Historinha curta e uma breve despedida

•Agosto 10, 2008 • 2 Comentários

Quinta feira, mais ou menos meio dia. Eu e a senhora minha mãe passamos aquela manhã toda fazendo compras - formatura da Comunicação, Gramado, sabem como é. Havíamos acabado de sair do Shopping Total, e íamos pegar um ônibus até o centro. Depois da minha mãezinha quase ser atropelada ao atravessar a avenida de maneira altamente imprudente - e de receber em troca uma das minhas ironias inconvenientes, comentando de como faltou pouco para eu ter o privilégio de ver minha própria mãe toda arrebentada no asfalto - eis que nos posicionamos para pegar o lotação. Passa um busão, passa dois, três, e então um T5 estaciona para deixar alguns passageiros. Gente sobe, gente desce, e de repente uma vozinha infantil corta o ar, gritando:

- É esse! É esse!

Era uma menininha de talvez uns oito anos, usando um casaquinho rosa e segurando um guarda-chuva transparente. Corria em direção ao ônibus tentando embarcar antes de ele partir, quase trançando as perninhas de tanto esforço, os cabelos castanhos quase cobrindo o rostinho tomado pela ansiedade. Um rapaz que estava subindo ouviu a menina e ficou parado na porta para dar tempo de ela chegar até a entrada do ônibus - mas acho que o próprio motorista já a tinha visto, de qualquer modo. Enquanto corria, a menina continuava gritando, preocupada - e dali a pouco começou a chamar:

- Vem, vovó! Vem!

Nisso, surge uma senhora que atravessava a rua - uma velhinha bem velhinha mesmo, que carregava algumas sacolas e andava rápido, daquela maneira que é a mais próxima que os mais velhos conseguem chegar de correr de fato. Embora ofegasse, sorria a velhinha - e a menininha, já quase dentro do ônibus, continuava gritando, mas agora o seu tom não era mais de preocupação. Ao enxergar a vó, um sorriso enorme desanuviou o ar de seu rosto - e então começou a gritar, ofegante mas animadíssima:

-  A GENTE CONSEGUIU, VOVÓ! A GENTE CONSEGUIU!

Conseguiram mesmo.

Sério. Foi a coisa mais legal que eu vi a semana inteira.

EM TEMPO: daqui a algumas horas, estarei indo em direção a Gramado/RS, fazer mais uma vez a cobertura do Festival de Cinema e do Gramado Cine Vídeo. Obviamente, vou estar meio sumido na próxima semana - então não estranhem meu silêncio, pois será por uma boa causa. Na volta, faço um relato para vocês de tudo que rolou, como de hábito. Cuidem-se, a gente se vê na volta.

E a Phoenix voa em um Marshall envenenado (ou, músicas que as pessoas deveriam ouvir, ou não - parte 1)

•Julho 27, 2008 • 6 Comentários

Sim, faz mais de mês que eu não coloco nada que preste aqui no blog. Muitos fatores se uniram para redundar nisso aí - os principais deles o péssimo estado do computador aqui de casa (onde até entrar no Gmail vira novela dependendo do caso) e, é claro, a preguiça desgraçada que tomou conta de mim nas últimas semanas. Mas acho que isso vai mudar logo - estou com várias idéias e, o mais importante, com vontade de escrever. Alguns posts virão em breve, portanto - mas por enquanto deixo vocês com mais uma das minhas pesquisas malucas, que vocês estão livres para não ler se não quiserem. Se resolverem ler mesmo assim, boa sorte…

Sinceramente, se tem coisa mais fascinante que o mundo da música, eu não conheço. Fora o lado especificamente musical, mesmo - essa coisa de discos, letras, melodias e por aí vai - temos todas as histórias envolvendo bandas e artistas, muitas vezes tão fascinantes que superam (e longe) as mais imaginativas obras de ficção. Eu ouço muita coisa esquisita, admito - e acabo tendo contato por tabela com uma série de histórias incríveis relacionadas às coisas que ouço, e algumas dessas histórias são tão boas que me dá vontade de escrever algo a respeito delas. Por exemplo, vocês gostam de Beatles, certo? Claro que sim, todos (ou quase todos) gostam. Imaginem então uma banda que surgiu em 1962 fazendo covers de Beatles e que ainda está na ativa. Mais: que a banda em questão surgiu em um país do antigo bloco socialista - no caso, a Romênia. E mais ainda: que essa banda gravou um disco ao vivo em 1992 que tem uma história quase inacreditável, além de uma das mais intensas cargas emotivas que eu já vi / ouvi na vida. Pois então preparem-se para o Phoenix, e para a série de eventos que envolvem o disco “SymPhoenix - Timisoara” - que você certamente nunca ouviu, mas bem que deveria!

O Phoenix surgiu em Timisoara mesmo, por iniciativa de Nicu Covaci - vocalista, guitarrista e um dos heróis e pioneiros máximos da música romena em todos os tempos - e dois outros amigo de escola, chamados Béla Kamocsa e Moni Bordeianu. Durante os primeiros anos, a banda se chamava Sfintii (”Os Santos”), e se apresentava em festas e bailes de colégio tocando covers de Beatles, The Who, Stones e coisas assim. Porém, montar uma banda de rock num país comunista não era bolinho - ainda mais numa época onde o rock era novidade até na Inglaterra, que dirá no resto do mundo. Desde cedo o departamento de propaganda do governo romeno se esmerou em cortar as asinhas da banda - e graças a uma “sugestão” do Partidão o nome Sfintii foi trocado para algo com menor “carga religiosa”, passando a ser o Phoenix que entrou para a história.

Os primeiros EPs da banda ainda eram nessa linha mais Beatlemaníaca, mas a pressão estatal foi caindo também sobre a sonoridade do grupo, meio que forçando uma certa “adaptação musical”. Segundo os censores, o estilo da banda era “ocidental demais”, e uma musicalidade um pouco mais regionalizada seria “desejável” caso a banda quisesse seguir na ativa sem problemas. Assim, o Phoenix foi cada vez mais mergulhando na cultura de seu país, inserindo uma série de elementos do folclore local e incorporando elementos cada vez mais próximos do rock progressivo ao seu som. Discos dessa fase, como “Mugur de Fluier” (1974, esse da foto ao lado) e “Cantafabule” (1975) são obras históricas no leste europeu, mas virtualmente desconhecidas fora dele, como era de se esperar pelas dificuldades de intercâmbio cultural da época. Hoje é um pouco mais fácil, pelas facilidades do mp3, mas imagina os caras contrabandeando discos de rock na época, correndo até risco de ir para a cadeia… E os comunas não davam folga, claro. Para terem uma idéia, um álbum inteiro (”Mesterul Manole”) foi censurado de uma maneira bastante “prática”: simplesmente deram um sumiço nos originais do disco levados para inspeção do partidão, mandando para o espaço todas as letras, gravações, ilustrações para a capa…

