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Estou meio irritadiço e de saco cheio. Acabaram com meu 2009 antes da hora – há pelo menos duas semanas tem árvore de natal na rua, o que para mim é um desaforo – e com isso anteciparam minhas reflexões de fim de ano, justo num momento em que eu já tenho reflexões mais do que suficientes para ocupar a minha pobre cachola. Como eu ando tentando muitas coisas, e a maior parte delas não dá certo, resolvi exorcizar pelo menos algumas delas por meios pseudo-artísticos, que daí eu posso concentrar meu pensamento positivo no que de fato adianta alguma coisa nesse momento ou-vai-ou-racha-já-quase-rachando da minha vida. Esse é apenas um pequeno trecho de uma longa letra que escrevi hoje, e que vou dar uma arrumadinha antes de considerá-la pronta. Fica aí para fazer aquela encheção de linguiça, enquanto um post mais significativo não vem.

Did this new man that stands ever thought beforehand
That the death of his old self was meant all along?
All the tears and the fear, rearranged to appear
Like the verses of a brand new song?
Will this knowledge you own stay with you when you’re gone?
Or will it fade like a faith in a godless bliss?
Can this long lost embrace
Leave a smooth aftertaste
Just as sweet as a last goodbye’s kiss?

Ok, ok, sei que isso aqui anda literário-inconsequente demais – vou tentar maneirar daqui por diante. Por enquanto, lá vai:

Era uma vez um rapaz que resolveu sair para tomar chuva. E fazia tempo que não chovia naquele mundo, para falar a verdade. Os escritores por aí gostam de falar de raios trovões que bagunçam e chovem todos os dias, mas às vezes se esquecem, por desatenção ou por desinteresse lírico, de falar dos trovões que nunca soam, das chuvas fugidias que nunca caem e acabam não bagunçando coisa nenhuma. Eis como era a situação do tempo no mundo do rapaz em questão – sol entre nuvens, um dia mais úmido ali, uma semana de ar seco ali, mas chuva mesmo não caia nunca.

Até que apareceu uma grande nuvem cinzenta no céu daquele mundo, e o rapaz animou-se bastante com aquilo. Era uma nuvem vendaval céu preto trovoada que prometia uma chuva daquelas, o que era uma tremenda novidade e deixou o rapaz imediatamente atento e com os olhos e ouvidos bem abertos. Estava longe ainda, não dava para ter certeza de quão grande era a nuvem e de quanta chuva trazia dentro de si – e, como a coisa toda estava demorando bastante para se aproximar, o que era animação foi virando ansiedade e o rapaz começou a ficar preocupado. Era só o que faltava, depois de tanta espera e tanta promessa, o trovão virar estalinho e a chuva virar vento molhado. Uma brisa gostosa vinha da direção na qual a nuvem surgia, trazendo um frescor agradável e um cheiro bom de terra molhada. O rapaz gostava daquilo, mas não achava que fosse o suficiente, e começou a caminhar na direção da nuvem, com uma ideia absurda na cabeça de que, se chegasse mais perto, a espera ia diminuir e ia ter mais chuva na qual se molhar.

Ficou andando o rapaz por um tempinho, mas a nuvem não parecia estar mais perto – na verdade, ela parecia estar se distanciando, como se um vento inoportuno surgisse sabe-se lá de onde para levá-la embora e fazê-la chover em outra freguesia. Começou a andar mais rápido, quase correr, mas não dava jeito de conseguir se aproximar da nuvem vento contrário relâmpago surdo não posso chover aqui desculpe até outro dia. Foi atrás dela por um bom tempo ainda, cada vez menos esperançoso, até que parou, frustrado e cansado, fechando os olhos enquanto tentava recuperar o fôlego.

De repente, assim mesmo sem aviso e sem sentido, começou a chover. Uma chuvinha bem leve de início, uma chuvinha ventinho frio barulho na janela carícia no rosto que pegou o rapaz de olhos fechados totalmente desprevenido, tanto que ele levou um tempo até perceber que de alguma maneira ele tinha alcançado a nuvem ou a nuvem tinha ido em direção a ele ou ambos ou nem um nem outro enfim não faz diferença. Abriu os olhos, viu encantado a chuva fraca caindo, sorriu com a timidez de quem nem lembrava que uma chuva de vez em quando podia ser tão agradável e bem-vinda. E ficou na chuva, e deixou que a chuva chovesse.

E então, tão de repente quanto tinha chegado, a chuva fraca dobrou-se num barulho de trovão e virou um temporal daqueles de meter medo. Uma chuvarada barulhão luz de relâmpago guarda chuva quebrado rua alagada engarrafamento que surpreendeu muito o rapaz, ao mesmo tempo que o deixou extasiado. Mal acostumado que estava, achava ele que qualquer garoa de quinta-feira à tarde era digna de ser chamada de chuva, de modo que nunca tinha imaginado que uma chuva pudesse ser tão forte, tão bonita e tão poderosa. Ficou totalmente encharcado em questão de instantes, e achou aquilo simplesmente sensacional, fechando de novo os olhos para saborear a sensação.

