Começo a digitar esse texto sem ter a menor ideia de como ele vai ser, muito menos de como – ou quando – ele vai acabar. Talvez, de todas as coisas que escrevi aqui nesse ano, essa seja para mim a mais importante de todas – afinal, é o momento de olhar por cima dos ombros, contemplar tudo que aconteceu e que não aconteceu no meu 2009 e tentar tirar de tudo, se não uma conclusão, ao menos algumas lições e caminhos para o futuro. Entender quem eu sou sempre foi um dos meus objetivos de vida, e um dos meus maiores desafios – talvez por isso, inclusive, eu observe tanto os outros, os anônimos das ruas e esquinas da vida: para ver neles algo de mim mesmo e, tentando entendê-los, compreender melhor a mim mesmo. E sério mesmo, esse 2009 foi um ano tão intenso e cheio de aprendizados que eu sinceramente, realmente, definitivamente nem sei por onde começar. Dá quase um frio na barriga, na verdade. Mas eu devo isso nem tanto a vocês, mas especialmente a mim mesmo – e não sou de recuar diante dos desafios ou das coisas que me dão medo, então… Coloquem uma música legal para tocar, uma bebida gelada do lado, e venham comigo, porque certamente vou precisar de companhia!
Bem, como eu imagino que a essa altura praticamente todo mundo que ler esse texto já saiba, o catalisador das mudanças no meu 2009 foi a minha decisão de tentar a sorte em São Paulo – decisão que se confirmou depois de uma visita de dez dias em janeiro, e que foi o ponto culminante de uma série imensa de dúvidas, ansiedades, sonhos e expectativas que tomavam conta do meu espírito. Tudo precisava mudar, e rápido – eu não podia esperar, entendem? Nem mais uma semana, nem mais um dia, um minuto que fosse. Era tanta urgência que eu fui, sem emprego certo, para morar de favor em um sótão, sem dinheiro para ficar muito tempo por lá, movido basicamente por uma grande necessidade de assumir os riscos e fazer algo diferente da minha vida. Saí na segunda metade de março, sem expectativas, mas cheio de esperanças. E agora em dezembro eu retorno uma vez mais para casa, para Porto Alegre, para ficar com a minha família até pelo menos o início de janeiro – um retorno ao estaleiro que pode se estender um pouco ou bastante, dependendo das circunstâncias. Volto sem emprego fixo, sobrevivendo de frilas e da caridade alheia, sem dinheiro para comprar roupas novas ou qualquer outra coisa, sem nada por lá (ou aqui) que eu possa chamar de meu. Materialmente falando, termino esse ano de 2009 com uma mão na frente e outra atrás, longe do tipo de história de sucesso que talvez alguns preferissem que eu pudesse contar aqui.
Isso quer dizer que me arrependo? Nunca. Jamais, de jeito nenhum. Pelo contrário, e isso talvez seja a maior conquista de 2009 para mim: depois de muito, muito tempo mesmo, posso terminar um ano dizendo que não me arrependo de nada. Absolutamente nada. Talvez as coisas pudessem ter sido diferentes, talvez eu pudesse ter agido de modo distinto em certas situações, talvez eu pudesse ter sido mais prudente, ter tido um pouco mais de malícia, ser mais cérebro e menos coração, vai saber? Mas eu posso chegar agora na frente de vocês, amigos/as e leitores acidentais, e dizer de peito aberto que eu fiz as coisas do meu jeito. Que eu não tive medo. Que quando eu quis dizer as coisas, eu as disse, e quando quis fazê-las, eu as fiz. Que eu joguei tudo para o alto, sim, e que eu percebi que talvez o passo fosse maior que as pernas, sim, mas que eu fiz o que eu senti que tinha que fazer, do jeito que eu achei que tinha que fazer, sendo fiel ao meu sentimento e ao meu coração. E foi a coisa certa. Talvez tenha sido a coisa mais certa que eu fiz em toda a minha vida. E eu não me arrependo de nada. E que é bom, muito bom mesmo sentir que fez a coisa certa, por mais que as coisas tenham saído de controle, por mais que não haja certezas e que não se tenha nenhum sinal claro de como será o amanhã.
