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Took a long time to come

Esse post se presta a três objetivos. O primeiro, e mais óbvio, é colocar algo legal aqui como primeira postagem de 2010. O segundo é exemplificar o som do The Zombies, que foi citado aqui, dois posts atrás. E por fim, o videozinho que surrupio do YouTube e coloco aqui serve como um desejo, muito sincero e de coração, para todos que derem uma passadinha por aqui – e em especial a todas as pessoas que contribuem, muitas vezes sem ao menos saberem disso, para a minha vida ser agradável e digna de ser vivida. A letra é bem simples, mas mesmo assim colo abaixo para quem quiser acompanhar. Enfim, sem mais delongas, “This Will Be Our Year”:

The warmth of your love
is like the warmth of the sun
and this will be our year
took a long time to come

Don’t let go of my hand
now darkness has gone
and this will be our year
took a long time to come

And I won’t forget
the way you held me up when I was down
and I won’t forget the way you said,
“Darling I love you”
You gave me faith to go on

Now we’re there and we’ve only just begun
This will be our year
took a long time to come

The warmth of your smile
smile for me, little one
and this will be our year
took a long time to come

You don’t have to worry
all your worried days are gone
this will be our year
took a long time to come

É isso. Volto com algo mais típico da próxima vez. Por enquanto, fiquem numa boa, e comecem desde já a fazer de 2010 um ano especial. Saudações a todos, e até logo.

Começo a digitar esse texto sem ter a menor ideia de como ele vai ser, muito menos de como – ou quando – ele vai acabar. Talvez, de todas as coisas que escrevi aqui nesse ano, essa seja para mim a mais importante de todas – afinal, é o momento de olhar por cima dos ombros, contemplar tudo que aconteceu e que não aconteceu no meu 2009 e tentar tirar de tudo, se não uma conclusão, ao menos algumas lições e caminhos para o futuro. Entender quem eu sou sempre foi um dos meus objetivos de vida, e um dos meus maiores desafios – talvez por isso, inclusive, eu observe tanto os outros, os anônimos das ruas e esquinas da vida: para ver neles algo de mim mesmo e, tentando entendê-los, compreender melhor a mim mesmo. E sério mesmo, esse 2009 foi um ano tão intenso e cheio de aprendizados que eu sinceramente, realmente, definitivamente nem sei por onde começar. Dá quase um frio na barriga, na verdade. Mas eu devo isso nem tanto a vocês, mas especialmente a mim mesmo – e não sou de recuar diante dos desafios ou das coisas que me dão medo, então… Coloquem uma música legal para tocar, uma bebida gelada do lado, e venham comigo, porque certamente vou precisar de companhia!

Bem, como eu imagino que a essa altura praticamente todo mundo que ler esse texto já saiba, o catalisador das mudanças no meu 2009 foi a minha decisão de tentar a sorte em São Paulo – decisão que se confirmou depois de uma visita de dez dias em janeiro, e que foi o ponto culminante de uma série imensa de dúvidas, ansiedades, sonhos e expectativas que tomavam conta do meu espírito. Tudo precisava mudar, e rápido – eu não podia esperar, entendem? Nem mais uma semana, nem mais um dia, um minuto que fosse. Era tanta urgência que eu fui, sem emprego certo, para morar de favor em um sótão, sem dinheiro para ficar muito tempo por lá, movido basicamente por uma grande necessidade de assumir os riscos e fazer algo diferente da minha vida. Saí na segunda metade de março, sem expectativas, mas cheio de esperanças. E agora em dezembro eu retorno uma vez mais para casa, para Porto Alegre, para ficar com a minha família até pelo menos o início de janeiro – um retorno ao estaleiro que pode se estender um pouco ou bastante, dependendo das circunstâncias. Volto sem emprego fixo, sobrevivendo de frilas e da caridade alheia, sem dinheiro para comprar roupas novas ou qualquer outra coisa, sem nada por lá (ou aqui) que eu possa chamar de meu. Materialmente falando, termino esse ano de 2009 com uma mão na frente e outra atrás, longe do tipo de história de sucesso que talvez alguns preferissem que eu pudesse contar aqui.

Isso quer dizer que me arrependo? Nunca. Jamais, de jeito nenhum. Pelo contrário, e isso talvez seja a maior conquista de 2009 para mim: depois de muito, muito tempo mesmo, posso terminar um ano dizendo que não me arrependo de nada. Absolutamente nada. Talvez as coisas pudessem ter sido diferentes, talvez eu pudesse ter agido de modo distinto em certas situações, talvez eu pudesse ter sido mais prudente, ter tido um pouco mais de malícia, ser mais cérebro e menos coração, vai saber? Mas eu posso chegar agora na frente de vocês, amigos/as e leitores acidentais, e dizer de peito aberto que eu fiz as coisas do meu jeito. Que eu não tive medo. Que quando eu quis dizer as coisas, eu as disse, e quando quis fazê-las, eu as fiz. Que eu joguei tudo para o alto, sim, e que eu percebi que talvez o passo fosse maior que as pernas, sim, mas que eu fiz o que eu senti que tinha que fazer, do jeito que eu achei que tinha que fazer, sendo fiel ao meu sentimento e ao meu coração. E foi a coisa certa. Talvez tenha sido a coisa mais certa que eu fiz em toda a minha vida. E eu não me arrependo de nada. E que é bom, muito bom mesmo sentir que fez a coisa certa, por mais que as coisas tenham saído de controle, por mais que não haja certezas e que não se tenha nenhum sinal claro de como será o amanhã.

