Não vai ser um post muito elaborado, muito menos coerente. Vou apenas despejar algumas das minhas impressões sobre O SHOW - e se você não sabe qual seria O SHOW é porque das duas uma: ou você nunca falou comigo pessoalmente ou não faz a menor idéia do que seja Heavy Metal. E é assim, totalmente em chamas, que farei meu relato da noite mágica de 05 de março de 2008, um dia que pretendo comemorar todos os anos daqui por diante, com churrascos, cervejadas ou de qualquer outro jeito. O que não dá é para esquecer esse evento mágico, e na verdade devo dizer que eu não conseguiria nem se eu quisesse. Então, lá vai:
1) antes de tudo, meu protesto pela “organização” simplesmente ridícula do espetáculo de ontem. Banheiros químicos de difícil acesso, ausência de seguranças do lado de fora e filas largadas à mais absoluta lei do “seja o que Deus quiser”. O que vi de malandro chegando em cima da hora e querendo furar a fila foi uma coisa de louco - o que me levou a ameaçar fisicamente alguns moleques que insistiam em furar na minha frente, dizendo “se entrar na minha frente, vai apanhar, cago vocês a pau”. Um dos moleques quis protestar, dizendo “são meus amigos” e tal, mas eu estava irritado, tinha ficado horas de pé e mandei ele enfiar as amizades dele, bem, enfim. Mas deu certo, resolveram”dar um tempo” e furar fila em outra freguesia. De qualquer modo, abandono total por parte da “produtora” do evento - e que se multiplicou lá dentro, com um ginásio entupido de gente (o que gerou, claro, um clima tão agradável quanto pegar ônibus superlotado para uma excursão de verão pelo Saara) e postos médicos escondidos em dois corredores, de acesso quase impossível para quem passava mal na pista - e acreditem, MUITA GENTE passou mal no verdadeiro inferno que virou a pista no show do Iron Maiden. Vi moças desmaiando e tendo seus pedidos de ajuda desprezados pelos “seguranças”, numa atitude “vocês que se virem” digna de profunda revolta para qualquer um com mais de um neurônio em funcionamento. Em resumo, tá mais do que na hora desses INCOMPETENTES que brincam de organizar shows no RS se darem conta que público de Metal merece RESPEITO - afinal, PAGOU pelo produto e merece recebê-lo com o mínimo de condições. Depois, se morre alguém pisoteado ou sufocado lá dentro, vão dizer que são os “metaleiros” que são “agressivos demais”… OK, fim do desabafo, é que eu precisava mesmo dizer isso em algum lugar.
2) Lauren Harris, a filha do “hômi” e responsável pela abertura do show, não é tão escrotonamente ruim quanto estão dizendo por aí. Certo, é um sonzinho metido a rock, mas que na moral não passa de um pop levemente “barulhento” - mas ela fez tudo certinho: tocou poucas músicas, sem dar intervalo para as vaias e gritos de “Maiden, Maiden”, e até se enrolou na bandeira do Rio Grande do Sul para tentar agradar a galera. E, putz, ela abriu o set com “Natural Thing”, do UFO! Tá, eu sei que ninguém lembra da banda e/ou da música, mas vocês todos deveriam se envergonhar disso - é um clássico do Rock setentista, e o fato de que apenas eu e dois amigos devemos ter reconhecido o som no ginásio inteiro é prova concreta de que esse mundo dos mp3 não está necessariamente somando conhecimento musical na cabeça da garotada. Enfim, não foi um showzaço, mas eu achei uma abertura decente, até dei uma aplaudida no final. Só uma coisa: para gostosa a tal Lauren não serve - eu diria que as minhas amigas são muito mais bonitas (ahn, ahn, ahn?) ;D
3) Tomei um copinho de água no meio do calor escaldante da pista, logo antes do show de abertura. Estava até levemente gelado, acreditem. Foi o copo de água mais delicioso e intensamente saboreado da minha vida. Com toda a certeza.