E eu aprendi muita coisa. Tanto que eu acho que ainda estou absorvendo tudo, e que vai levar um tempo considerável até eu racionalizar todas essas lições que a vida me deu. Poderia passar dias listando todas as coisas que aprendi, e estou aprendendo, nessa jornada de redescoberta e reencontro pessoal. Aprendi a tentar entender os pequenos gestos, a ver por meio deles quem realmente se importa, e a fazer tudo que posso para valorizar essas pessoas e demonstrar a elas meu carinho e gratidão. Aprendi a ser grato pela comida que me servem, pelo teto que me protege do sol e da chuva, pelo canto em que me ajeito para dormir e pelo lençol que me dão para eu me proteger do frio. Aprendi, ou tenho tentado aprender, a gostar das pessoas sem esperar nada delas em troca, mas dando prioridade para as que demonstram capacidade de entender e corresponder, cada uma a seu modo, a essa afeição. Aprendi que a pressa é um estado de espírito, que no caso não me serve nem um pouco. Aprendi que, quando existe pelo menos uma pessoa nesse mundo que se importa com a gente, então nunca estamos realmente sozinhos. Aprendi a chorar de saudade, escolhendo o melhor momento, quase em silêncio e sem nenhum estardalhaço. Aprendi a andar sozinho, pelo simples prazer de caminhar, e descobri como é bom fazer companhia a si mesmo. E acho que aprendi, acima de tudo, qual é o meu papel nesse mundo, o motivo pelo qual me jogaram nesse lugar maluco e sem sentido – e acho que isso é tão importante, ao menos para mim, que vou abrir outro parágrafo para tentar desenvolver melhor.
Acredito em mágica, sabe? Não exatamente mágica do tipo truques e prestidigitação, mas no sentido de que existe mais no mundo do que a gente enxerga, de que a vida é cheia de coincidências que no fundo não são coincidências coisa nenhuma, de que a existência é muito mais do que uma barulhenta e apressada jornada do nada para lugar nenhum. Existe algo que a gente ainda nem começou a entender direito, e que possivelmente não entendamos nunca, mas que está sempre presente – e acho que um pouco dessa mágica se manifestou algumas vezes diante dos meus olhos, tendo sido especialmente forte durante o ano que passou. E acho, sinceramente, que recebi alguns recados, que só estou entendendo mesmo agora, que parei para pensar a respeito. Nada sobrenatural, nada de revelações divinas ou qualquer coisa do tipo – apenas alguns “toques”, digamos assim. E o que eles me dizem, basicamente, é: seja jornalista, Igor Natusch. Não um jornalista feliz empregado na Folha ou na Zero Hora, um eficiente criador de conteúdo capaz de galgar degraus na hierarquia de uma grande empresa; não é disso que estamos falando. Trata-se de ser um jornalista como eu era lá no primeiro grau, quando conversava com os colegas e dizia que queria trabalhar na área – um jornalista de alma. Alguém que sente, olha, pergunta, tenta entender, pensa e registra. Alguém que está no meio da vida, tentando decifrá-la. Claro que é muito mais fácil e mais cômodo viver alheio ao fato de estar vivendo, e acho mesmo que a felicidade é tanto mais fácil quanto menos a gente pensa sobre a vida. Mas não posso negar o que sou, o que fui durante a vida toda mesmo sem ter plena consciência disso, e o que é no fim das contas tudo que posso ser. Sou um jornalista quando escrevo, quando sento numa cadeira de bar, quando toco violão, quando pego uma câmera ou posiciono luzes num cenário. Sou jornalista quando converso com o balconista, quando estou com uma mulher, quando brinco com um cachorro, quando pego ônibus ou quando olho a fachada imunda de um prédio abandonado. Sou jornalista sempre, o tempo todo. E esse é, no fim das contas, o meu destino. Meu negócio não é ganhar dinheiro ou conseguir ótimos empregos, já percebi que não sou muito bom nessas coisas – meu negócio é contar histórias. Faço isso o tempo todo, porque simplesmente não posso e nem quero evitar. E vou fazer isso até morrer. Custe o que custar. Ainda bem que entendi isso, profunda e definitivamente – e, acima de tudo, ainda a tempo. Antes tarde do que nunca, diria o clichê.