Dado o quadro, não surpreende que os músicos da época estivessem meio, digamos, ressabiados com essa situação. Recados contra o autoritarismo eram inseridos de modo simbólico nas letras do grupo - alguns passavam batidos pela censura, outros não. Embora o Phoenix fosse uma lenda na Romênia, os caras estavam só esperando a chance de se mandarem de lá - e nosso camarada Nicu Covaci, que já vinha recebendo alguns “conselhos” mais “explícitos” da Propaganda, casou-se com uma holandesa em 1976 e aproveitou a deixa para se mandar da Romênia, o que de certo modo simbolizava o fim da banda. Mas na verdade esse era só o começo da história…

No início do ano seguinte um terremoto assolou o país, e a possibilidade de o Phoenix fazer alguns shows beneficentes convenceu os comunistas a permitirem a volta temporária de Covaci ao território romeno. Conforme o combinado, o Phoenix fez dois shows grandiosos, arrecadando grande quantidade de dinheiro e mantimentos para as famílias atingidas - e terminado o segundo espetáculo, o músico foi autorizado a deixar o país de volta para a Holanda. Mal sabiam os comunistas que a van que tirou Covaci do país carregava mais que os equipamentos de palco do músico… Explico: desesperados para fugir, os demais músicos do Phoenix viram no vai-e-volta de Nicu Covaci a chance para saírem do país - e o fizeram de modo cinematográfico: esconderam-se dentro dos Marshalls que o guitarrista carregava no veículo, atravessando a fronteira e fugindo da Romênia. O que já é incrível torna-se ainda mais admirável ao lembrarmos que as leis de fronteira do país eram muitíssimo severas, e que os fujões seriam encarcerados sem piedade se fossem capturados durante a fuga. Quanto a Covaci, que usava seu salvo-conduto para colaborar com a fuga, bem… Ele provavelmente receberia “só” a pena de morte. Ou seja, louve-se a coragem dos músicos em arriscar essa fuga maluca e perigosa - e em especial Covaci, que arriscou seriamente o próprio pescoço para ajudar seus amigos e colegas de banda.

E eis o que nos conduz a “SymPhoenix - Timisoara”. Em 1990, treze anos depois da fuga do Phoenix, eis que o governo de Nicolae Ceausescu é derrubado e a democracia volta ao território romeno. Depois de mais de uma década distante do país, os músicos puderam voltar - e fizeram um show de retorno absolutamente histórico, tocando na sua cidade natal para um dos maiores públicos já registrados no país até então. O disco em questão registra esse momento - e, ainda que a gravação direto da mesa de som tenha limado o barulho da platéia, dá para perceber que a coisa toda foi extremamente emotiva, e isso para dizer o mínimo. Disco ao vivo, convenhamos, é o que não falta por aí - mas vai ser difícil, bem difícil achar algum com uma história tão marcante e inacreditável quanto esse, sinceramente. A banda continua ativa, com Nicu Covaci liderando a brincadeira já há 46 anos (!!!) - e vocês aí, achando que o Rolling Stones é uma banda longeva e que o Caetano Veloso, sim, teve problemas com censura. Hunf. Pelo menos, se você leu isso até o fim é um sinal de que ainda existe chance de salvação - e podem falar comigo, que eu libero os mp3 sem problemas para quem quiser. Muito obrigado pela atenção, e até a próxima.

EM TEMPO: E ainda me vieram uns colorados dizer que ganhar do Figueirense era “fácil”. Sim, claro - vencer o Ipatinga é que deve ser muito complicado…

A respeito do futebol que vale a pena assistir

•Junho 22, 2008 • 4 Comentários

A Eurocopa anda dando várias satisfações para o meu lado apreciador de futebol. Quando falo em “apreciador de futebol”, entendam, não estou me referindo ao futebol bailarino, aos dribles da foca e pedaladas à Robinho que tantos elogios arrancam de nossa “mídia esportiva” - afinal, malabarismos com bola os elefantes de circo também fazem, e ninguém sai por aí chamando isso de futebol. Falo do futebol como eu acho que tem que ser - aguerrido, de qualidade técnica sim, mas disputado com determinação e acima de tudo emocionante. E quem falar que a Euro anda “chata” deve ser fã de hóquei ou algo assim, porque convenhamos, jogo emocionante não anda faltando…

Sexta-feira, por exemplo. Cróacia x Turquia, quartas de final. Como em praticamente todos os jogos importantes da minha vida, estou no estúdio, trabalhando - ajeitando arquivos, arrumando coisinhas, servicinho burocrático mesmo. A opção que me restava para ir acompanhando o jogo era o minuto a minuto do Terra, que é um lixo mas ao menos abre em qualquer PC furreca. Zero a zero. Aparentemente a Croácia pressionava, mas Rustu (o goleiro turco, para os não-iniciados) estava em grande jornada e mantinha o empatezinho sem graça. As horas vão passando, e o placar fechado se arrastando. Termina o tempo normal, e lá vem prorrogação, tudo no mesmo ritmo rumo-aos-pênaltis de antes. Nisso, aparecem dois alunos para perguntarem de edições e inscrições para o Gramado Cine Vídeo - gente, aliás, que eu sei de outros carnavais que são apreciadores de um futebolzinho amigo sempre que possível. Aproveitando o intervalo no trabalho para um gesto hospitaleiro e unindo o útil ao agradável, apelei às delícias do MyP2P futebolístico (coloquei o link ali do lado, aos interessados) para assistir em tempo real o finzinho do jogo. Demorou um tempinho, mas achei um canal funcionando no Media Player - e nisso já era uns 13mins do segundo tempo da prorrogação. Logo a seguir, gol da Croácia, numa falha do Rustu que estava até ali salvando os turcos da derrota: festa insana dos croatas, e eu e mais de três quartos do mundo pensamos cá com nossos botões “é, já era para a Turquia”. Já estamos nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação, não tinha tempo para mais nada do ponto de vista racional, e os dois alunos e eu estamos conversando sobre a iminente classificação croata. No momento fatal, só eu estou olhando para a tela do computador, um pouco distraído até - e eis que Rustu, o herói que quase vira vilão, dá um chutão para a frente, a defesa croata bobeia, e em um milésimo de segundo eu encarno repentinamente Paulo Odone na Batalha dos Aflitos, gritando “OLHA LÁ, OLHA LÁ” enquanto os dois estão dando risada de alguma coisa que não lembro o que é. Não adiantou, claro: só eu vi o gol milagroso da Turquia, empatando o jogo no apagar das luzes para o espanto de todo o mundo - e para desespero de um dos presentes, que até pouco antes do desfecho inesperado estava a lembrar alegremente as raízes européias de seu avô ou bisavô croata. Mais uma vez, o futebol ensinava ao mundo que nada está decidido antes do apito final, e que sempre está em tempo de um milagre, mesmo que tudo conspire contra.