E eu aprendi muita coisa. Tanto que eu acho que ainda estou absorvendo tudo, e que vai levar um tempo considerável até eu racionalizar todas essas lições que a vida me deu. Poderia passar dias listando todas as coisas que aprendi, e estou aprendendo, nessa jornada de redescoberta e reencontro pessoal. Aprendi a tentar entender os pequenos gestos, a ver por meio deles quem realmente se importa, e a fazer tudo que posso para valorizar essas pessoas e demonstrar a elas meu carinho e gratidão. Aprendi a ser grato pela comida que me servem, pelo teto que me protege do sol e da chuva, pelo canto em que me ajeito para dormir e pelo lençol que me dão para eu me proteger do frio. Aprendi, ou tenho tentado aprender, a gostar das pessoas sem esperar nada delas em troca, mas dando prioridade para as que demonstram capacidade de entender e corresponder, cada uma a seu modo, a essa afeição. Aprendi que a pressa é um estado de espírito, que no caso não me serve nem um pouco. Aprendi que, quando existe pelo menos uma pessoa nesse mundo que se importa com a gente, então nunca estamos realmente sozinhos. Aprendi a chorar de saudade, escolhendo o melhor momento, quase em silêncio e sem nenhum estardalhaço. Aprendi a andar sozinho, pelo simples prazer de caminhar, e descobri como é bom fazer companhia a si mesmo. E acho que aprendi, acima de tudo, qual é o meu papel nesse mundo, o motivo pelo qual me jogaram nesse lugar maluco e sem sentido – e acho que isso é tão importante, ao menos para mim, que vou abrir outro parágrafo para tentar desenvolver melhor.

Acredito em mágica, sabe? Não exatamente mágica do tipo truques e prestidigitação, mas no sentido de que existe mais no mundo do que a gente enxerga, de que a vida é cheia de coincidências que no fundo não são coincidências coisa nenhuma, de que a existência é muito mais do que uma barulhenta e apressada jornada do nada para lugar nenhum. Existe algo que a gente ainda nem começou a entender direito, e que possivelmente não entendamos nunca, mas que está sempre presente – e acho que um pouco dessa mágica se manifestou algumas vezes diante dos meus olhos, tendo sido especialmente forte durante o ano que passou. E acho, sinceramente, que recebi alguns recados, que só estou entendendo mesmo agora, que parei para pensar a respeito. Nada sobrenatural, nada de revelações divinas ou qualquer coisa do tipo – apenas alguns “toques”, digamos assim. E o que eles me dizem, basicamente, é: seja jornalista, Igor Natusch. Não um jornalista feliz empregado na Folha ou na Zero Hora, um eficiente criador de conteúdo capaz de galgar degraus na hierarquia de uma grande empresa; não é disso que estamos falando. Trata-se de ser um jornalista como eu era lá no primeiro grau, quando conversava com os colegas e dizia que queria trabalhar na área – um jornalista de alma. Alguém que sente, olha, pergunta, tenta entender, pensa e registra. Alguém que está no meio da vida, tentando decifrá-la. Claro que é muito mais fácil e mais cômodo viver alheio ao fato de estar vivendo, e acho mesmo que a felicidade é tanto mais fácil quanto menos a gente pensa sobre a vida. Mas não posso negar o que sou, o que fui durante a vida toda mesmo sem ter plena consciência disso, e o que é no fim das contas tudo que posso ser. Sou um jornalista quando escrevo, quando sento numa cadeira de bar, quando toco violão, quando pego uma câmera ou posiciono luzes num cenário. Sou jornalista quando converso com o balconista, quando estou com uma mulher, quando brinco com um cachorro, quando pego ônibus ou quando olho a fachada imunda de um prédio abandonado. Sou jornalista sempre, o tempo todo. E esse é, no fim das contas, o meu destino. Meu negócio não é ganhar dinheiro ou conseguir ótimos empregos, já percebi que não sou muito bom nessas coisas – meu negócio é contar histórias. Faço isso o tempo todo, porque simplesmente não posso e nem quero evitar. E vou fazer isso até morrer. Custe o que custar. Ainda bem que entendi isso, profunda e definitivamente – e, acima de tudo, ainda a tempo. Antes tarde do que nunca, diria o clichê.

Dito tudo isso, e embora ainda tivesse toneladas de coisas para dizer, acho que posso passar para a minha pequena lista de resoluções para 2010. Coisas que eu prometo solenemente, diante de vocês, que eu vou tentar fazer. Em 2010 eu quero ficar bem menos tempo no computador e sair bem mais para a rua, onde no fim das contas tudo continua acontecendo. Em 2010 eu vou carregar sempre um livro comigo, para eu ler todos os livros que deixei acumular por pura preguiça nos últimos anos. Em 2010 eu vou reunir os meus contos, participar de alguns concursos literários e bater na porta de algumas editoras. Em 2010 eu vou comprar roupas novas, e aproveitar que estou emagrecendo espontaneamente para fazer alguns exercícios. Em 2010 eu vou tentar achar alguém legal, que valha a pena ter do meu lado, mas sem pressa e sem galinhagem que isso nunca foi meu estilo. Em 2010 eu vou arranjar um lugar novo para morar, ou ao menos um teto novo sob o qual dormir. Em 2010 eu vou voltar para São Paulo e fazer coisas legais por lá, mas isso nem resolução é, trata-se apenas uma reafirmação. Em 2010 eu vou assistir todos os jogos do Grêmio que puder, em qualquer estádio que esteja ao meu alcance. Em 2010 eu não vou reclamar que não tenho dinheiro. Em 2010 eu vou ganhar dinheiro, tanto quanto puder, e espero que não seja pouco. Em 2010 eu vou continuar escrevendo, e vou escrever incansavelmente, tudo o que eu puder e até onde eu aguentar. Em 2010 vou ´publicar mais seguidamente aqui no blog, tentar fazer coisas mais jornalísticas e menos “querido diário”, e textos não tão longos também, se possível. Em 2010 eu vou fazer um monte de coisas legais, e torcer para que algumas delas sejam publicadas ou exibidas por aí. E em 2010 eu vou seguir fazendo a coisa mais certa que eu posso fazer: sendo eu mesmo. Para o bem, e para o bem também, que a gente ser exatamente quem é sem se pautar pelo que os outros querem ou pensam nunca vai ser algo ruim.