4) Quando “Doctor, Doctor” começou a rolar no sistema de som, entrei em parafuso. Quando “Churchill Speech” rolou, atingi estado alfa. E quando finalmente começaram a tocar “Aces High”, com Steve Harris agitando a menos de cinco metros de mim, eu não sabia se agitava junto ou se ficava contemplando aquele momento histórico. Uma série de idéias malucas me passou pela cabeça, coisas tipo: “Cara, o Dave Murray tem mesmo cara de Trakinas”, “Aquele é o Steve Harris? Ele existe mesmo?” e “tenho que conseguir o áudio desse show depois, é questão de honra”. Tudo isso, claro, enquanto tentava sobreviver ao inferno do empurra-empurra e esbravejar a letra da música, tudo ao mesmo tempo. Depois eu recuei um pouco, fiquei mais para a metade-para-trás da pista, e devo dizer que foi uma decisão acertada, pois pude assistir tudo perfeitamente, sem maiores apertos. Mas esse show sem um momento de guerra como esse seria incompleto, então devo dizer que até disso eu gostei bastante. E ver Steve Harris apontando o baixo como se fosse para mim, a uma distância muito pequena em termos cósmicos, é algo que não tem preço. Mesmo.
5) Quase chorei como um moleque em “Wasted Years”. Depois de ontem, não tenho dúvidas de que é minha música favorita do Iron Maiden, e que está no “top 5″ de todos os tempos. E a introdução foi engraçadíssima, com Bruce catando um celular que tinham jogado no palco e fingindo telefonar para a mãe: “Alô, Mãe? Não, não estou em casa, estou tocando ao vivo para 15 mil pessoas. Sim, mãe, eu sei que tenho que arranjar um emprego de verdade… Te ligo ano que vem, certo?”. Extremamente cômico, e só poderia vir mesmo de um frontman carismático como Bruce Dickinson. Que aliás cometeu outra boa tirada em “Hallowed Be Thy Name”: alguém jogou uma camiseta do inter no palco, e acertou em cheio no baixo de Steve Harris, atrapalhando a introdução da música - coisa de colorado, só podia ser. Bruce, aproveitando o intervalo da música, soltou “Oooops. Belo tiro”, e cortou de vez qualquer clima ruim que o gesto impensado pudesse provocar. Gênio.
6) “Rime of the Ancient Mariner” foi outro momento sensacional, com o palco decorado como um navio abandonado e com uma linda participação do público durante o interlúdio da longa canção - para os que nada manjam de Iron Maiden, ela tem mais de 13 minutos de duração. As luzes se apagaram quase que por completo, e uma série de isqueiros e celulares se acenderam para iluminar a escuridão - a sensação, conjugada com o som atmosférico da música em si e com a decoração mórbida do palco, era não menos do que indescritível. Nem precisa gostar de Heavy Metal para se emocionar com essas coisas - basta ser uma criatura pensante. E tenho dito.
7) Não vou ficar aqui listando o que senti em cada som, ou descrevendo detalhes de cada uma das músicas, pois isso seria uma tarefa quase impossível. De qualquer maneira, concordo com a opinião expressa pelo meu amigo Vicente Fonseca em sua análise do show: a partir daqui, tudo o mais que o Heavy Metal me proporcionar é lucro. O que tinha para ser visto, de certo modo, eu já vi; o que um show de Heavy Metal poderia me emocionar, esse já emocionou. Carrego na retina e no coração a prova de que a música pode sim ser redentora, e levar as pessoas a um nível de integração consigo mesmas e com o mundo que poucas outras manifestações humanas são capazes de alcançar. Saí do Gigantinho com um sorriso meio idiota no rosto, realizado, eufórico, pouco me lixando para as queimaduras de sol, para a desidratação, as costas doloridas, os músculos retesados, a fome monstruosa e tudo o mais. Saí de lá não apenas um homem mais feliz: saí de lá um homem melhor do que eu era quando entrei. Sim, pois parte das minhas ambições na vida foram realizadas, da melhor maneira possível; me sinto mais leve, com a sensação de quem vê o sol que brilha depois de uma longa tempestade. Os sentimentos que vinham tomando conta de mim nos últimos meses encontraram seu reflexo final no show que assisti ontem à noite - e sim, admito que isso pode soar meio ridículo, mas sinceramente não dou a mínima para isso. Que venha o resto do Heavy Metal, e que venha o resto da minha vida: estou pronto para ambos.
8) Gran finale: depois do show, arrastei-me até uma lancheria e tomei uma latinha de Coca Cola, estupidamente gelada. Foi a melhor e mais deliciosa Coca Cola que tomei em toda a minha vida. Com toda a certeza.
UP THE IRONS! \m/