Os turcos terem ganho nos pênaltis no fim das contas (com Rustu pegando o derradeiro e virando de vez o favorito nas próximas eleições para a presidência da Turquia) nem faz diferença no final da história: o negócio foi a superação heróica num momento em que nem a mãe do Rustu deveria ainda acreditar no milagre. E ainda enchem a boca para dizer que a Euro 2008 está “fraca”. Querem futebol arte, meus amigos? Peçam emprestado o DeLorean de Doc Brown, porque nem a seleção brasileira anda oferecendo isso - muito pelo contrário, aliás. Querem ver a torcida mineira bater palma para o Messi, ouvir o Galvão Bueno gritando “PEDAAAAAALA ROBINHO!” nos momentos mais esdrúxulos, e assistir um time de burocratas amarelos correndo atrás de uma bola com o fastio de quem já conquistou tudo que queria na vida, tudo isso em nome de um patriotismo oportunista e bolorento? Tudo bem, boa sorte para vocês. Da minha parte, morro abraçado com os jogos talvez pouco brilhantes, mas dramáticos e emocionantes da Euro, que eu ganho mais.

EM TEMPO (1): Não sei o que é mais estranho: usar terno ou uniforme de trabalho…

EM TEMPO (2): Deixem de ser chatos, oh, vocês que criticam “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”. Não podem simplesmente sentirem-se gratos de termos um novo filme de Indiana Jones depois de todos esses anos, ao invés de ficarem reclamando de tudo? Tá que o ritmo quase lúdico dos filmes anteriores meio que se perde no meio de algumas cenas de ação que mais parecem Matrix, que o carinha de jaqueta de couro e metido a motoqueiro não tem muito carisma e que o fim da história é um tanto quanto nada-a-ver, mas e daí? É um filme divertidíssimo, que se assiste alegremente comendo pipoca enquanto o cérebro dá uma voltinha - qual o problema com isso? Não era isso mesmo que os outros eram? E que diabos, tem a Cate Blanchett ainda por cima. Chatos, chatos, todos vocês. Hunf.

Dois passarinhos e as causas perdidas

•Junho 3, 2008 • 6 Comentários

Há várias semanas atrás, encontrei um passarinho caído no meio-fio, morrendo. Eu estava na parada de ônibus, esperando para ir para casa - devia ser umas seis e meia de um sábado ou domingo, e estava chovendo um chuva fraquinha, daquelas que mais incomodam do que molham de fato. Estava lá, sozinho, distraído com meu mp3 player e meus pensamentos, quando vi com o canto do olho um movimento no meio das folhas secas caídas na sarjeta. Sou curioso, sempre fui; e quando me abaixei para ver o que era, pude ver que era um passarinho bem pequeno, todo molhado e tremendo de frio. Parecia ser bem novo, talvez um bichinho que tinha caído do ninho e não tinha condições de voltar sozinho para lá. Olhei para a árvore logo acima de nós: pelo menos uns cinco ou seis metros de altura nos separavam dos galhos mais baixos, de modo que qualquer tentativa de colocar a criaturinha de volta no ninho, estivesse ele onde estivesse, seria uma perda de tempo.

O bichinho estava, portanto, condenado - e talvez seja excesso de sentimentalismo meu, mas acho que ele mesmo já tinha percebido isso muito claramente. Soltava uns sons meio lamentosos, e tinha um ar de desânimo muito particular, levemente ofendido, como se julgasse a si mesmo vítima de uma brincadeira muito sem graça. Não estava exatamente ferido, mas não tinha a menor chance de sair sozinho daquela situação em que estava - e, depois de breve reflexão, percebi que eu mesmo não podia fazer nada para ajudá-lo. Desliguei o aparelho de mp3, me abaixei um pouco mais e fiquei olhando para o bichinho, pensando em algumas coisas - e sei lá por quê, me lembrei de uma coisa que aconteceu quando eu estava na quarta ou quinta série, e na qual não pensava há muitos e muitos anos.

Era um dia de muito sol, e eu e alguns amigos estávamos brincando no colégio onde estudávamos. Acho que a aula tinha acabado mais cedo, não lembro: eu sei que estávamos livres, sem ter o que fazer, e ficamos naquelas brincadeiras típicas de moleques de nove ou dez anos de idade. Alguns funcionários estavam reformando o telhado de um dos pavilhões onde tínhamos aula, e retirando coisas do forro para poderem prosseguir com seu trabalho, quando um deles achou um ninho entre a serragem e as telhas. No ninho, um pássaro magro, de olhos ainda fechados, com a boca escancarada e gritando por comida. Não sei que tipo de passarinho era, mas lembro claramente da imagem do bicho indefeso, sem uma única pena no corpo, pedindo um alimento que nunca ia chegar.

Ficamos, obviamente, com muita pena do pobre bicho, e um de nós perguntou para o homem que segurava a telha com o ninho se tinha um jeito de devolver o bichinho para a sua mãe e mantê-lo vivo de algum modo. Com a visão simples de vida dos homens rudes, ele nos desencorajou: a mãe não encontraria o filhote, e ele não ia ter como comer, então estava perdido e não tinha o que pudesse ser feito por ele. Ficamos tristes, claro, mas aceitamos com certa resignação as palavras do adulto que sentenciava a morte do passarinho - menos um de nós, que decidiu que não ia deixar o bicho morrer de jeito nenhum. Lembro que o nome do menino era Christian - um moleque pobre, cheio de irmãos, que não se destacava de modo especial na nossa turma e que andava conosco mais por não ter com quem andar do que por qualquer outra coisa. Fosse como fosse, tomou o ninho nas mãos e colocou-se na tarefa de salvar a vida do passarinho condenado: fez alguns afagos na cabeça do bicho, amassou minhocas para que ele comesse e até mesmo subiu em uma árvore, procurando um galho firme para colocar o ninho antes de ir embora. O homem que falou conosco tentou desmotivá-lo ao esforço inútil, mas logo desistiu - não sei se percebeu que a lição do menino teria que ser aprendida sozinha, ou se apenas estava ocupado demais com as próprias tarefas para continuar envolvido com aquela história.