Por fim, terminado esse rascunho de Bíblia, alguns agradecimentos. A minha família, que me apoia mesmo quando não me entende e na qual eu sempre encontro carinho e abrigo. Ao Seu Luiz, Dona Agnes e Luciano, a família extraordinária que permitiu que eu me enfiasse na sua casa, me acolheu e me tratou de um modo que eu jamais serei capaz de agradecer tanto quando gostaria. A pessoas como o Renan, Ungaretti, Marques, Denise, Jorge, Sindia e vários outros, que me deram conselhos e oportunidades, mesmo às vezes sem saber direito quem eu era, apostando nesse desconhecido de barba ruiva e sem muita noção na cabeça. Aos meus amigos, os de POA, de SP e de outros lugares do Brasil e do mundo, que me ofereceram as verdadeiras lições, o sentimento mais bonito e o apoio mais importante, no momento que mais precisei. A todos, muitos até desconhecidos, que me ajudaram pagando comida ou cerveja, emprestando livros ou filmes, comentando alguma coisa que escrevi, puxando conversa no ônibus ou no metrô, dando uma informação, me presentando com um sorriso inesperado no meio da multidão indiferente. A São Paulo, por me receber tão bem, a Porto Alegre, por sempre me aceitar de volta, e ao mundo, por deixar claro que posso ir até ele a hora que eu quiser. Muito obrigado a todos, do fundo do meu coração. Graças a vocês, 2009 foi um ano inesquecível – e, talvez, o melhor de toda a minha vida.

E que venha 2010. Depois de 2009, acho que estou pronto.

O ano da graça de 2009, que você pode ver aí da sua janela dando os últimos estertores de vida, foi um ano dos mais musicais para esse que ora vos digita. Quer dizer, minha vida e minha visão de mundo sempre foram altamente musicais, e isso quem me conhece sabe muito bem – mas como esse ano foi bastante incomum para mim, em todos os sentidos, naturalmente eu precisei muito mais de boas trilhas sonoras, se é que me faço entender. Ano de contrastes, com certeza – por ex, a distância geográfica dificultou muito as atividades da minha banda de Heavy Metal, mas mesmo assim lançamos nossa segunda demo, depois de muito drama, como os mais curiosos podem conferir aqui. Por outro lado, toquei baixo muito pouco esse ano, especialmente pela trabalheira que é levá-lo nas viagens SP-POA que faço periodicamente; por outro, me tornei mais íntimo do meu violãozinho, e graças a ele compus uma série de canções, que estou cogitando para algum tipo de projeto e talvez vocês ainda tenham o azar de ouvir algum dia. Mas enfim, o fato é que minha relação com a música em 2009 foi diferente do que tinha sido em outros tempos – tanto que acho que revisar o que eu mais ouvi no ano que quase já passou ajuda muito a entender, de certo modo, o que se deu comigo durante esse ano intenso e maluco que vivi.

Essa não é, de modo algum, a lista dos melhores discos de 2009 para Igor Natusch – se é isso que o leitor/a busca, lamento, mas ao menos aqui não vai achar. Nem chega a ser exatamente a lista das melhores coisas que descobri em 2009, embora boa parte delas eu não conhecesse até ao menos o início desse ano. Trata-se, simplesmente, de uma lista das coisas que mais ouvi durante o ano, as que ficaram mais tempo no meu mp3 player e nas listas de reprodução do meu Winamp e do meu Songbird. Vou falar bem rapidinho de cada uma delas, nada muito extenso – mas eu me conheço e sei que vai sair um post enorme para caramba, então estejam avisados das minhas boas intenções, pelo menos. Ficam como dicas para os mais curiosos, ou como pequeno recorte de um período da minha vida. Será divertido se eu puder voltar aqui, no final de 2010, e comparar essa lista com o que porventura eu esteja ouvindo na época… Enfim, sem mais embromação, lá vai:

BOB DYLAN - a grande redescoberta do meu 2009. Quer dizer, eu sempre escutei Bob Dylan, durante variados momentos da minha vida – mas acho, sinceramente, que é a primeira vez que eu realmente ouço as músicas dele… No fundo, faz todo sentido: ano de descobertas e redescobertas, revisando praticamente todos os pontos da minha vida, natural que eu precisasse de algum tipo de guia durante essa caminhada. E é incrível como Dylan não só entende o mundo como te ajuda a contemplá-lo e a formar, pelos próprios meios, um entendimento particular a respeito dele. Quantas vezes estava eu tomado por dúvidas ou sentimentos sombrios, e vinha o shuffle do mp3 player com uma música do homem, trazendo uma resposta ou consolo… Ele foi, com certeza, a grande trilha sonora do ano Natuschense, e deve me seguir por um bom tempo, ainda. Thanks, Bob.