Pena, para o rapaz, que o temporal foi rápido – e parou tão de repente que, não estivesse o rapaz ensopado da cabeça aos pés, poderia até pensar que nunca tinha chovido. A chuva sumiu num vento gelado calçada molhada passarinho cantando chovi demais nem devia ter chovido chega de chuva adeus boa sorte, e veio um sol forte, um sol de protetor solar fator 50 para cima, um sol daqueles que parece dizer já era, rapaz, aqui não vai chover é nunca mais se depender de mim. Aceitou bem até o rapaz aquele final abrupto; afinal, uma chuva bonita e forte como aquela não podia mesmo ser normal. Ficou triste, mas ao mesmo tempo satisfeito de ter saído para tomar chuva, e resolveu ficar um tempo no sol, para ver se ficava seco e podia então voltar para casa.

Mas, e isso era uma coisa engraçada, ele nunca ficava plenamente seco. Por mais tempo que passasse, sempre parecia que tinha uma dobra da camisa, um espaço entre a meia e o tênis, algum lugar que continua molhado com as águas daquele temporal cada vez mais distante na memória. E dependendo de como o rapaz se mexesse, dependendo de como movesse a cabeça ou balançasse os braços ou olhasse para o horizonte, a descoberta de uma nova região úmida causava um calafrio dolorido, uma sensação debaixo da pele que era fria e quente ao mesmo tempo, uma espécie de dor que não doía mas que mesmo assim dava vontade de chorar.

Ficou um tempo bem grande ali, esperando que algo acontecesse, embora não soubesse àquela altura o que estava esperando no fim das contas. Então decidiu ir embora. Olhou rapidamente para o sol, que continuava ardendo como se fosse o único e eterno dono do céu, e começou a caminhar de volta para o mundo de sol entre nuvens do qual tinha saído. E foi com um susto e com uma correria no coração que viu o fiapo de nuvem cinza, bem longe na fronteira do céu com a terra, tão distante que um pouco mais de desatenção e o rapaz nunca teria reparado. Era parecida com a nuvem que tinha visto antes, a que tinha chovido tão bonito e o deixado todo molhado, mas podia muito bem ser uma nuvem diferente, de uma outra qualidade de chuva: estava muito longe, e ele não conseguia ter certeza. Ficou olhando, e começou a lembrar do vento gostoso, do cheiro de terra molhada e de tudo que tinha vindo depois daquilo.

Ficou na dúvida: ia até lá, ou ficava esperando? Tinha sido uma linda chuva, mas a sensação de estar todo molhado no meio do sol tinha sido muito ruim, e ele ainda lembrava, e ele tinha medo de sentir aquilo de novo. De mais a mais, estava tão longe… Hesitou um tempo, mas na verdade a hesitação era apenas da sua mente: seus pés já estavam andando na direção da tempestade.

Era uma vez um Homem que, de uma hora para a outra, percebeu-se sem Perspectivas. Foi uma consciência muito repentina, e tão inesperada que pegou o Homem completamente de surpresa. Naquele instante inicial, sua reação foi de choque, quase de terror; sentiu-se indefeso, exposto ao ridículo como alguém que sonha estar nu em um escritório ou em sala de aula. Tratou de esconder sua falta de Perspectivas como pôde, disfarçando-a com sorrisos e frases de efeito, enquanto procurava um lugar no qual pudesse ficar sozinho e contemplar essa estranha e inesperada ausência.

Por mais que tentasse, foi incapaz o Homem de lembrar exatamente quando e como, no fim das contas, havia perdido suas Perspectivas. Teria ele, talvez, as esquecido dentro do ônibus, enquanto ia ou voltava do trabalho? Deixado alguma moça bela e perigosa levá-las consigo, entre beijos em uma pista de dança ou entre lençóis de uma cama de motel? Teria o Homem vendido suas Perspectivas em troca de uma casa bonita, um carro novo, um pouco de conforto, fins de semana livres, uma noite de sono? Ou talvez suas Perspectivas teriam simplesmente ido embora, cansadas de não servirem para nada, chateadas com a omissão do Homem, com sua falta de interesse e consideração? Essa última ideia, em especial, enchia o Homem de medo; pois se suas Perspectivas tinham o abandonado por vontade própria, de nada adiantaria procurá-las, pois elas se recusariam a voltar. Terrível, aquela sensação. De qualquer modo, não sabia o Homem como havia se dado a perda de suas Perspectivas, e por dias e dias ficou a remoer essa ausência, tentando entender onde havia errado, buscando de novo e de novo respostas para uma pergunta que sequer era capaz de formular com clareza.

Depois de algum tempo, conformou-se o Homem a não ter mais Perspectivas, e voltou aos poucos ao convívio dos seus, tentando ao máximo portar-se como antes, ver as coisas como antes, agir como se nada tivesse se perdido pelo caminho. Mas era difícil: uma vez percebendo que não tinha Perspectivas consigo, ficava o Homem incapaz de agir como antes, quando as tinha por perto ainda que não as notasse. Além disso, a convivência com as pessoas, antes tão agradável, tornava-se para ele amarga, cinzenta, quase uma tortura dependendo do dia e da situação. Via pessoas cercadas de Perspectivas que as ignoravam quase completamente, outras inclusive já sem nenhuma Perspectiva a seu lado, e vê-las totalmente alheias provocava no Homem calafrios de ódio. Por que, em nome de Deus, não conseguia o Homem ser como aquelas pessoas, ignorar totalmente o fato de não mais ter Perspectivas, viver dias sem significado com a alegria dos que simplesmente não se importam? E os que tinham Perspectivas, e as cultivavam, esses enchiam o Homem de um desconsolo que beirava a depressão. Pois aqueles Homens e Mulheres lembravam a ele que talvez tivesse perdido as suas Perspectivas para sempre, algo que sentia ter sido valioso e agora temia nunca mais poder recuperar. Aquelas pessoas, que andavam felizes ao lado de suas Perspectivas, tinham sido mais sábias e atentas do que ele próprio, e ao Homem pesava como chumbo a dor dessa constatação.

