi outro que usou um marketing viral: nos primeiros programas, o cidadão aparecia amordaçado, com uma voz ao fundo ameçando: “ele vai falar!”. Depois ele tirou a mordaça e, ahn, bem… Vejam por vocês mesmo o tipo de coisa que rolava nos vinte e poucos segundos de programa do homem – que hoje, diga-se, virou evangélico e assina como Jamo Little Brown:
Quanto aos candidatos que de fato valiam alguma coisa, desde o início o objetivo comum era evitar que o Lula vencesse aquela eleição. O barbudo, na época, era uma potência surgida das greves do ABC, um comuna temido por praticamente todo mundo que tinha ligação com o poder – porque, naquela época sim, certamente o Lula ia colocar o socialismo na ordem do dia no governo brasileiro. A campanha do homem era muito marcante, com as chamadas da “Rede Povo” (que mostrava “tudo que a outra não quer mostrar”) e a maioria da classe artística brasileira ao lado dele, além de um dos jingles mais emocionantes que se pode lembrar – “Lula-lá, brilha uma estrela / Lula-lá, cresce a esperança”… Normal, portanto, que houvesse uma verdadeira corrente-para-frente no sentido de derrubar Lula e colocar um candidato mais ‘palatável’ no Planalto. Nessa brincadeira, candidatos até que bem respeitáveis como Ulysses Guimarães – grande figura do Diretas Já – e Mario Covas acabaram sendo negligenciados, nomes da “velha guarda” como Aureliano Chaves e Paulo Maluf (que, não bastasse todas as merdas anteriores e posteriores, ainda tinha sido o adversário indicado pelos militares para enfrentar Tancredo Neves em 1985) foram lançados, mas o adversário ideal contra Lula acabou surgindo do Nordeste: Fernando Collor, o “caçador de marajás”, encabeçando uma coligação de partidos insignificantes mas contando com o apoio massivo da grande mídia. Um candidato “boa pinta”, carismático, que falava bonito e tal – ou seja, com tudo para ser a desgraça que acabou sendo. Mas enfim.
A polarização Lula x Collor só foi quebrada, na moral, por dois nomes: Leonel Brizola (que, diga-se, quase foi para o segundo turno, tendo ficado menos de 500 mil votos atrás de Lula) e, pasmem, Sílvio Santos, o homem do Baú. Ah, pobre criança, vai me dizer que não sabia que o dono do SBT concorreu à presidência?… Então, explicando: O candidato Antônio Corrêa da Silva, do PMB, teve a candidatura “rejeitada” por um motivo qualquer (leia-se, foi retirado do caminho para Senor Abravanel concorrer) e foi substituído por Sílvio Santos, em um movimento que deixou a política brasileira em parafuso. Como até as cédulas para a eleição tinham sido impressas a essa altura, o homem solicitava a seus “colegas de trabalho” que marcassem o X no número 26 e no nome Corrêa, pois os votos iriam para ele. De novo pedimos ajuda ao YouTube para você poder assistir um dos programas da curta campanha Sílvio Santos:
Sílvio Santos, tão logo surgiu, disparou nas pesquisas, e o medo de todos é que o homem ganhasse já no primeiro turno, deixando todo o resto a ver navios. Mas começaram a surgir algumas “denúncias” contra o candidato, o TSE alegou que a candidatura era fora do prazo, e nos livramos de ter o magnata da comunicação como primeiro presidente democraticamente eleito do Brasil em vinte e cinco anos. A eleição em si transcorreu bem, apesar da longuíssima apuração que levou quase duas semanas (não esqueça, era tudo em cédulas eleitorais de papel) e alguns incidentes. Conta-se que algumas urnas no ABC paulista foram postas em dúvida, devido ao fato curioso de terem pouquíssimos votos em Lula, enquanto o desconhecido Zamir Teixeira do PCN surpreendentemente ganhava em várias urnas. Depois descobriu-se a manobra: Lula construiu boa parte da sua campanha no fato de ser o primeiro nome da cédula eleitoral – e os mesários, “incentivados” por “forças ocultas”, entregavam as cédulas de cabeça para baixo, induzindo os votantes analfabetos ao erro e a votarem em Zamir, que era o último nome na lista de candidatos…
Acho que do segundo turno todos devem saber um pouco pelo menos: Collor x Lula, com baixarias generalizadas, debate editado pela Globo para prejudicar Lula e a eleição final do caçador de marajás, que depois seria defenestrado com o espetacular processo de impeachment, outro momento histórico do qual lembro muito bem. O resultado das urnas acabou sendo um choque de realidade para muita gente – afinal, Lula era bem ou mal a personificação de uma mudança profunda, uma figura do povo que há muito lutava pela democracia e pelos direitos dos trabalhadores, e acabou preterido em nome de um alpinista político de rosto simpático, palavras bonitas e pouca decência. O sonho de um governo de esquerda não exatamente acabou, mas foi sendo arrastado cada vez mais para adiante, até o ponto em que se concretizou de tal maneira que não era mais o sonho que tinha sido sonhado em 1989, e sim algo muito diferente. Pessoalmente, ainda considero o saldo final dos “anos Lula” bem mais positivo que negativo, em um governo que teve lá os seus acertos – mas a carga de sonho era alta, a queda foi grande, e daí o desencanto com a política que toma conta das pessoas país afora, apesar dos bons índices de popularidade do barbudo. De qualquer modo, para terminar com um toque de melancolia esse post, remeto-me pela última vez ao YouTube, e coloco abaixo o jingle da campanha de Lula em 1989. É difícil ouvir essa música e não se emocionar pensando na carga de esperança que foi colocada no operário que seria presidente, e em quanto essas esperanças foram feridas pelo que acabou acontecendo na realidade. Pessoalmente, ao ouvir o jingle sinto também um saudosismo maluco dos meus sonhos de moleque esquisito que gostava de política, e torço para que pelo menos parte daquela criança continue em mim para sempre. Tem que existir alguma coisa que esses políticos ladrões fdps não possam alcançar…
Era isso. Obrigado e até a próxima.
Bah, Igor. E se as coisas tivessem ocorrido de forma diferente? Diz a Lola – http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2008/10/feliz-eleio.html – que pegou toda essa época também que no dia seguinte as eleições o clima não era de festa, mas de velório. Como s etodo mundo soubesse que haviam deixado escapar o momento. Apesar de todos os pesares, não me desencantei com a política e não pretendo. Acho que mesmo essa quantidade absurda de falcatruas é resultadod e como nós deixamos as coisas correrem.
Muito bom o texto. Tinha também o glorioso Afif Domingos, que causou um certo frisson, deu uma pequena arrancada, mas acabou não decolando. Lamento muito não ter vivido essa eleição, tinha apenas 2 anos. As eleições mais acirradas que presenciei foram os dois duelos entre Britto e Olívio, principalmente o de 1998. Abraço!
Afif Domingos é aquele que levantava as sobrancelhas no horário eleitoral?
Silvio Santos > Collor.
Muito bom… gostei bastante.
Parabems por estas escolhas!
Sempre Votei para Lula e continuarei cas ele seje candidato aqui em SP!