NOTHINGTON - essa foi uma das bandas apresentadas a mim pelo Kenny, o carioca que eu conheci em São Paulo e que agora está morando no Sul. Ouvi o segundo disco deles, chamado “Roads, Bridges & Ruins” e lançado esse ano, e achei bacana – mas é inegável que foi o primeiro disco, “All In” (2007), que realmente me fisgou. Punk Rock cheio de energia, com várias influências folk e country – não só em sonoridade, mas também na mentalidade e nas letras, simples e cheias de empatia. Já me peguei cantando “Something New” ou “Sell Out” no meio da rua, sem nem estar ouvindo as músicas em questão – sinal de que grudaram legal no meu cérebro…

THE BATTERING RAM – de maneira bem casual, me apareceu pela frente o link para um disco chamado “Irish Rebel Songs” (1998), gravado por um tal The Battering Ram. Baixei de curioso que sou, e não me arrependi nem um pouquinho. Música típica irlandesa, com montanhas de músicas sobre o IRA e a luta contra os ingleses, tudo muito contagiante e sumamente divertido. Sei que tem gente que pode torcer o nariz para o tipo de temática – mas eu só lamento por vocês, porque deixam de ouvir algumas canções simplesmente maravilhosas. E graças ao som dos caras fui atrás de mais músicas do tipo, que a essa altura já devem estar ocupando uns 5 Gb do meu notebook… Ponto para eles.

MACACO BONG – para nao reclamarem que só incluí estrangeiros na lista, aí está. Vi o show deles na Virada Cultural em SP, e foi do caralho – o que, obviamente, me levou a ir atrás do até agora único CD deles, “Artista Igual Pedreiro” (2009). Embora eu com certeza esteja perdendo alguma coisa na hora de entender o nome das músicas – batizar temas instrumentais com títulos tipo “Vamos Dar Mais Uma”, “Fuck You Lady” e “Black’s Fuck” está aparentemente além da minha capacidade de compreensão – o som é de primeira. Power trio de rock instrumental muito criativo, capaz de fazer músicas longas e envolventes com o mínimo de recursos. Bem legal mesmo, recomendo.

MEIC STEVENS - o cara é lenda no País de Gales, sendo conhecido como o Bob Dylan local. E o negócio é realmente muito legal – folk music bem típica da região, com melodias bem tranquilas e marcantes, um som simples e bem legal de ouvir numa noite chuvosa ou algo assim. E é quase tudo cantado em galês, o que causa um estranhamento inicial mas depois só ajuda mais na atmosfera das canções. E pelo que deu para sacar com a ajuda do Google Translate, as letras são bem bacanas… Grande figura, um dia talvez eu conte a história dele por aqui.

THE LAWRENCE ARMS – outro da série “a culpa disso é do Kenny”. Excelente banda punk de Chicago, que se destacou para mim por ter uma criatividade muito grande e ótimas partes de guitarra e baixo, muito além da simplicidade quase tosca que geralmente se aplica ao estilo. Os vocais revezados entre Chris McCaughan e Brendan Kerry também ajudam muito a criar um clima muito agradável e cheio de energia. Os cinco discos deles são ótimos, mas o melhor para mim é o último, “Oh! Calcutta!” (2007) – um disco que até vale a pena começar a ouvir pelo final, já que as duas últimas músicas (“Key To the City” e “Old Dogs Never Die”) são pura genialidade em três ou quatro acordes. Muitissimo legal, outra banda que pretendo ouvir 2010 adentro.

WARLORD / LORDIAN GUARD – para não dizerem que não falei de Heavy Metal, aí está. O Warlord deve ter sido uma das melhores bandas de HM da história – pena que só lançou um mini-lp, um ao vivo meio “fake” e um single antes de desaparecer na eternidade. Som épico, sofisticado e ainda assim simples, um deleite para meus ouvidos sedentos de música pesada. Já os conheço há mais de década, mas em 2009 eles foram quase dominantes no meu Winamp, de modo que merecem a citação. E o Lordian Guard é o projeto do guitarrista e líder William Tsamis, formado com sua esposa depois do fim do grupo original. Ainda mais épico e sofisticado, além de ter uma temática épico-cristã-medieval que eu acho sensacional – deve ter sido a melhor banda White Metal do universo, bem provavelmente. E a gravação tosca só deixa a atmosfera mais legal, se é que isso faz sentido…

THE BYRDS – Ando falando bastante de Dylan por aqui, né? Pois esses caras ficaram famosos pelas versões fantásticas que faziam de músicas do cara, muitas vezes as reinventando quase que completamente. Mas a contribuição desses sessentistas americanos vai muito além disso: os caras foram dominantes no nascente cenário rock americano, pioneiros no rock psicodélico (“Eight Miles High” é hino eterno) e também no folk rock (com o na época execrado e hoje clássico “Sweetheart of the Rodeo”), além de muitos outros méritos que estou com preguiça de ir listando por aqui. De qualquer modo, “underrated” é pouco para os Byrds – eles eram geniais! Façam um favor a si mesmos e, se não conhecem, baixem pelo menos uma boa coletânea dos caras. Recomendo “There Is A Season” (2006), em quatro volumes e um grande resumo da obra deles. Seus ouvidos com certeza agradecerão muito.

THE ZOMBIES – a maioria das pessoas conhece eles porque “Time of the Season” entrou na trilha do Austin Powers… Uma pena, porque a banda era sensacional e “Odessey and Oracle” (1968) é um dos melhores discos dos anos 60, o que é grande coisa com certeza. Tem gente que diz que ele está pau a pau com o Beatles do “Sgt. Peppers” ou o “Magica Mystery Tour”, e olha que não é tanto exagero assim… Melodioso, cativante, com ótimas linhas vocais, bonitos arranjos e músicas maravilhosas como “This Will Be Our Year”, “A Rose for Emily” (de chorar), “Beechwood Park” (idem) e a poderosa “Hung Upon A Dream”, talvez a melhor música de um álbum cheio de cancões inesquecíveis. Tenho vergonha de ter levado quase 29 anos para ouvir esse disco…