O outono virou inverno, o inverno reacendeu-se na primavera, a primavera ardeu em chamas no verão – mas para o Homem sem Perspectivas tudo era a mesma coisa, todos os dias eram cinzentos, todas as horas arrastavam-se dolorosamente rumo a um futuro que nada mais era do que uma extensão insossa do presente. Convencido pela próprio tristeza de que jamais reencontraria suas Perspectivas, entregava-se o Homem a uma Vida sem viver, a uma espera amarga pelo último suspiro, torcendo talvez para que a névoa dos dias nublasse sua consciência e o fizesse esquecer, enfim, que um dia Perspectivas haviam estado presentes em sua existência. Esqueceu muitas coisas, nesses dias que passaram sem que ninguém os tivesse contado – mas foi incapaz o Homem de ignorar completamente aquele espaço vazio dentro de si, por mais que o tentasse preencher com o que quer que parecesse adequado no momento. Tentou anestesiá-lo com bebida, apagá-lo com distrações eletrônicas, esquecê-lo nos braços e carícias de mulheres sem nome. Tentou cansar-se, desgastar-se, exaurir a si mesmo até que nada restasse, até que pudesse apenas jogar-se na cama e dormir por um longo tempo, dormir uma vida inteira, acordar renovado e esquecido de tudo que não estava certo em si e no resto do mundo. Mas por maior que fosse o sono, sempre acabava despertando – e, por mais que dormisse, nunca havia sido o suficiente.

Até que um dia, andando silencioso por uma rua cheia de som e vazia de harmonias, o Homem sentiu algo diferente. Não soube precisar, naquele exato instante, o que o havia atingido – foi algo fugaz, uma lufada de vento, o suave toque de uma Mão que escondeu-se antes que ele pudesse vê-la ou agarrá-la. De onde teria vindo? Foi para o Homem um momento febril; era como algo novo e ainda assim conhecido, uma sensação de reencontro indefinida e que pressionava seu peito com tanta força que deixava-o quase sem ar. Olhou para os lados, para os rostos indiferentes ao seu redor, e entendeu que, fosse o que fosse aquela sensação, era apenas sua: ninguém mais a percebia e, portanto, só ele poderia decifrá-la. Fechou os olhos, atendendo a um conselho vindo de algum lugar geralmente silencioso dentro de si: cheirou o ar, ouviu os sons da tarde, sentiu o vento suave contra as partes descobertas de seu corpo.

Então, decidiu-se. Andou em passos rápidos, sem saber para onde, sem calcular, movido apenas pelo impulso e pela urgência. Atravessou a rua, dobrou a esquina, viu uma porta, entrou. Demorou alguns segundos para perceber onde estava; não era um lugar extraordinário à primeira vista, e por algum tempo não conseguiu notar nada de especial à sua volta. Então, em um súbito raio de consciência, a Mão o tocou uma vez mais; o Homem voltou-se rápido, e então ele viu. Teve medo, mas respirou fundo, sustentando o olhar, deixando até escapar algo próximo a um sorriso de satisfação. A Perspectiva diante de si, porém, não devolveu o sorriso. Sem grosseria, mas com firmeza, agarrou o Homem pelo braço e apenas disse: vamos lá, mexa-se, estamos perdendo tempo.

Escrevi ontem. Ela tem uma ideia de melodia, mas ainda pretendo mudar um pouco a letra. Aceito sugestões.

Is there hope beyond these grey fields,
Is there a smile behind this frown?
Let’s climb the walls and the garbage cans
Let’s paint some colors on this town
The poetry on abandoned buildings
Like rhymes waiting to be found
And this will be the music we will sing out loud

And the rain will fall upon us like a goodbye’s kiss
And the night surrounding us won’t seem so dark
And all the faces that we’ll see won’t be just faces anymore
Do you see it now?
Perhaps we have just found a way out

And we will shake hands with the beggars
Take the same bus to nowhere
The best of luck for you all who just won’t be there
And this will be our victory, my friends
No one will bother to fight us back
There will be at least one truth we won’t forget

There is hope beyond these grey fields
There’s a smile behind this frown
Let’s climb the walls and the garbage cans
Let’s paint some colors on this town
The poetry on abandoned buildings
Like rhymes waiting to be found
And this will be the music we will sing out loud
This will be the music we will sing out loud