Lembro que fiquei olhando aquilo com certo distanciamento - talvez vocês não acreditem, mas sempre fui uma pessoa meio realista demais, desde muito jovem, e alguma coisa me dizia já naquele momento que o esforço do meu amigo seria inútil. Acho que ajudei ele um pouco, mas sem muito entusiasmo - e, se bem me lembro, os outros moleques presentes também não viam aquilo como algo muito divertido, para ser honesto. Mas o menino estava determinado de uma maneira que eu nunca tinha visto; e quando finalmente o sol começou a cair e fomos embora, ele disse que voltaria ao ninho, e que ia ajudar o bichinho a não morrer de fome. Acho que no outro dia o tal passarinho não estava mais no ninho; se a memória não me trai, foi isso que aconteceu, encerrando o assunto. O tal Christian saiu do colégio em circunstâncias que não recordo e seguiu sua vida em algum lugar, de algum modo que eu não sei como foi; eu cresci, e agora estava lá, mais de quinze anos depois, acocorado no meio-fio olhando para um passarinho que ia morrer, do mesmo modo que aquele outro tinha morrido, lá longe no passado.

Poderia dizer aqui que pensei na finitude da vida, em como tudo é frágil e dura tão pouco tempo e como no fundo nada disso faz diferença no grande plano que foi traçado (ou não) para nós e por aí vai. Mas seria mentira, porque na hora não pensei em nada disso: pensei, isso sim, em como devia ser desagradável morrer no meio da sujeira, molhado e longe de casa, e em como o pobre bicho deveria estar infeliz com aquilo tudo. Salvá-lo eu não podia; mas dar uma ajudinha a ele estava ao meu alcance e não me custaria nada. Meti a mão no bicho (que protestou mas sem muito entusiasmo), tirei ele daquele amontoado de folhas secas e restos de lixo e o coloquei num lugar um pouco mais seco - um canto coberto por algumas plantas e pedaços de madeira, onde a chuva não pingava diretamente nele. Desejei mentalmente boa sorte para o passarinho, limpei as mãos nas calças, virei as costas e fui pegar meu ônibus, sem olhar para trás. Não sei o que foi feito dele, mas posso imaginar como a história terminou.

Não sei exatamente por que resolvi escrever isso aqui. O fato em si já ocorreu faz algum tempo, já é “notícia velha” na minha vida, e passei um bom tempo sem pensar nele - só o recordei hoje, depois de um dia corrido de trabalho e de algumas conversas no MSN. Não sei se a história tem uma moral, para ser honesto; mas, relembrando o que aconteceu e o que pensei durante o acontecimento, acho que finalmente entendi, muitos anos depois, o que levou meu amigo a agir como agiu naquela tarde ensolarada que hoje só existe na minha memória. Tolos fomos nós, de achar que ele queria salvar o passarinho; no fundo, talvez até de modo inconsciente, ele queria apenas dar uma ajuda para o bichinho. Talvez, nesse mundo de causas perdidas e de pequenas e grandes tragédias, seja isso tudo o que nos resta - dar uma mão para quem está por baixo, para que não seja tão ruim a sua jornada rumo ao momento final que espera por todos nós. Talvez o mundo fosse um pouquinho melhor se parássemos de querer salvá-lo com alguma fórmula mágica, e passássemos apenas a dar uma ajudinha uns aos outros, para que no fim das contas o caminho de todo mundo ficasse menos chuvoso e pudéssemos, todos, ter um cantinho seco para morrer.

Não sei, não sei. Ando pensando em coisas estranhas ultimamente, como se vê.

Dobram os sinos pelo Metallica?

•Maio 12, 2008 • 13 Comentários

Esse texto foi originalmente planejado para a publicação no blog coletivo Cowabanga - como, de fato, acabou ocorrendo. Mas é um texto que fala tanto sobre mim e cujo resultado me agradou tanto que acabei decidindo publicar ele por aqui também - já aproveitando o ensejo para evitar que o silêncio seja grande demais por aqui. Espero que meus colegas de blog não fiquem muito chateados com essa não-exclusividade, e prometo em breve trazer conteúdo um pouco mais exclusivo, tanto lá quanto aqui. Obrigado :)

Acredito que seja um pouco difícil para quem vê o Heavy Metal de fora entender a importância e a influência que o Metallica teve sobre a vida de milhões de pessoas nos últimos vinte e cinco anos. Eles foram, obviamente, uma das bandas mais emblemáticas do Heavy Metal dos anos 80, e ainda hoje são um fenômeno de vendas em todo o mundo - ou vocês acham que é bolinho vender mais de 100 milhões de cópias mundo afora? Mas, além disso, eles foram também um fenômeno comportamental, um sucesso que transcendeu as prateleiras das lojas de disco e influenciou decisivamente a postura, o visual e a personalidade de quantidades imensas de pessoas. Dá para dizer, por exemplo, que esse humilde escriba se tornou o que é hoje muito por causa do Metallica, mesmo que seus sentimentos sobre a banda tenham mudado imensamente com o passar do tempo. E com certeza o que se deu comigo se deu com muita, mas muita gente mesmo nos últimos tempos.

Vou tentar explicar. Ouvi Metallica pela primeira vez muito jovem, com uns onze anos eu acho, através de uma fita cassete gravada pelo filho de uma professora do colégio onde eu estudava. Ele era fã de Heavy Metal, e gravou para meus irmãos duas fitas Sony - fitas que, obviamente, ouvi muito por tabela. Uma delas era uma seleção com várias bandas de “rock pauleira”; a outra era, simplesmente, a íntegra do álbum “Master of Puppets”. Foi o primeiro disco completo que ouvi na vida, que eu lembre - e até hoje é um dos meus favoritos. O impacto daquelas oito músicas sobre a minha pessoa foi indescritível: creio que demorei um pouco para conseguir entender o que de fato estava acontecendo, mas lembro que desde o primeiro momento me fascinei pela energia que surgia daquelas músicas, e gostava de ouvir aquilo mesmo sem entender direito as nuances do que estava escutando. Mais do que um fã de Metallica, aquele moleque estava se transformando num fã de Heavy Metal, embora ainda não soubesse claramente disso.

Fui entrando na adolescência, e o Metallica me acompanhou pelo processo. Musicalmente, digam o que disserem, era uma equipe perfeita. James Hetfield, além de vocalista marcante, era um monstro das palhetadas, e mandava riff em cima de riff sem piedade; Kirk Hammett era responsável por alguns dos melhores solos que ouvi na vida; Lars Ulrich soava como nenhum outro baterista era capaz, preenchendo espaços inimaginados com seus contratempos surpreendentes; e Cliff Burton era a lenda, o baixista perfeito que morreu jovem em um acidente na van que conduzia a banda durante uma turnê. Jason Newsted se esforçava, tinha carisma, mas não podia ser maior do que a lenda - porque disso ninguém jamais seria capaz. Muito da minha vontade de tocar baixo veio da figura de Cliff e da aura de integridade musical que praticamente tornou-se sinônimo de seu nome. 