A WILHELM SCREAM – fechando a lista, um colosso que eu já tinha ouvido antes, mas que só dei o devido valor agora nesse 2009 que tá ali, dobrando a esquina. Hardcore cheio de melodia, muito técnico, com trabalho insano de guitarras e que agora tem o melhor baixista que o punk rock e congêneres já viu – e se você duvida, só prova que nunca ouviu Brian J. Robinson tocando… Me sinto muito humilhado cada vez que ouço o cara, sério mesmo. “Career Suicide” (2007) é O DISCO deles: músicas, letras, arranjos, energia, tudo é incrível e do mais alto nível. Quer dizer, ao menos é o melhor disco deles até agora, porque o EP que eles lançaram esse ano como aperitivo do próximo CD é de um brilhantismo que chega a dar medo. Bom saber que ainda se faz ótima música por aí – e com atitude, aquilo que muito se ouve falar mas tão pouco se escuta hoje em dia…

Bom, era isso. Acho que oferece um recorte bacana das coisas que eu andei escutando. Não cita gente importante tipo Heaven and Hell (cujo “The Devil You Know” foi a coisa mais legal lançada em 2009 na minha opinião), ou muitos outros artistas e bandas que eu ouvi bastante durante o ano, mas enfim, não tenho mesmo pretensão de abraçar o mundo. Fica aqui como um exercício retórico, além de um jeito de matar tempo e manter o blog ativo. Aos que leram, meu agradecimento – se quiserem comentar algo, fiquem à vontade. Saudações, e até loguinho.

São Paulo. Penúltimo dia do meu ano paulistano – afinal, agora nesse exato momento estou em Porto Alegre, onde entre festas com a família e reencontros com os sempre queridos amigos(as) vou terminar meu ano de fato. Um ano cheio de acontecimentos e de coisas sobre as quais pensar, mas enfim, não vem ao caso agora, ao menos não nesse post. O fato é que eu voltava para a casa onde (ainda) estou hospedado, pensando na vida e no que ainda precisava resolver para minha viagem até o Sul do Brasil, quando o típico barulho na janela do ônibus despertou minha atenção. Chuva, e não das mais fracas – pelo contrário, era uma rajada forte, violenta, do tipo que aparece quase de surpresa para jogar São Paulo no caos. Companheira de todos os atrasos e engarrafamentos, alguém poderia dizer. Seja como for, vinha eu tão distraído que nem imaginei que pudesse chover – e é claro que, como os que me conhecem melhor podem bem imaginar, eu não trazia comigo nenhum guarda-chuva nem nada do tipo. Ou seja, assim que eu saísse daquele ônibus, estaria à mercê do poder inclemente da Natureza – ou, falando sem poesia, ia tomar um belo de um caldo.

Pensei rapidamente nas minhas chances de fuga, e concluí que a melhor coisa seria descer uma parada depois do originalmente previsto. Nesse caso, além de me proteger embaixo do teto da parada de ônibus, mais amplo do que o de onde geralmente desço, teria a chance de me esconder no toldo de uma padaria logo à frente, caso a coisa continuasse preta como estava. Não era o plano mais infalível do mundo, eu sei, mas era o que tínhamos para o momento, de modo que o segui à risca. Fui até a parada, desci rapidinho para não me molhar e ali fiquei, totalmente ilhado, já que a chuva tava pesada e não tinha jeito de que ia aliviar de jeito nenhum. Situação complicada, essa – estava pertinho de meu provisório lar, mas não tinha a menor perspectiva de conseguir chegar até ele naquelas condições. É nessas horas que eu penso que, um dia, deveria arranjar um guarda-chuva para mim – mas sou meio acomodado nessas coisas, além de que nunca gostei de carregar guarda-chuvas, então vou levando e pensando com meus botões que desta vez passa, que na próxima oportunidade eu compro um, sim Deus, eu prometo. Sempre em vão. Deus já deve ter se acostumado, a essa altura.

Estava sozinho na parada, até duas mulheres chegarem, um pouco apressadas e conversando alto entre si. Chegaram, fecharam seus guarda-chuvas e ficaram ali, retomando o fôlego enquanto esperavam o ônibus que, pelo trajeto das linhas que ali passavam, deveria ser o que as levaria para a casa. Imagino, pela diferença de idade, que fossem parentes, talvez mãe e filha; uma senhora com o rosto emoldurado pelos primeiros cabelos brancos e uma moça de vinte e poucos anos, ambas de pele negra, roupas simples e o ar de tocante dignidade típico das pessoas humildes que nada devem a ninguém. A mais jovem, aliás, era uma moça muito bonita – cheia daquela beleza que, por não encaixar nos padrões absurdos e surreais que jogam todos os dias para cima de nós, acaba sendo assumida por muitos como beleza menor, ou como se nem beleza fosse. Era bonito o modo como ela sorria enquanto falava, um sorriso de dentes perfeitos e de uma alegria despretensiosa e sem disfarces. Era  bonito o modo como ela prendia o cabelo em um pequeno coque logo acima da nuca, e era bonito o pescoço que surgia pela gola da blusa cor de vinho que aquela moça vestia. Era bonita a cintura que às vezes se revelava entre a mesma blusa cor de vinho e o jeans sem cinto que a moça usava, e e era bonita a maneira como ela se inclinava de leve para ver se o ônibus vinha de trás da curva da rua. E eu confesso que fiquei ali, admirando discretamente aquela beleza que talvez nem se soubesse bonita, um pequeno e agradável consolo no meio daquela metrópole encharcada de trânsito, de chuva e de solidão.