Paulo LeminskiNo domingo, dei uma passada na exposição do Paulo Leminski no Itaú Cultural. Tinha outras coisas lá, claro, e o poeta nem era o motivo maior da nossa visita à princípio, mas enfim, no meio de tantas atrações culturais foi ele quem me venceu. Tinha tido um contato mais ou menos superficial com a obra dele até aquele momento, e foi muito interessante o modo como a exposição trabalhou visualmente os já bastante visuais poemas do Leminski. Para expor o trabalho de alguém tão criativo, o espaço precisa ser usado de forma inventiva, e isso com certeza foi muito bem explorado. E tem que considerar que os poemas do cara ajudam muito também, claro. Lendo aqueles poemas – e até comentei isso com a Clau em certo momento – me senti tão pouco criativo, meio cego de boas ideias, tão meia-boca… E ao mesmo tempo estimulado, algo do tipo foda-se se tu é meia-boca, Igor Natusch, vai lá e escreve, escreve muito, escreve sem parar, escreve um monte de merda que seja, escreve que alguma coisa minimamente decente há de sair. Acho que é isso que os bons poetas fazem com a gente: nos incomodam, mas é um incômodo positivo, um incômodo que aponta para a frente, e não para trás. Nesse sentido, Paulo Leminski é um ótimo poeta, sem a menor dúvida. E me anima saber que ainda existem 18 caixas cheias de material dele, muito poema esperando para ser lido, muita coisa para ser catalogada e revisada e publicada por muitos anos ainda. De certo modo, Paulo Leminski ainda não acabou – melhor para nós.

oiticicaO mesmo, de certo modo, não dá para dizer do legado do Hélio Oiticica, que no último dia 16 transformou-se quase todo em cinzas graças a um incêndio na casa de seu irmão, onde o material era mantido. Pelo que li, 90% das obras dele foram consumidas pelo fogo – e isso é algo que sinceramente me dá um aperto no peito. Imagine isso – a expressão artística de uma vida inteira, todo o esforço de uma pessoa no sentido de juntar suas alegrias e dores e frustrações e ambições e sonhos e tudo o mais e transcender essas coisas todas em forma de arte… E tudo isso sumindo, sendo devolvido para o universo em forma de fogo, cinzas e fumaça. Todo artista, mesmo o mais diletante, tem uma nem tão secreta pretensão à eternidade – e no caso do Oiticica, que era um tremendo artista, boa parte da sua potencial eternidade simplesmente não existe mais. Para nós, pobres humanos incapazes de lidar com a ideia de que nada realmente permanece no mundo, é um golpe duro em nossas ilusões. Além de, é claro, ser uma tristeza para a arte brasileira. Imagina se aquelas dezoito caixas cheias de Leminski somem no meio do fogo, e nunca ficamos sabendo do que perdemos? Imagina se existe, sei lá, um Dostoievski inédito criando traças em algum depósito russo, uma obra perfeita que nunca será lida, que mesmo tendo sido para ele terminará sendo consumida pelo não-ter-sido para os outros? Imaginar que a arte, esse subterfúgio que usamos ao mesmo tempo como fuga e justificativa para o absurdo da vida, é ela mesma frágil como todo o resto e pode sumir antes mesmo de chegar a nós? Inquietante, eu diria. Não é à toa que os antigos tinham tanto medo de que suas bibliotecas virassem carvão… Mas enfim, ao menos nos restam 10% nesse caso específico – melhor aproveitar o que sobrou do que chorar o que nos vai ficar faltando de qualquer jeito.

De qualquer modo, mesmo não tendo muito a ver com o assunto principal do post, o fato é que estou com um sorriso gravado na minha memória. Um sorriso meio tímido, inseguro, que talvez tivesse medo de ser mal recebido, sei lá. Um sorriso que demorou a sair, e quando surgiu foi bonito como todas as metáforas bobas e melosas que vocês possam imaginar. Um sorriso bonito, basicamente, porque era puro. Um sorriso de criança, mesmo que a criança em questão fosse de espírito, e não de corpo e de idade. Se eu fosse Leminski, faria um poema a respeito; se fosse Oiticica, uma escultura ou um parangolé. Como sou apenas um Igor Natusch, vou me contentar em registrá-lo aqui, torcendo para que um dia ele vire algo mais bonito e criativo do que um nota de rodapé em um post de blog. E, é claro, torcendo para um dia poder retribuí-lo com mais calma, com mais tempo. Sem medo, e sem pressa.

1) Cada vez mais eu vou percebendo que parte da libertação de cada um de nós, ou pelo menos de minha libertação pessoal, passa por abrir mão da pressa. Pressa de tudo: de chegar, de voltar para casa, de fazer coisas, de garantir que coisas sejam feitas, de agir, de pensar, de viver. Temos pressa porque queremos abraçar o mundo, otimizar tempo, sermos eficientes – e portanto estarmos acima dos que não são eficientes, ficarmos do lado de quem vence, os competentes, os “winners”. A pressa é uma característica dos que estão inseridos no mundo – e, envolto no olho do furacão, é impossível a visão distanciada, o tentar entender, o permitir-se ficar do lado de fora para observar e, quem sabe, apreciar. É por isso que fiz uma longa e nada apressada viagem de 18hrs, partindo de Porto Alegre rumo a São Paulo: porque não queria ter pressa de chegar. Queria voltar para a megalópole com o sentimento que carregava comigo das outras vezes: confiante, esperançoso, disposto a tentar o mais possível, mas sem ansiedade e sem correria. E devo dizer que deu certo, bastante certo até. É bom sermos preguiçosos, contemplativos e vagabundos, mesmo que apenas em certas situações específicas, mesmo que forçados a correr, mesmo que desacelerados apenas em pensamento e atitude diante do mundo. Porque, como diria algum filósofo de boteco por aí, não adianta escalar as montanhas bem rápido e não dar sequer uma olhadinha na paisagem.