Os álbuns do Metallica eram bíblias para o estilo, verdadeiras cartilhas que qualquer fã respeitável de Heavy Metal não podia ousar sequer cogitar ignorar. E se o som era perfeito, o que dizer da imagem daquela banda? Quatro cabeludos de jeans, tênis ou botas, camisetas pretas e jaquetas cobertas de “patches” - sem os exageros visuais típicos daquela época tão exagerada, eles eram a banda mais malvada e de atitude mais incrível que qualquer jovem de 14 ou 15 anos poderia querer. Ter uma camiseta do Metallica era como adquirir um manto sagrado; vesti-la era quase um ato ritualístico, um gesto de comunhão religiosa com algo maior do que se podia conceber. Vê-los ao vivo, então, seria praticamente atingir o Nirvana (sem trocadilhos musicais, por favor). Lembro que assistia os vídeos da banda no extinto “Fúria Metal” da MTV, apresentado pelo Gastão Moreira, e cada vez que passavam qualquer um deles era um momento em que o mundo tinha que esperar – afinal, era um clip do Metallica! Destaque para “One”, com uma história desconcertante sobre um aleijado de guerra – e graças a esse clip e essa música conheci “Johnny Got His Gun”, uma das obras mais belas e perturbadoras do século que passou, nada menos que isso. Em suma, o Metallica era mais que uma banda: era uma entidade, algo que não era deste planeta e que, por algum motivo, tínhamos sido afortunados de ter a chance de testemunhar. Em suma, eles eram foda!

Assim foi até a segunda metade dos anos 90, quando tudo começou a mudar. Tem quem os critique pelo “Black Album”, o disco que marcou o estouro comercial definitivo da banda - mas para mim o choque foi um pouco posterior, mais precisamente a partir do álbum “Load”. E, de novo, foi muito além da questão meramente musical. Cabelos cortados. Sapatos. Terninhos, pelo amor de Deus, terninhos! E, ouvindo o disco, um monte de musiquinhas chochas, enjoadas, com direito até a um “momento The Cure” na horrenda “Hero of the Day” – nada específico contra o The Cure, mas o Metallica não é a banda de Robert Smith, ora essa! A banda que não se vendia por mais sucesso que fizesse agora estava lá, vestindo roupas ridículas e gravando clipes idiotas para tocar no Disk MTV. Era mais do que simplesmente uma banda tentando novos horizontes – ou “se vendendo”, como muitos prefeririam colocar: era o Metallica, a banda mais fodona do planeta, viajando na maionese e perdendo completamente o rumo. Para muitos, eu incluído, foi um pouco como o fim de uma religião.

Desde então, eu diria que o encanto se quebrou. Continuei fã de Heavy Metal tanto, ou até mais do que antes – e bandas que eu já curtia na época, como Iron Maiden e Judas Priest, acabaram tomando naturalmente o lugar do Metallica na posição máxima do meu ranking musical. Não deixei de gostar da banda – pelo contrário, tanto que fui feliz da vida no show deles aqui em Porto Alegre, em 1999, no Hipódromo do Cristal. Putz, já fazem mais de nove anos… Enfim, não passei a detestá-los: apenas deixei de segui-los. Começaram com um monte de experimentações, fazendo saladas musicais, gravando discos com orquestra e o diabo – e tudo que eu sentia era que aquilo não era certo, que aquele não era o Metallica como ele deveria ser. E eles ainda me aprontam uma abominação chamada “St. Anger”, possivelmente o disco mais constrangedor já gravado por um gigante do Heavy Metal – com direito a um Kirk Hammett decorativo (já que não fez um único solo no disco inteiro e as tocar as bases de guitarra nunca foi o seu forte) e um som de caixa de bateria que entrou sem pedir licença para o anedotário do Rock, de tão horrendo e estapafúrdio que é. Eis um disco que agradeço aos céus não ter adquirido – peguei emprestado de um amigo, e o ouvi na íntegra uma única vez. As outras tentativas eu simplesmente abortava no meio do caminho, porque era simplesmente impossível continuar até o final com aquele suplício voluntário.

Enfim. Tudo isso para dizer que, hoje, minha fé no Metallica foi em parte resgatada. O motivo é o seguinte vídeo, ligado a um projeto de divulgação do novo disco da banda batizado simplesmente de “Mission: Metallica”:

Nem perca tempo assistindo a propagandinha insossa do tipo “vejam como essa banda é realmente demais e bla bla bla”: deixe carregar todo o vídeo e vá direto para os 2mins e 23segs. Vai ser possível ouvir cerca de 30 segundos do que deve sair em junho ou junho, com o novo trabalho da banda – e, meu amigo/a, deu para dar esperança, MUITA esperança. Não é como se Cliff Burton tivesse ressuscitado nem nada disso, mas é o Metallica mais fiel a seu próprio legado musical que eu ouço em muito tempo – provavelmente desde os dias do “black album” ou mesmo antes disso. Claro que são poucos segundos (exatos trinta, para ser preciso), que é fácil se deixar levar pelo entusiasmo numa hora dessas e tudo o mais, mas é a primeira vez em mais de uma década que me sinto levado a querer comprar um disco novo do Metallica – e acreditem, isso não é pouca coisa. E, embora eu saiba que os tempos mágicos da minha adolescência Metal não voltam mais, o moleque que ouvia aquela fita Sony já cheia de flutuações de som e pensava em como seria genial ser como aqueles caras de certo modo voltou a se manifestar hoje, mais de quinze anos depois. Sério, Metallica: não estraguem tudo desta vez, pelo amor de Deus!

Soneto em cinza-escuro

•Abril 24, 2008 • 4 Comentários

Sim, vocês têm razão. Era mesmo só o que faltava.

“Vou sair!”, pensou o homem, transtornado
Pela armadilha dos próprios pensamentos.
Deixou para trás então seus aposentos
Buscar a cor que lá havia se ausentado.

Entre os seus iguais andou, a passos lentos
E por mais que então tivesse procurado
Não achou um só olhar iluminado
Sinal que fosse do frescor de outros tempos.

Voltou ao lar como quem sofre um castigo.
Nem no leito pôde encontrar abrigo
Os olhos ainda em busca de uma imagem.

E sozinho, já a contemplar o escuro
Julgou até que via, em uma miragem
O resumo incolor de seu futuro.