Ficaram as duas ali talvez uns cinco minutos, rindo e conversando, até que o ônibus chegou e as levou para algum lugar longe do meu mundo e da minha vista. Fiquei de novo sozinho, eu e minhas ideias, eu e meus pensamentos, eu e minhas incertezas. Tudo bem, já estou me acostumando com essas companheiras, sempre presentes nos meus momentos de solidão. Passei com certeza uns dez minutos mais ali, sozinho, as pilhas do mp3 player gastas, ouvindo apenas o som da chuva e o compasso repetitivo dos meus pensamentos. Até que alguma coisa me disse para dar uma olhada para trás, para os assentos de ferro coberto de gotas de chuva, e o que eu vi? Um guarda-chuva. Um guarda-chuva enorme, vermelho e chamativo – que logo reconheci como o guarda-chuva da moça bonita que até menos de quinze minutos havia estado ali, naquela parada de ônibus, alegrando um pouco meus olhos enquanto esperava condução para a casa. Aparentemente, a moça o deixou ali por algum motivo qualquer, talvez para que o excesso de água escorresse, talvez para ajeitar alguma coisa nas suas roupas ou pegar algo na bolsa ou qualquer coisa do tipo – e, na pressa de subir no ônibus, o esqueceu atrás de si, deixando-o deitado entre os assentos pronto para ser útil a algum anônimo da cidade. Mais especificamente, para mim, esse humilde servo que ora vos digita.

Hesitei um pouco, admito. Me pareceu coincidência demais, um guarda-chuva enorme daqueles, esquecido em cima de uma fileira de assentos em um momento em que chovia tanto naquela área da cidade. Estaria quebrado? Peguei e testei rapidamente o bichinho: uma das pontas estava solta, mas fora isso funcionava perfeitamente. Ninguém em sã consciência deixaria intencionalmente para trás aquele guarda-chuva só por causa desse defeitinho de nada… Num dos cantos do tecido, estava o logo do Shopping Pátio Paulista, e uma mensagem alusiva ao 455º aniversário de São Paulo – coisa que, segundo me diz o Google, aconteceu nesse ano da graça de 2009, ou seja, o guarda-chuva era bem novinho no fim das contas. Enfim, pensei um pouco, medi os prós e contras da situação, e não deu para disfarçar um sorriso quando finalmente decidi aceitar a gentil oferta do Destino, abrir o guarda-chuva e encarar, agora totalmente protegido da tormenta, o caminho de volta para casa.

Ainda não me decidi se foi a moça quem, sem saber, me deu um singelo presente de Natal, ou se foi a cidade de São Paulo que, por meio dela, resolveu mandar um sinal de que vai com a minha cara e quer me ver de volta no ano que vem. Na verdade, podem ser as duas coisas ao mesmo tempo, por que não? Seja como for, fiquei sinceramente muito agradecido, e aproveito o final da historinha para desejar um Feliz Natal para a moça bonita da parada de ônibus, para a cidade de São Paulo e para todos vocês, queridos e persistentes leitores, que de um modo ou de outro me acompanharam nessa jornada maluca e emocionante 2009 adentro. Pretendo publicar mais dois textos aqui até o fim do ano: uma lista dos meus melhores discos de 2009 (que não saíram necessariamente em 2009, como vocês verão) que deve aparecer na véspera de Natal e um derradeiro post na finaleira do ano, fazendo do melhor modo possível a retrospectiva desse ano que foi, definitivamente, o mais bonito e cheio de lições de toda a minha vida adulta. Um grande abraço, e a gente se vê em seguida.

Voltei ontem de uma breve viagem ao Rio de Janeiro. Imagino que os meus poucos e gentis leitores tenham o primeiro impulso de pensar: “nossa, que legal! Visitou o Redentor? Farreou na Lapa? E as fotos?” Mas não, amigos/as, eu não fui no Rio de Janeiro dos turistas, aquele onde as praias são belas, as noites cheias de alegria e do qual as pessoas vão embora pensando em quando vão poder voltar. Eu fui até o Rio de verdade, o Rio da pobreza e da vida difícil, onde as pessoas exercitam a arte de viver da fé e as paisagens não rendem um cartão postal. Na minha primeira visita ao Estado do Rio de Janeiro, fui a trabalho para Nova Iguaçu e Belford Roxo, o que faz de mim um dos “turistas” menos comuns de se encontrar por aí. E, vocês já podiam imaginar, me traz algumas reflexões que preciso despejar em algum lugar.

Na verdade, o objetivo mesmo era em Belford Roxo – mas, como simplesmente não existe onde se hospedar na cidade, eu e a equipe com a qual estou envolvido ficamos no Mont Blanc Hotel, que imagino eu ser o melhor – se não o único – de Nova Iguaçu. Um bom hotel, sem a menor dúvida – do tipo que deixa o ar condicionado do quarto ficar ligado o dia todo, sabendo que tu vai chegar todo suado e desesperado por um ambiente fresco para descansar. Deu para dar uma pequena explorada na cidade, o que inclui conhecer o shopping próximo do hotel, a área dos barzinhos (que imagino ser umas três quadras, se isso), o terminal rodoviário da cidade (que fica de frente para o hotel e, me perdoem os nativos, é feio que dói) e algumas coisas nas redondezas, tipo a Praça do Skate, um pracinha que me pareceu bem pequena mas que por lá serve de ponto de referência. Nos falaram de duas baladas fortes na área, a do Exclusiv e do Gregos e Troianos – se as grafias estão erradas, me perdoem, eu só ouvi falar e não li os nomes em lugar algum. Mas como fomos embora na sexta mesmo, nem se eu quisesse poderia ter me aventurado na night de Nova Iguaçu – onde, nos disseram, faríamos “sucesso” já que éramos “gente de fora”… Enfim, ao menos engraçado teria sido. De qualquer modo, ficou a impressão de uma cidade simples, bem subúrbio mesmo, cheia de gente humilde e trabalhadora. Um lugar que eu gostaria de explorar um pouco mais, tivesse tido mais tempo…

