Era um pouco além das dezenove horas, e eu tinha acabado de sair do trabalho no estúdio. Antes de poder voltar ao aconchegante refúgio do lar, tinha que pegar os convites da formatura na casa de uma das meninas da comissão, e o horário marcado para isso era às 20h. Como do meu trabalho até a casa da moça levaria cerca de vinte minutos de caminhada, teria ainda cerca de meia hora livre, período que eu simplesmente não sabia direito como preencher. Não comia nada desde o almoço, de modo que comer alguma coisa pareceu boa alternativa de distração naquele momento. Resultado: passei no mercadinho do Alemão, comprei um pacote de Ruffles churrasco e uma latinha da Coca Cola e fui caminhando até uma praça ali perto, para sentar um pouco e saborear a minha tão saudável e revigorante refeição.
Encontrei um banco vazio, do qual podia ver algumas crianças sorridentes aproveitando o ainda-sol de início de fevereiro, e ali me sentei, muito contente, para fazer a minha boquinha. Enquanto começava a comer, fiquei pensando na formatura, no fim das férias, no cada vez mais próximo show do Iron Maiden, na moça bonita que acabava de sair do supermercado ao lado com algumas sacolas de compras – ou seja, uma série de pensamentos livres e meio incoerentes que fluem com mais facilidade em um banco de praça, no fim de uma tarde de verão. Foi quando vi a pomba solitária, olhando diretamente para mim, e o meu devaneio se perdeu.
Era uma pomba escura, meio gorda, que caminhava preguiçosamente a pouco mais de um metro dos meus pés. Me encarava como as pombas encaram as coisas, com a cabeça meio de lado, como quem empresta o ouvido a um cochicho – e tinha um ar entre solene e suplicante, de quem quer ganhar algo mas se sente meio sem graça para pedir. Entendi imediatamente o que queria o bicho, e fiquei matutando a respeito. Sei que muitos encaram as pombas como animais nojentos, praticamente ratos de esgoto com penas, mas não costumo ver os bichos com tanta severidade: a seu modo, eles se adaptaram à metrópole até melhor do que nós, humanos, de modo que merecem o meu respeito. E, por respeito à ordem dos columbiformes, joguei um pequeno pedaço de Ruffles na direção do bicho que viera tentar a sorte aos meus pés.
A pomba revoou de leve, para logo dirigir-se ao local onde caíra o alimento e engolir o Ruffles alegremente, em um ou dois movimentos de pescoço e bico. Satisfeita com o próprio sucesso, ficou por ali, e sua presença imperturbável me constrangeu a jogar outro pedaço. Comeu mais uma ou duas vezes com alegria, até que outra pomba veio de algum lugar e se juntou à primeira em sua pose de orgulhosa pedinte. Como já tivesse comido quase todo o pacote e não tivesse mais fome, joguei outros pequenos pedaços aos bichos – só para que outros viessem, sem nenhum constrangimento, aproveitarem eles também aquela boca-livre. Foi um crescimento rápido – e quando percebi, já deviam ser pelo menos dez pombas, empolgadas, brigando aos meus pés por saborosos nacos de Ruffles sabor churrasco. Comecei a rir daquela cena meio ridícula, e agora posso dizer que sei com certeza como se sentem os velhinhos que alimentam as pombas nas praças centrais das grandes e pequenas cidades. Olhei para o espaço vazio ao meu lado, ainda rindo, e lamentei que não tivesse ninguém ali para rir junto comigo daqueles pássaros sacanas e esfomeados.
Finalmente, o salgadinho acabou. Dirigi a palavra aos meus novos e emplumados amigos, avisando que não tinha mais e que eles podiam ir embora. Demoraram a acreditar em mim, na verdade: continuaram por perto, rondando, e um deles chegou quase a pousar em cima do meu pé, tão ousado foi na busca de algum farelo perdido no meio da areia e das pedrinhas. Tomei os últimos goles de refrigerante, e vi as pombas – já aparentemente convencidas de que daquele barbudo vestido de preto nada mais sairia – alçarem vôo, pousando agrupadas nas grades externas de um edifício próximo.
Olhei para o relógio do celular: 19h39. Hora de ir. Limpei os farelos da roupa, derrubando inclusive alguns deles no canto vazio do banco, e já me preparava para levantar do banco e ir embora de vez quando vi, à minha direita, a pomba. Acredito que fosse a mesma que tinha me abordado da primeira vez: caminhava na minha direção de modo falsamente despreocupado, disfarçando os olhares que dirigia a mim enquanto avançava. Pelo visto, Ruffles churrasco não era exatamente um sabor comum na vida dela. Avançava sozinha em minha direção, nossos olhares fixos um no outro como duelistas de algum faroeste de quinta categoria.
Desviei o olhar primeiro, admito. Dos farelos que haviam ficado sobre o banco, ao meu lado, escolhi o maior e mais apetitoso de todos. A pomba, ainda sozinha, parou e ficou em expectativa. Disse a ela: “não avise ninguém, esse é só seu”. A pomba assentiu, cúmplice. E então joguei um último pedaço de Ruffles para ela.
não consigo ter um relacionamento tão bom assim com as pombas, apesar de tê-las oomo vizinhas.
:*
Cara, tu é o mais jornalista de todos. Precisava comentar isso antes de ler. À leitura. ;)
Testado e comprovado. hehehe
Mas, sério, me peguei rindo quase como que se estivesse sentada no lado vazio do banco. Consegui ver a cena direitinho! Daria um bom vídeo… hehehehehe Ai, essa gente do estúdio..!
hehe É.. Eu troquei o meu mil-novecentos-e-lá-vai-cacetada quando ele se murrió.. Não teve jeito.. O modelo 2000 ainda funfa, mas meu pai me deu outro.. Não recusei! =P Ele veio a calhar até! Me serve de pen drive ;D
Eu tenho um final mais bacana. Se viesse um carcará e desse um bote e depois saísse carregando a pomba com suas presas. Já vi e é muito legal. E eu sou das pessoas que acham as pombas asquerosos ratos com asas. E vou mais longe: o mundo só tá do jeito que tá porque escolheram a pomba como símbolo da paz.
Podiam ter escolhido as lhamas, que são divertidas e cospem na cara dos inimigos.
Faz tempo que não nos encontramos na net e tb não tenho vindo aqui para te visitar, mas senti vontade de ver o que andas a escrever aqui. Simplesmente comovente e adorável final, como disse a garota à cima, tb me senti sentada no banco… acho que no fundo você não estava tão sozinho assim, muitas vezes as pombas ou qualquer outro animal é muito melhor companhia… maravilhoso texto… suukko ja nähdään!!!!
jurei que ia encontrar um post sobre a sensacao de formado aqui.
a proposito, eu nem comentei das pombas, ne? mas enfim, agora o post ficou e eu nao vou mais comentar =P
smaco!
1 – aproveita que assim tu pode ler todos os posts atrasados =P
2 – e pq raios tu acha que eu nao vou aproveitar?
smaco desse tamanho!
ato e descrição dignos de Bandini, o grande Arturo Bandini.