2) Sabe quando alguma coisa provoca tanto desânimo que a gente simplesmente não consegue fazer coisa alguma a respeito? Pois é: os últimos acontecimentos envolvendo dona Yeda Crusius, mandatária do Estado do Rio Grande do Sul, me provocaram tanto desânimo que até estragou um pouco o humor tragicômico, que vinha sendo a tônica dos meus contatos com a cidadã e sua galerinha que apronta altas confusões às custas do meu amado Estado natal. Simplesmente não consegui escrever um post sobre a nossa querida abelha-rainha, por mais que tentasse. Assunto até tinha, e bastante. A entrevista concedida ao Rodaviva – pífia não só por culpa da entrevistada, mas também pelo desempenho fraquíssimo dos entrevistadores – a aprovação tumultuada e espetaculosa do parecer contrário ao impeachment da governadora, a desistência de ir aos EUA por medo de um “golpe” do vice Paulo Feijó… Recebi um dia desses, inclusive, um informativo do PSDB no qual nossa austera e equilibradíssima governadora tece uma série de “argumentos” que beiram a comédia em sua capacidade de contrariarem os mais básicos requisitos da lógica. Mas enfim, não escrevi sobre nada disso, e de certo modo não vou fazê-lo agora. Porque sinceramente, por mais bom humor e capacidade de rir do absurdo que a gente tenha, chega uma hora que cansa. Enche o saco ler em todos os lugares a Yeda dizendo que é vítima de uma “indústria do denuncismo” ou que o povo do Rio Grande do Sul “não merece” essa situação toda. Cansa perceber que ainda se insiste na distorção tosca e grosseira, que transforma fatos novos que reforçam graves acusações em meras “denúncias repetidas”. Dá uma canseira danada ver que a imprensa do RS, de modo geral, abre amplo espaço para que a ilustre governadora desfile essas bobagens, sem fazer a mais ínfima pressão no sentido de questionar, minimamente que seja, essas desculpas pouco sólidas e altamente questionáveis. É desgastante perceber que a imprensa do centro do país bate muito mais na Yeda do que a do Estado que ela governa – e cansa muito perceber que essa, digamos, boa vontade com a cidadã e com seu governo é assustadoramente não-jornalística, uma negação da função do Jornalismo em tudo que ele é e deve ser para merecer esse nome. Não é função dos veículos jornalísticos dar tapinha nas costas de quem quer que seja – e eu me sinto cansado, muito cansado de ver que é assim, que há tempos tem sido assim e que vai continuar sendo assim por muito tempo ainda. E o ar de intenso júbilo com que foi noticiada a aprovação do relatório contrário ao impeachment foi tão sem disfarce que, na boa, fiquei tão exausto que fui para a cama dormir, se é que entendem a tosca metáfora. Ou seja, sem mais análises de Yeda por enquanto, vamos deixar por isso mesmo.

3)  Esses dias eu vi um catador de papel brincando com dois cachorrinhos. Só isso: um catador de papel, jogado no chão, rolando na grama enquanto brincava com dois cachorros. Estava um tanto longe, não dava para ver a cena com maiores detalhes; deduzo que era um papeleiro porque um carrinho cheio de restos de lixo reciclável estava bem perto dele, e como ninguém o carregava acabei deduzindo que era dele. Não sei o que ele estava fazendo antes nem o que fez depois. Os animais eram pequenos, talvez fossem filhotes, e corriam em torno do homem em uma alegre algazarra de latidos e rabos que balançavam. O homem pegava um deles, levantava no ar, fazia menção de jogá-lo longe e então o largava com cuidado no chão, enquanto desviava-se do outro que tentava lamber sua cara ou algo assim. Vi isso por uns quinze, talvez vinte segundos, e então o ônibus no qual eu estava seguiu seu caminho, continuando meu reencontro com esquinas conhecidas mas há muito não vistas. Mas foi uma cena tocante e agradável de ver: um homem simples, que trabalha numa das ocupações mais desgastantes que se possa imaginar, com alegria suficiente dentro de si para dividi-la com os vira-latas que o acompanham nas andanças pelas avenidas da capital gaúcha. Fez com que eu mesmo me sentisse um pouco mais alegre, e me motivou uma série de pensamentos – a maior parte deles reconfortantes, ainda bem.

4)  Porto Alegre encolheu um pouco. Ainda não sei explicar direito; a ideia está aos poucos se formando na minha cabeça, preciso moldá-la bastante até ela ficar plenamente apresentável. Mas a cidade parece menor do que da última vez que a visitei, e da vez anterior ela também parecia ter encolhido um pouquinho. Tudo bem, São Paulo é uma cidade gigante que coloca Porto Alegre no bolso e sobra muito espaço, mas não sei se é uma simples questão de dimensão, entendem? O bairro onde morava, as avenidas onde tantas vezes peguei ônibus de dia e de noite, os lugares onde tomei cerveja por anos a fio, o prédio onde trabalhei e estudei por cerca de seis anos da minha vida, a rua onde fica a casa da minha mãe – tudo parecia tão pequeno… Acho que é, talvez, porque o meu mundo está aumentando. E não falo só do mundo físico, de eu estar tentando a sorte e conhecendo mais a cada dia de uma cidade gigante em oportunidades, glórias e tragédias: falo do horizonte pessoal mesmo, das coisas que eu quero, que eu planejo e eu vou conseguir. O meu mundo nunca foi pequeno, mas tenho certeza que nunca me pareceu tão grande. E eu devo dizer que isso me dá uma alegria, uma satisfação interior que é muito estimulante. Tenho mais uma chance em São Paulo, mais um período onde posso saborear o prazer que tão poucos, nessa vida, têm a chance ou a percepção de que é possível alcançar: a sensação extraordinária de arriscar um pouco, sem saber no que vai dar. E para isso, realmente, Porto Alegre estava ficando pequena demais.