Belford Roxo sim, é o lado mais sujo e violento do RJ exposto abertamente para quem quiser ver. O parque industrial da Bayer, que é por assim dizer o coração econômico da região, está tristemente cercado de pobreza por todos os lados. Meio por acaso, acabamos conhecendo o Gogó da Ema, supostamente a parte mais perigosa da cidade, e rapaz… O negócio é de cortar o coração, ao mesmo tempo que dá um medo considerável. É difícil descrever, mas fiquei com a nítida sensação de que aquele era um lugar hostil a mim – afinal, eu era um cara de classe média e pele branca no meio de casas precárias e pessoas miseráveis, e o Corsa que nos levou até lá era uma Ferrari naquele ambiente, como bem descreveu o Heitor, um dos meus colegas de empreitada. No mais, muita pobreza, muita sujeira, muito descaso e muito abandono por todos os lados. Aparentemente, o poder público não funciona muito bem por lá – e o resultado, obviamente, é o crescimento dos poderes paralelos, se é que me faço entender. Não é o que parece ser na capital do Estado, um contraste entre luxuosos condomínios e favelas paupérrimas – em Belford Roxo o negócio é pobre mesmo, e a escala vai dos humildes até os desgraçados, não vi gente rica em lugar algum. E em termos de segurança, bem, basta eu citar que vi um mero guarda de trânsito com um tremendo revólver na cintura para perceber que o negócio é um tanto tenso por lá…

De qualquer maneira, pude notar algo em comum nas pessoas que lá vi e conheci, uma espécie de sentimento comum que as unia: uma filosofia de vida, digamos assim. Tanto em Belford Roxo quanto em Nova Iguaçu, as pessoas parecem apreciar a vida de um jeito um pouco diferente – não sei se me faço entender, mas é como se elas esperassem menos da vida do que eu ou as pessoas com as quais eu geralmente convivo. E isso não num sentido necessariamente ruim: elas simplesmente conseguem se sentir felizes com o que possuem ou com o pouco que conseguem, ao invés de sofrerem aquela coisa de sempre querer mais e nunca estarem satisfeitas. Isso pode ser negativo por um lado, já que leva muitas aquelas pessoas a aceitarem coisas as quais ninguém deveria ser submetido. Mas por outro lado, de uma maneira talvez esquisita, elas estão quase bem, elas se viram, elas são em sua maioria pessoas boas que sorriem com pureza e do fundo do coração. E todos nós, os que reclamamos de barriga cheia, os que ficamos de braços cruzados e permitimos que elas sejam forçadas a viver certas privações, temos MUITO o que aprender com elas. E, em comparação, algumas coisas das quais nos envergonharmos, inclusive. Se o espírito carioca é, como dizem, um sentimento descontraído diante da vida, o pessoal da Baixada Fluminense certamente o carrega dentro de si – e de uma forma, suspeito eu, muito mais verdadeira do que a que se percebe nas ruas e atrações do Rio de Janeiro moldado para agradar turistas. Tenho certeza que foi ótimo começar a conhecer o RJ por aí, sem viciar meu olhar com praias bonitas, moças de biquíni e farras na Lapa ou Botafogo. Cada estado é o povo que nele habita, e a realidade pode não ser mais bela que a ficção turística, mas certamente vale mais a pena. Pelo menos para mim. E não, não bati fotos do Rio – fica para a próxima…

Sim, amiguinhos (as) que leem (ou não) esse blogzinho: consegui assistir o AC/DC em São Paulo. E acreditem, foi uma maratona que envolveu grande insistência, algumas apostas e um bocado de teimosia. Como quem lê aqui sabe, e os frequentadores eventuais podem imaginar, não disponho eu de uma renda fixa que permita gastos elevados no momento – e ingressos para qualquer show internacional estão, com certeza, incluídos nessa categoria. A chance, portanto, era entrar por meios não-monetários – ou seja, conseguir uma das sempre concorridíssimas cortesias, que em se tratando de AC/DC seriam ainda mais disputadas do que de hábito. Complicado, mas não impossível, visto que consegui uma delas e agora estou prestes a fazer uma resenha do show… Alegria, muita alegria, podem ter certeza.

Pouparei os leitores dos detalhes da saga em busca do ingresso – que começou logo depois que o show foi anunciado e acabou menos de meia hora antes do show começar, em uma prova de que quem não arrisca realmente não petisca é coisa nenhuma nessa vida. Vamos direto para a noite do show, mais precisamente para o temporal que desabou em boa parte de SP pouco menos de duas horas antes do show, e que encarei no carro onde peguei carona, acompanhado do grande Seu Luis (um dos anjos que me hospedam nessa cidade dos infernos, só para não perder o trocadilho) e seu filho Luciano, um dos meus acompanhantes na epopéia. Um caldo daqueles, chuva da grossa mesmo, que felizmente não durou muito tempo mas mesmo assim serviu para atrapalhar a vida de todo mundo que ia em direção ao Morumbi. Chegar no estádio do São Paulo Futebol Clube é naturalmente difícil pela escassez de acessos àquela área da cidade – e com o pé d’água, compreensivelmente, tudo ficou ainda mais lento e penoso. Foi quase engraçado avistar o enorme e já legível letreiro do Cícero Pompeu de Toledo e levar quase uma hora até de fato chegar na entrada do estádio. Uma novela que seria quase dramática, já não estivesse eu no espírito “vamos ver que bicho dá” naquela noite.