Dito tudo isso, e embora ainda tivesse toneladas de coisas para dizer, acho que posso passar para a minha pequena lista de resoluções para 2010. Coisas que eu prometo solenemente, diante de vocês, que eu vou tentar fazer. Em 2010 eu quero ficar bem menos tempo no computador e sair bem mais para a rua, onde no fim das contas tudo continua acontecendo. Em 2010 eu vou carregar sempre um livro comigo, para eu ler todos os livros que deixei acumular por pura preguiça nos últimos anos. Em 2010 eu vou reunir os meus contos, participar de alguns concursos literários e bater na porta de algumas editoras. Em 2010 eu vou comprar roupas novas, e aproveitar que estou emagrecendo espontaneamente para fazer alguns exercícios. Em 2010 eu vou tentar achar alguém legal, que valha a pena ter do meu lado, mas sem pressa e sem galinhagem que isso nunca foi meu estilo. Em 2010 eu vou arranjar um lugar novo para morar, ou ao menos um teto novo sob o qual dormir. Em 2010 eu vou voltar para São Paulo e fazer coisas legais por lá, mas isso nem resolução é, trata-se apenas uma reafirmação. Em 2010 eu vou assistir todos os jogos do Grêmio que puder, em qualquer estádio que esteja ao meu alcance. Em 2010 eu não vou reclamar que não tenho dinheiro. Em 2010 eu vou ganhar dinheiro, tanto quanto puder, e espero que não seja pouco. Em 2010 eu vou continuar escrevendo, e vou escrever incansavelmente, tudo o que eu puder e até onde eu aguentar. Em 2010 vou ´publicar mais seguidamente aqui no blog, tentar fazer coisas mais jornalísticas e menos “querido diário”, e textos não tão longos também, se possível. Em 2010 eu vou fazer um monte de coisas legais, e torcer para que algumas delas sejam publicadas ou exibidas por aí. E em 2010 eu vou seguir fazendo a coisa mais certa que eu posso fazer: sendo eu mesmo. Para o bem, e para o bem também, que a gente ser exatamente quem é sem se pautar pelo que os outros querem ou pensam nunca vai ser algo ruim.
Por fim, terminado esse rascunho de Bíblia, alguns agradecimentos. A minha família, que me apoia mesmo quando não me entende e na qual eu sempre encontro carinho e abrigo. Ao Seu Luiz, Dona Agnes e Luciano, a família extraordinária que permitiu que eu me enfiasse na sua casa, me acolheu e me tratou de um modo que eu jamais serei capaz de agradecer tanto quando gostaria. A pessoas como o Renan, Ungaretti, Marques, Denise, Jorge, Sindia e vários outros, que me deram conselhos e oportunidades, mesmo às vezes sem saber direito quem eu era, apostando nesse desconhecido de barba ruiva e sem muita noção na cabeça. Aos meus amigos, os de POA, de SP e de outros lugares do Brasil e do mundo, que me ofereceram as verdadeiras lições, o sentimento mais bonito e o apoio mais importante, no momento que mais precisei. A todos, muitos até desconhecidos, que me ajudaram pagando comida ou cerveja, emprestando livros ou filmes, comentando alguma coisa que escrevi, puxando conversa no ônibus ou no metrô, dando uma informação, me presentando com um sorriso inesperado no meio da multidão indiferente. A São Paulo, por me receber tão bem, a Porto Alegre, por sempre me aceitar de volta, e ao mundo, por deixar claro que posso ir até ele a hora que eu quiser. Muito obrigado a todos, do fundo do meu coração. Graças a vocês, 2009 foi um ano inesquecível – e, talvez, o melhor de toda a minha vida.
E que venha 2010. Depois de 2009, acho que estou pronto.