Não tenho tanta coisa para dizer por aqui, na verdade. Uma semana de Porto Alegre, e tudo está mais ou menos como estava da última vez. Não consegui fazer tudo que eu pretendia e ainda pretendo fazer, não consegui ver todos que desejo e irei ver, mas mesmo assim já deu tempo de fazer uma série de coisas bacanas e de aproveitar bastante a presença dos amigos e da família, que é o que realmente interessa no fim das contas. Deu tempo de passar na Fabico, rever meus bons amigos e ex-colegas de NEPTV – e ter certeza de que, mesmo com todo o carinho que sinto por tudo aquilo, era mesmo a hora de me despedir e seguir o meu caminho. Tive tempo de matar a saudade de algumas iguarias típicas de Poacity – tipo xis calabresa do Speed e sorvete do Jóia, uma combinação que irrita as coronárias mas alegra sobremaneira a alma sempre barriguda deste humilde escriba. Estou também recuperando o tempo perdido, e tomando Polar sempre que a chance permite – o que, graças ao bom Deus, tem sido quase diário. Tive tempo de brincar de assistente de pedreiro, bem como de acompanhar a mãe no super e de adiar uma viagenzinha para Pelotas – que ainda pretendo fazer antes de voltar para São Paulo, vamos ver de que jeito. Continuei mandando currículos, mesmo tendo cada vez menos fé de que eles possam mesmo me ajudar tanto assim, e aproveitei que trouxe o notebook para baixar um monte de mp3 e instalar um jogo de computador que, voilá, não funciona. Estou matando a saudade do peculiar clima familiar aqui de casa, e já até dei umas passeadas com o cachorro – que de novo agiu de uma maneira curiosamente casual quando me viu, como se dissesse “por onde tu andava? Demorou para voltar, hein?”. Tenho me deleitado com as patuscadas do (des)governo Yeda (tecerei mais comentários a respeito no próximo post, assim que assistir via YouTube a íntegra da entrevista dela no Rodaviva) e me assombrado com as barbaridades que leio em alguns jornais de grande circulação do RS – e entendam isso como quiserem, provavelmente estarão no caminho certo. Estou assistindo seriados que não via há meses por falta de disponibilidade de TV (“Two And A Half Man” é engraçado demais), dormindo mais cedo e levantando mais cedo do que de costume (não, eu também não sei explicar isso), fazendo até quatro refeições por dia (!!!) e saboreando o não-fazer-nada com uma satisfação infinitamente maior do que a que experimento nos dias de não-fazer-nada em Sampacity. Talvez justamente por saber que tudo aqui, embora esteja durando bastante, é transitório, e logo volta a Batalha de São Paulo – que aliás está chegando em momentos decisivos, como talvez eu desenvolva em breve.

Na verdade, sou um cara de muita sorte. Enquanto muitos amigos e conhecidos ficam longos períodos sem conseguir voltar para casa, eu já estou na terceira visita a Porto Alegre desde que me mandei com a cara e a coragem para a terra da garoa.  Claro que isso não é pura questão de luxo, e na verdade eu deveria estar é evitando essas viagens pelo bem do meu cheque especial – mas A Lei me chama, e eu tenho quase que ser grato a ela, pois graças a isso estou mantendo um contato bem legal com a minha mui amada cidade natal. Fico pensando na primeira vez que voltei para Porto Alegre desde que encarei esse desafio, como me senti quase confuso, como tudo parecia igual e ao mesmo tempo tinha uma espécie de qualidade nova e estranha, que levei um tempo para absorver. Agora não sinto a mesma coisa – na verdade, cada vez que retorno é como se não tivesse saído, como se não houvesse tanta diferença entre um lugar e outro. E, no fundo, não tem mesmo. Não que São Paulo seja minha casa, mas me sinto bem vindo por lá – é uma cidade cheia de contrastes e neuroses, mas que sempre aceita mais um no seu ventre, por mais inchado que ele esteja. E Porto Alegre é o meu lar, o lugar de onde venho, para o qual sempre posso voltar e onde eu sei que, de um modo ou de outro, vou acabar ficando em algum momento do futuro. São dois grandes lugares, de qualquer modo – e semana que vem estarei de novo na megalópole, fazendo o que talvez seja a investida decisiva rumo ao meu futuro, seja como for, onde for ou do modo que for. Mas ainda tenho uns dias de Porto Alegre, e pretendo aproveitá-los – ou seja, se eu ficar meio quieto por aqui, não estranhem…

Estou nesse momento no Aeroporto de Guarulhos, matando um tempo com o laptop enquanto a madrugada não vira manhã e não chega a minha hora de voar. Tive que vir para cá no final da noite, me sujeitando a ficar a madrugada em claro, tudo para não correr o risco de ficar trancado no engarrafamento da manhã paulistana e perder meu voo. Mas não reclamo – na verdade, até gosto bastante. Não é minha primeira madrugada em aeroportos, e começo a notar que me agrada essa coisa de ficar esperando o avião, ver o movimento de fim de noite virar quietude na madrugada e a mesma quietude dissolver-se na agitação dos voos da manhã que se inicia. Um aeroporto é um lugar onde nada (ou quase nada) é permanente, um lugar no qual o passageiro é a única constante, um lugar que serve de ponte entre o onde-estamos e o para-onde-vamos – e isso em mais de um sentido. Afinal, como bem devem saber todos que vivem indo de um lugar para o outro, as horas de espera em aeroportos são muito propícias a certas reflexões.