Já que a Biblioteca da Fabico não se mexe…

•Abril 7, 2008 • 9 Comentários

Desculpem o sumiço. Não, não sofri nenhum acidente, não tirei férias numa ilha minúscula onde não tinha eletricidade, muito menos desisti do blog: simplesmente, não me ocorreu inspiração alguma para escrever. Continuo “desinspirado”, na verdade, mas ao menos agora achei um motivo para dar as caras por aqui - publiquei minha monografia online, coisa que estava procrastinando há tempos, e como alguns leitores manifestaram interesse em ler, lá vai.

O título do trabalho é “Vídeo na Internet: uma alternativa de distribuição para o cinema brasileiro?”. Basicamente, discuto as possibilidades oferecidas pela tecnologia virtual para disseminação de produções de caráter cinematográfico, usando como amostragem três sites que exibem curta-metragens brasileiros - Porta Curtas, Curta o Curta e YouTube. Descrevi a situação atual desse cenário, comparando depois os conteúdos dos sites para tentar achar tendências e pontos de ligação e/ou diferenciação. Foi trabalhoso, tive que fazer tudo mais rápido do que o previsto, mas acabou sendo divertido, e sinceramente acho que ficou legal. Quem quiser conferir, pode clicar aqui e boa sorte…

Agradeço a Elis por ter me dado a dica do Scribd, um serviço bem interessante de postagem de documentos online. Recomendo o uso, é gratuito, muito fácil de usar e funciona muito bem.

E nada menos que 23 pessoas já chegaram no meu trabalho, mesmo sem eu ter divulgado o link para ninguém até postar isso aqui. Ô interatividade…

Mais notícias em brevíssimo. Eu prometo. Não desistam de mim =P

“Sim, mãe, eu sei que tenho que arranjar um emprego de verdade” - ou “Scream for me, Porto Alegre!”

•Março 6, 2008 • 11 Comentários

Não vai ser um post muito elaborado, muito menos coerente. Vou apenas despejar algumas das minhas impressões sobre O SHOW - e se você não sabe qual seria O SHOW é porque das duas uma: ou você nunca falou comigo pessoalmente ou não faz a menor idéia do que seja Heavy Metal. E é assim, totalmente em chamas, que farei meu relato da noite mágica de 05 de março de 2008, um dia que pretendo comemorar todos os anos daqui por diante, com churrascos, cervejadas ou de qualquer outro jeito. O que não dá é para esquecer esse evento mágico, e na verdade devo dizer que eu não conseguiria nem se eu quisesse. Então, lá vai:

1) antes de tudo, meu protesto pela “organização” simplesmente ridícula do espetáculo de ontem. Banheiros químicos de difícil acesso, ausência de seguranças do lado de fora e filas largadas à mais absoluta lei do “seja o que Deus quiser”. O que vi de malandro chegando em cima da hora e querendo furar a fila foi uma coisa de louco - o que me levou a ameaçar fisicamente alguns moleques que insistiam em furar na minha frente, dizendo “se entrar na minha frente, vai apanhar, cago vocês a pau”. Um dos moleques quis protestar, dizendo “são meus amigos” e tal, mas eu estava irritado, tinha ficado horas de pé e mandei ele enfiar as amizades dele, bem, enfim. Mas deu certo, resolveram”dar um tempo” e furar fila em outra freguesia. De qualquer modo, abandono total por parte da “produtora” do evento - e que se multiplicou lá dentro, com um ginásio entupido de gente (o que gerou, claro, um clima tão agradável quanto pegar ônibus superlotado para uma excursão de verão pelo Saara) e postos médicos escondidos em dois corredores, de acesso quase impossível para quem passava mal na pista - e acreditem, MUITA GENTE passou mal no verdadeiro inferno que virou a pista no show do Iron Maiden. Vi moças desmaiando e tendo seus pedidos de ajuda desprezados pelos “seguranças”, numa atitude “vocês que se virem” digna de profunda revolta para qualquer um com mais de um neurônio em funcionamento. Em resumo, tá mais do que na hora desses INCOMPETENTES que brincam de organizar shows no RS se darem conta que público de Metal merece RESPEITO - afinal, PAGOU pelo produto e merece recebê-lo com o mínimo de condições. Depois, se morre alguém pisoteado ou sufocado lá dentro, vão dizer que são os “metaleiros” que são “agressivos demais”… OK, fim do desabafo, é que eu precisava mesmo dizer isso em algum lugar.

2) Lauren Harris, a filha do “hômi” e responsável pela abertura do show, não é tão escrotonamente ruim quanto estão dizendo por aí. Certo, é um sonzinho metido a rock, mas que na moral não passa de um pop levemente “barulhento” - mas ela fez tudo certinho: tocou poucas músicas, sem dar intervalo para as vaias e gritos de “Maiden, Maiden”, e até se enrolou na bandeira do Rio Grande do Sul para tentar agradar a galera. E, putz, ela abriu o set com “Natural Thing”, do UFO! Tá, eu sei que ninguém lembra da banda e/ou da música, mas vocês todos deveriam se envergonhar disso - é um clássico do Rock setentista, e o fato de que apenas eu e dois amigos devemos ter reconhecido o som no ginásio inteiro é prova concreta de que esse mundo dos mp3 não está necessariamente somando conhecimento musical na cabeça da garotada. Enfim, não foi um showzaço, mas eu achei uma abertura decente, até dei uma aplaudida no final. Só uma coisa: para gostosa a tal Lauren não serve - eu diria que as minhas amigas são muito mais bonitas (ahn, ahn, ahn?) ;D

3) Tomei um copinho de água no meio do calor escaldante da pista, logo antes do show de abertura. Estava até levemente gelado, acreditem. Foi o copo de água mais delicioso e intensamente saboreado da minha vida. Com toda a certeza.

4) Quando “Doctor, Doctor” começou a rolar no sistema de som, entrei em parafuso. Quando “Churchill Speech” rolou, atingi estado alfa. E quando finalmente começaram a tocar “Aces High”, com Steve Harris agitando a menos de cinco metros de mim, eu não sabia se agitava junto ou se ficava contemplando aquele momento histórico. Uma série de idéias malucas me passou pela cabeça, coisas tipo: “Cara, o Dave Murray tem mesmo cara de Trakinas”, “Aquele é o Steve Harris? Ele existe mesmo?” e “tenho que conseguir o áudio desse show depois, é questão de honra”. Tudo isso, claro, enquanto tentava sobreviver ao inferno do empurra-empurra e esbravejar a letra da música, tudo ao mesmo tempo. Depois eu recuei um pouco, fiquei mais para a metade-para-trás da pista, e devo dizer que foi uma decisão acertada, pois pude assistir tudo perfeitamente, sem maiores apertos. Mas esse show sem um momento de guerra como esse seria incompleto, então devo dizer que até disso eu gostei bastante. E ver Steve Harris apontando o baixo como se fosse para mim, a uma distância muito pequena em termos cósmicos, é algo que não tem preço. Mesmo.