Estou voltando para Porto Alegre, uma vez mais, com o pretexto de cumprir mais uma etapa dos meus compromissos com A Lei. Unida a isso, a possibilidade de ficar uns dias em casa, curtindo cafuné de mãe, as piadas dos irmãos, o cachorro pedindo atenção. Vendo meus amigos e amigas dos quais sinto tanta falta, rir com eles um pouco, ver com olhos bem abertos as coisas da cidade que nunca esqueço, mas que a distância me faz enxergar com um olhar mais curioso e menos cansado. Recarregar as baterias, como diria o clichê. E depois de alguns dias (dois, dez ou mais que isso, ainda não sei) voltar para São Paulo, para a imensidão cinzenta pontuada por cores discretas que tenho especial deleite em descobrir no dia a dia, buscando algo de único e extraordinário no meio do grande mar de neutra indiferença. Voltar para a corrida pelo futuro, a busca por trabalhos fixos ou temporários, a incerteza sem consolos ou tapinhas no ombro, o sentimento de é isso aí, dá um jeito, te vira. Sensação que pode ser sufocante, mas ao mesmo tempo me causa uma certa energia, um sentimento positivo de que, seja lá como for, estou vivendo e tentando viver. Nunca sei ao certo como será o dia seguinte, nesses dias de megalópole – e isso é um contraste quase bonito com Porto Alegre, onde eu conheço todas as opções, onde tudo tende a ser do mesmo jeito familiar, quase confortável. Essa distância me revitaliza, me faz ver as coisas com uma visão diferente e mais abrangente; mas é bom poder ter para onde voltar, e hoje eu sei que posso demorar muito, pode ser que nunca volte completamente, mas que sem dúvida alguma Porto Alegre é a minha casa. Vão ser bons dias, tenho certeza.

Como eu disse, percebo que gosto da sensação de estar no meio das coisas, de ver sem ser parte da ação, de contemplar, registrar e aprender – e o aeroporto é muito propenso a tudo isso, especialmente se a gente dá a ele a chance de ir revelando tudo de incomum que existe dentro dele. Existem muitos microcosmos nesse mundo, e o aeroporto é sem dúvida um deles. Mas já estou me planejando para voltar para São Paulo de ônibus – dezoito longas horas pelas estradas de quatro estados, dormindo mal e comendo qualquer coisa. Dezoito horas que, admito, pretendo fazer por puro prazer e satisfação pessoal. Porque o avião, muito confortável e veloz, nos rouba a verdadeira sensação de uma viagem – a percepção das horas passando, o desapegar-se de onde estávamos e a lenta absorção de onde estamos indo. Em um voo, há o sair e o chegar, e quase nada no meio. É em busca desse miolo que quero fazer a volta de ônibus, retornar a São Paulo sem nenhuma pressa, sentir Porto Alegre aos poucos virando passado e o local de destino lentamente tomando conta do meu presente e do meu futuro. Acho que essa transição foi uma das coisas que mais me marcaram na primeira vez que fui a São Paulo, e me faltou um pouco em viagens posteriores. Quero resgatá-la, mesmo que parcialmente, e acredito que o processo vai me fazer bem. Além, é claro, de me dar ainda mais tempo para acomodar as ideias. Porque é isso, no fundo, o que une aeroportos e rodoviárias na minha consciência e na minha visão de mundo: a chance de contemplar o que vem e o que vai, estando nós mesmos sem ir e nem vir, pelo menos por um breve período.