5) Quase chorei como um moleque em “Wasted Years”. Depois de ontem, não tenho dúvidas de que é minha música favorita do Iron Maiden, e que está no “top 5″ de todos os tempos. E a introdução foi engraçadíssima, com Bruce catando um celular que tinham jogado no palco e fingindo telefonar para a mãe: “Alô, Mãe? Não, não estou em casa, estou tocando ao vivo para 15 mil pessoas. Sim, mãe, eu sei que tenho que arranjar um emprego de verdade… Te ligo ano que vem, certo?”. Extremamente cômico, e só poderia vir mesmo de um frontman carismático como Bruce Dickinson. Que aliás cometeu outra boa tirada em “Hallowed Be Thy Name”: alguém jogou uma camiseta do inter no palco, e acertou em cheio no baixo de Steve Harris, atrapalhando a introdução da música - coisa de colorado, só podia ser. Bruce, aproveitando o intervalo da música, soltou “Oooops. Belo tiro”, e cortou de vez qualquer clima ruim que o gesto impensado pudesse provocar. Gênio.

6) “Rime of the Ancient Mariner” foi outro momento sensacional, com o palco decorado como um navio abandonado e com uma linda participação do público durante o interlúdio da longa canção - para os que nada manjam de Iron Maiden, ela tem mais de 13 minutos de duração. As luzes se apagaram quase que por completo, e uma série de isqueiros e celulares se acenderam para iluminar a escuridão - a sensação, conjugada com o som atmosférico da música em si e com a decoração mórbida do palco, era não menos do que indescritível. Nem precisa gostar de Heavy Metal para se emocionar com essas coisas - basta ser uma criatura pensante. E tenho dito.

7) Não vou ficar aqui listando o que senti em cada som, ou descrevendo detalhes de cada uma das músicas, pois isso seria uma tarefa quase impossível. De qualquer maneira, concordo com a opinião expressa pelo meu amigo Vicente Fonseca em sua análise do show: a partir daqui, tudo o mais que o Heavy Metal me proporcionar é lucro. O que tinha para ser visto, de certo modo, eu já vi; o que um show de Heavy Metal poderia me emocionar, esse já emocionou. Carrego na retina e no coração a prova de que a música pode sim ser redentora, e levar as pessoas a um nível de integração consigo mesmas e com o mundo que poucas outras manifestações humanas são capazes de alcançar. Saí do Gigantinho com um sorriso meio idiota no rosto, realizado, eufórico, pouco me lixando para as queimaduras de sol, para a desidratação, as costas doloridas, os músculos retesados, a fome monstruosa e tudo o mais. Saí de lá não apenas um homem mais feliz: saí de lá um homem melhor do que eu era quando entrei. Sim, pois parte das minhas ambições na vida foram realizadas, da melhor maneira possível; me sinto mais leve, com a sensação de quem vê o sol que brilha depois de uma longa tempestade. Os sentimentos que vinham tomando conta de mim nos últimos meses encontraram seu reflexo final no show que assisti ontem à noite - e sim, admito que isso pode soar meio ridículo, mas sinceramente não dou a mínima para isso. Que venha o resto do Heavy Metal, e que venha o resto da minha vida: estou pronto para ambos.

8) Gran finale: depois do show, arrastei-me até uma lancheria e tomei uma latinha de Coca Cola, estupidamente gelada. Foi a melhor e mais deliciosa Coca Cola que tomei em toda a minha vida. Com toda a certeza.

UP THE IRONS! \m/

Pois é, gurizada…

•Março 3, 2008 • 7 Comentários

…Agora sou definitivamente bacharel em jornalismo. Mais de uma semana se passou desde o evento fatídico, período que para mim foi necessário no sentido de digerir tudo o que aconteceu e tentar achar o significado da coisa na minha vida presente e futura. Nem tinha certeza se eu ia de fato escrever algo a respeito do acontecido por aqui, mas algumas pessoas me cobraram, então vou deixar alguma satisfação para vocês a esse respeito.

A cerimônia em si deu muito certo. Conseguimos manter o protocolo, a maioria dos agradecimentos foi dentro da idéia de tempo e não tivemos maiores presepadas desta vez. Eu até que estava bem tranqüilo; cheguei na hora do agradecimento sem um texto pronto, e apesar de um certo excesso nos elementos viciosos de linguagem (minha mãe disse que falei “né” umas quinze vezes) acho que deu tudo certo. A hora do discurso de orador foi mais complicada - quando comecei a falar, senti o peso da responsabilidade, e tive uma recaída no meu péssimo hábito de falar rápido quando estou nervoso e com pressa de me livrar de uma situação. Fiquei o tempo todo me segurando, tentando diminuir o ritmo - não sei se deu muito certo, mas juro que me esforcei. No fim, as pessoas gostaram do meu discurso, elogiaram e tal, então acho que foi tudo bem. No mais foi ver os amigos/as agradecendo e os discursos dos demais oradores, da paraninfo e do diretor - realmente não tem nada de muito complicado, então não sintam medo se isso ainda está para acontecer com vocês. A decoração estava bem legal, o vídeo de homenagem aos pais estava muito bonito e mais uma vez devo agradecer de público a nossa dupla dinâmica da formatura (Marcela e Luciana) pelo excelente trabalho que fizeram. A recepção foi bem divertida, ganhei presentes legais e enchi o bucho com renovada satisfação - e o baile começou meio fraco, mas depois melhorou imensamente, graças a uma boa banda, um bom repertório de clássicos dos anos 50 e 60 e, evidentemente, à ótima companhia generalizada. Saí de casa às 15h30 e voltei às 4h30, feliz da vida e muito mais aliviado.

E essa, devo admitir, é a palavra de ordem nesse momento: alívio. Não que a faculdade de Jornalismo tivesse se tornado um tormento, ou que eu não estivesse aguentando mais a rotina universitária - muito pelo contrário, até porque por enquanto vou continuar como funcionário do estúdio de TV da faculdade e a minha vida seguirá sendo regrada pelo calendário acadêmico da UFRGS. Mas todas as coisas, por melhores que sejam, tem que chegar a um fim - e no caso da graduação, devo dizer que já tinha passado da hora do galo cantar e da moleza acabar. Em mais de um sentido - mas não em todos, claro - a Fabico já tinha dado o que tinha que dar, e estender desnecessariamente essa convivência poderia até estragar as boas memórias dos cinco anos e meio de curso de Jornalismo. Acabou, e embora eu saiba que perco algumas coisas com isso, não tenho dúvida de que as mais importantes se mantêm, e que tenho ainda mais coisas a ganhar.

Na verdade, eu já tinha dado meu adeus simbólico à Fabico quando da entrega definitiva da monografia, e acho que maiores elucubrações filosóficas só repetiriam o que pode ser lido aqui, de modo que não vou ficar me estendendo nisso. O que me resta, agora, é olhar para o futuro - e me alegra dizer que me sinto renovado, leve, pronto para o que está por vir. Estou com uma forte disposição para mudanças, e pretendo ir atrás de algumas delas muito em breve. Seja lá o que tem que ser da minha vida, ainda está em tempo, então vamos lá. Sei que estou soando vago, mas eu mesmo não tenho certeza de nada - talvez, num futuro não muito distante, eu consiga dar concretude a toda essa montanha de idéias na minha cabeça, e vocês poderão provavelmente acompanhar parte disso por aqui. Se possível com uma freqüência maior do que tem ocorrido, mas enfim.

De qualquer modo, vai ser divertido. Disso tenho certeza.

EM TEMPO (1): em breve, colocarei meu trabalho de conclusão de curso online, para quem quiser ler. Aguardem.

EM TEMPO (2): Volto em poucos dias, com minhas impressões do show mais importante da minha vida - isso, claro, se eu sobreviver. Fiquem numa boa, e até lá.

Do prazer de alimentar pombas em um fim de tarde de fevereiro

•Fevereiro 13, 2008 • 9 Comentários

Era um pouco além das dezenove horas, e eu tinha acabado de sair do trabalho no estúdio. Antes de poder voltar ao aconchegante refúgio do lar, tinha que pegar os convites da formatura na casa de uma das meninas da comissão, e o horário marcado para isso era às 20h. Como do meu trabalho até a casa da moça levaria cerca de vinte minutos de caminhada, teria ainda cerca de meia hora livre, período que eu simplesmente não sabia direito como preencher. Não comia nada desde o almoço, de modo que comer alguma coisa pareceu boa alternativa de distração naquele momento. Resultado: passei no mercadinho do Alemão, comprei um pacote de Ruffles churrasco e uma latinha da Coca Cola e fui caminhando até uma praça ali perto, para sentar um pouco e saborear a minha tão saudável e revigorante refeição.

Encontrei um banco vazio, do qual podia ver algumas crianças sorridentes aproveitando o ainda-sol de início de fevereiro, e ali me sentei, muito contente, para fazer a minha boquinha. Enquanto começava a comer, fiquei pensando na formatura, no fim das férias, no cada vez mais próximo show do Iron Maiden, na moça bonita que acabava de sair do supermercado ao lado com algumas sacolas de compras - ou seja, uma série de pensamentos livres e meio incoerentes que fluem com mais facilidade em um banco de praça, no fim de uma tarde de verão. Foi quando vi a pomba solitária, olhando diretamente para mim, e o meu devaneio se perdeu.

Era uma pomba escura, meio gorda, que caminhava preguiçosamente a pouco mais de um metro dos meus pés. Me encarava como as pombas encaram as coisas, com a cabeça meio de lado, como quem empresta o ouvido a um cochicho - e tinha um ar entre solene e suplicante, de quem quer ganhar algo mas se sente meio sem graça para pedir. Entendi imediatamente o que queria o bicho, e fiquei matutando a respeito. Sei que muitos encaram as pombas como animais nojentos, praticamente ratos de esgoto com penas, mas não costumo ver os bichos com tanta severidade: a seu modo, eles se adaptaram à metrópole até melhor do que nós, humanos, de modo que merecem o meu respeito. E,  por respeito à ordem dos columbiformes, joguei um pequeno pedaço de Ruffles na direção do bicho que viera tentar a sorte aos meus pés.

A pomba revoou de leve, para logo dirigir-se ao local onde caíra o alimento e engolir o Ruffles alegremente, em um ou dois movimentos de pescoço e bico. Satisfeita com o próprio sucesso, ficou por ali, e sua presença imperturbável me constrangeu a jogar outro pedaço. Comeu mais uma ou duas vezes com alegria, até que outra pomba veio de algum lugar e se juntou à primeira em sua pose de orgulhosa pedinte. Como já tivesse comido quase todo o pacote e não tivesse mais fome, joguei outros pequenos pedaços aos bichos - só para que outros viessem, sem nenhum constrangimento, aproveitarem eles também aquela boca-livre. Foi um crescimento rápido - e quando percebi, já deviam ser pelo menos dez pombas, empolgadas, brigando aos meus pés por saborosos nacos de Ruffles sabor churrasco. Comecei a rir daquela cena meio ridícula, e agora posso dizer que sei com certeza como se sentem os velhinhos que alimentam as pombas nas praças centrais das grandes e pequenas cidades. Olhei para o espaço vazio ao meu lado, ainda rindo, e lamentei que não tivesse ninguém ali para rir junto comigo daqueles pássaros sacanas e esfomeados.

Finalmente, o salgadinho acabou. Dirigi a palavra aos meus novos e emplumados amigos, avisando que não tinha mais e que eles podiam ir embora. Demoraram a acreditar em mim, na verdade: continuaram por perto, rondando, e um deles chegou quase a pousar em cima do meu pé, tão ousado foi na busca de algum farelo perdido no meio da areia e das pedrinhas. Tomei os últimos goles de refrigerante, e vi as pombas - já aparentemente convencidas de que daquele barbudo vestido de preto nada mais sairia - alçarem vôo, pousando agrupadas nas grades externas de um edifício próximo.

Olhei para o relógio do celular: 19h39. Hora de ir. Limpei os farelos da roupa, derrubando inclusive alguns deles no canto vazio do banco, e já me preparava para levantar do banco e ir embora de vez quando vi, à minha direita, a pomba. Acredito que fosse a mesma que tinha me abordado da primeira vez: caminhava na minha direção de modo falsamente despreocupado, disfarçando os olhares que dirigia a mim enquanto avançava. Pelo visto, Ruffles churrasco não era exatamente um sabor comum na vida dela. Avançava sozinha em minha direção, nossos olhares fixos um no outro como duelistas de algum faroeste de quinta categoria.

Desviei o olhar primeiro, admito. Dos farelos que haviam ficado sobre o banco, ao meu lado, escolhi o maior e mais apetitoso de todos. A pomba, ainda sozinha, parou e ficou em expectativa. Disse a ela: “não avise ninguém, esse é só seu”. A pomba assentiu, cúmplice. E então joguei um último pedaço de Ruffles para ela.