Sol entre nuvens

Se alguma das pessoas que passavam apressadas por ali tivesse parado por um momento para observá-lo, talvez percebesse que ele estava sangrando. Veria essa pessoa que o sangue escorria dele em grandes filetes, derramando-se pela calçada, formando uma poça que ficava mais e mais volumosa à medida que o tempo ia passando. Poderia ter visto, talvez, que alguns mais distraídos até pisavam na poça de sangue vez por outra, alheios a tudo que não dissesse respeito aos seus próprios problemas, a suas próprias dores e feridas, ao seu próprio sangrar. Seria possível, a esse observador ocasional, notar que a ferida da qual provinha esse sangue estava escondida embaixo das roupas que aquele homem desconhecido vestia, coberta por uma camada de tecidos velhos, sujeira e distanciamento de tudo que diz respeito à vida e ao viver. Perceberia o observador que aquela chaga era do tipo que nenhuma enfermeira poderia tratar, que nenhuma sutura fecharia, cuja dor latejante não poderia ser aliviada com nenhum remédio, pomada ou ungüento. E que, muito mais do que algum exame ou interrogatório, o diagnóstico da causa de tanta dor só seria preciso caso o interessado superasse as barreiras, visíveis e invisíveis, e olhasse diretamente nos olhos daquele homem. Caso tivesse existido, dentre os tantos caminhantes daquela manhã sem nome e sem tempo, um homem ou mulher capaz de deter sua marcha e olhar nos olhos do ser humano sentado no meio fio, não seria muito difícil ver a alma ferida, o espírito aberto num corte profundo, a consciência desbotada pela dor que surge como um tom de cinza-escuro a cobrir todo o sol daquela manhã. Uma dor tão grande, tão sincera e tão desencantada que, se fosse visível, cobriria de cinza o céu de todos que ali andavam, faria daquela manhã de sol e de vida uma manhã de nuvens pesadas, de céu carrancudo, uma manhã de guarda-chuvas e de mau humor. Uma dor que empestearia o ar, atrairia os ratos, baratas e moscas varejeiras, que deixaria os jovens nervosos e encheria de frio os mais velhos. Porque a dor daquele homem é a dor que move os poetas e loucos, a tristeza sombria que anima os acordes de guitarra, a agonia do que plantam as sementes do sonho irresponsável e colhem um fruto amargo de negativa e azedo de tragédia. Dor que queima por baixo da pele, que atrai tudo para si como buraco negro, que faz da lágrima e do soluço a ante-sala da loucura além de esperança. Uma dor que sangra, silenciosa e implacável, pelo tecido dos anos que se vão sem que ninguém se preocupe em contá-los. Ao que fosse suficiente corajoso para tentar vê-la, eis como a dor daquele homem surgiria, bela como a iminência da morte, terrível e bruta como um diamante que ninguém quer.

Mas nenhuma das pessoas que passou por aquela rua naquela manhã de sol deteve-se para observar o homem sentado ao meio-fio. Todas elas, sem exceção, seguiram seu caminho pelas ruas e calçadas, unidas pela indiferença mútua, compartilhando a bela manhã de sol que nenhuma delas realmente via. Apenas para o homem o céu era nublado, apenas para ele a chuva pesada era iminente, somente ele sentia que naquela rua e naquela vida nunca mais haveria o calor do sol. E ali ficou sentado, aquele mendigo ferido de amor, também ele indiferente aos raios de luz que banhavam a todos, mas não iluminavam ninguém.

Não, não estou dando início a uma série de posts temáticos sobre o Ramones nem nada disso – trata-se, simplesmente, daquelas coincidências do destino. Além de, é claro, ser uma informação reveladora para muitos fãs de Ramones espalhados pelo mundo virtual e, se possível, além. Afinal, há quase quinze anos inúmeros fãs da banda se debatem com essa dúvida cruel, essa indefinição abrasadora – e agora, graças ao Orkut (quem disse mesmo que não presta para nada?), talvez esse quase tabu ramônico tenha caído por terra.

É o seguinte. “Born to Die In Berlin”, a última música do último disco do Ramones (“Adiós Amigos”, de 1995), conta com uma de suas estrofes cantada por Dee Dee Ramone, ex-baixista do histórico grupo, alemão de nascença e compositor da música. Reza a lenda que o cidadão gravou a estrofe por telefone, cantando um verso, supostamente, em alemão. Digo “supostamente” porque é virtualmente impossível entender o que diabos Dee Dee está cantando, no fim das contas. A gravação é distorcida, a pronúncia arrastada, os licks de guitarra em cima da voz não ajudam, e como a letra não aparece no encarte do CD fica tarefa complicada entender o que está sendo dito naquele trecho. E não, espertinho(a), não pense que basta falar com algum alemão e pedir para ele traduzir – já fiz isso mais de uma vez, e até então só tinham me dito que não dá para entender patavina do que o cidadão canta na bendita música. A explicação mais comum é de que se tratava de uma adaptação livre de um hino nazista da Segunda Guerra – e, como qualquer manifestação alusiva ao nazismo é considerada crime na Alemanha, Dee Dee resolveu dar uma “embromada” na coisa. No caso, o cidadão embromou tão bem que ficou praticamente impossível decifrar sua alegre cantoria. Saquem a música, via YouTube – sim, o vídeo é tosco, mas é o que tem melhor qualidade de áudio, então vai esse mesmo. A estrofe em questão é a terceira, e quero ver se vocês matam a charada ANTES de ler o restante do post…

Difícil, né? Pois graças à comunidade Ramones Brasil do Orkut, e mais especificamente aos ouvidos biônicos de uma usuária chamada Cassia (mais créditos não dou porque talvez não seja do interesse dela, enfim), eis que temos uma provável transcrição do trecho fatal. Não que ele faça muito sentido, mas enfim, aí já não é culpa da moça que decifrou a coisa, não é? Então, lá vai:

Küss mich jetzt, Mädchen
Es ist alles wahr
Du kannst es lesen in der Morgenpost, OK
Der Winter wird wieder kalt werden
Und Berliner wollen Amerika
Von Menschen, die sterben
Unter den weißen Blüten

(tradução: Beije-me agora garota / é tudo verdade / voce pode ler no Morgenpost, ok /
O inverno será gelado outra vez / e os berlinenses querem a América / Pessoas que morrem  / sob flores brancas)

Tentem agora ouvir o trecho lendo essa transcrição. Melhor, não é?

Pois aí está. Mais um mistério aparentemente insolúvel, desvendado magicamente pelos sites de relacionamento. Me diga agora que o Orkut não serve para nada, ó infiel. Diga!

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