Finalmente lá, fiquei um tempo esperando para que as pessoas que nos acompanhariam aparecessem – o que me deu tempo de dar uma olhada no tipo de pessoas que, afinal das contas, estavam encarando aquele tempo e aquele engarrafamento para ver os australianos. E olha, era realmente todo tipo de gente que se possa imaginar. Cabeludos com camiseta do Slayer, belas moças usando tops e botas de cano alto, pessoas em trajes executivos, emos (sim, emos num show do AC/DC), pré-adolescentes, jovens senhores, respeitáveis vovôs (vi um casal de pelo menos 70 anos cada um, usando os chifrinhos luminosos e tudo), mulheres na flor da idade e até mesmo uns dois ou três caras com camiseta do Grêmio, o que muito me alegrou. Ou seja, gente de todas as cores e credos, uma multidão de fãs de rock n roll diversificada como poucas vezes tinha visto em minha vida, se é que já tinha visto algo parecido. Sinal claro do quanto o som do AC/DC é universal, e atinge as mais diferentes tribos e camadas sociais. Todos prontos para o rock – bonito, sem dúvida.

Depois de tomar uma cervejinha para relaxar a tensão (lembrem-se, eu tinha ido para lá segurando na mão de Deus, sem certeza nenhuma de que ia conseguir entrar) e de alguns momentos de expectativa, eis que finalmente consigo ter em mãos o passe milagroso que me levaria para um dos shows que eu não poderia morrer sem ter visto. Me atrapalhei nos portões, tive que fazer um tour pelos interiores do Morumbi, mas acabei achando meu caminho pelo Portão 16, que conduz às cadeiras laterais. Chegando lá, um empurrãozinho ali, um com licença lá, e acabei conseguindo avançar o suficiente para enxergar razoavelmente bem o palco. Fiquei meio na lateral esquerda, mais ou menos perto de um dos telões, mas consegui enxergar tudo bem, mesmo de longe. Ou seja, não foi a posição dos sonhos, mas considerando que estive muito perto de ficar ouvindo tudo do lado de fora, e que acabei entrando sem pagar o ingresso, convenhamos que não dá para reclamar…

OK então, vamos ao show. Não que tenha tanta coisa impressionante assim para se falar sobre ele, na verdade. Se o leitor/a já assistiu algum DVD da banda, já sabe muito sobre o que se vê num show dos caras – e eles fazem questão de não mudar muito, mesmo porque eles não fazem turnês todo ano e sabem que a maioria dos fãs estará ansiosa para ver ou rever basicamente as mesmas coisas. Dito isso, foi um setlist bem equilibrado, com algumas escolhas não tão óbvias assim (tipo “Hell Ain’t a Bad Place to Be” e “Dog Eat Dog”) e quatro músicas do novo CD “Black Ice”, uma quantidade bem aceitável para o meu gosto. Das novas, “Rock ‘n’ Roll Train” abriu o setlist com autoridade, com direito a um enorme trem aparecendo após a introdução em vídeo – era a locomotiva do AC/DC chegando, o que foi uma abertura bastante adequada. “Black Ice” é bacana, mas não é uma música que faria tanta falta assim no setlist – “Big Jack” e “War Machine” encaixaram bem melhor no esquema do show, na minha opinião. A primeira é um tremendo rock daqueles que não tem como ficar parado, e a segunda é um som um pouco mais pesado com um refrão bem legal para cantar ao vivo. De modo geral, podemos dizer que as músicas novas não destoaram quase nada no meio dos velhos clássicos, prova de que os caras ainda sabem melhor do que ninguém os atalhos para compor bom rock ‘n’ roll.

E quanto aos velhos clássicos, bem… Dizer o quê? “Back In Black”, “T.N.T.”, “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, “Hells Bells”, “Let There Be Rock”… É praticamente um intensivo do melhor do rock ‘n’ roll! O refrão de “Highway to Hell”, por exemplo, foi cantado pelo público num volume bem mais alto do que a música que vinha dos PAs, e em “Shoot to Thrill” vi um jovem senhor dos seus talvez cinquenta anos, até ali comportado e de braços cruzados, deixar a discrição de lado e dançar como se não houvesse amanhã. Foi inevitável para mim pensar nas (não muitas) mulheres safadas que passaram pelas minhas mãos durante “The Jack” e “Whole Lotta Rosie” – do mesmo modo que foi igualmente automático mentalizar as (também não tantas) moças mais, digamos, significativas na minha vida durante “You Shook Me All Night Long”. E durante uma música tipo “Thunderstruck” confesso que não pensei em porcaria nenhuma, apenas gritei e agitei ao máximo, descarregando todas as tensões e frustações da vida na forma catárquica de um bom rock ‘n’ roll. Poucas coisas funcionariam tão bem nesse sentido, podem acreditar.

E uma coisa deve ser dita: esses caras de fato dão tudo de si durante um show. É muito evidente que ninguém está fazendo tipo, que não se trata de um negócio ou de uma formalidade – os caras estão lá de corpo e alma, tocando o que amam tocar e fazendo o que sabem fazer melhor. E como sabem! Phil Rudd e Cliff Williams são a cozinha perfeita, segurando a onda com a simplicidade elegante dos que sabem que competência não se compra numa loja de 1,99. Malcolm Young é, com certeza, a espinha dorsal da banda – o cara que segura a onda o show inteiro, mantendo as bases com uma perfeição absoluta e fazendo aqueles backings maravilhosamente doentios que só ele sabe fazer. Brian Johnson, um moleque de 62 anos de idade, agita sem parar e tem uma presença de palco inconfundível, incorporando seu papel de tiozão rocker com uma autenticidade não menos que hipnótica. E Angus Young é tudo aquilo que se diz dele, e ainda mais. Moveu-se incansavelmente o tempo todo, seus solos foram perfeitos (e o improviso em “Let There Be Rock” durou 18 minutos e meio, se o meu relógio não me traiu) e seu carisma é absoluto, incitando a galera e cumprindo com convicção seu papel de lenda imortal do rock. Trata-se, efetivamente, do único strip-tease masculino que eu pagaria, e com gosto, para assistir… Vê-lo fazer seu clássico movimento meio-dança-meio-chute-no-ar foi durante anos uma das minhas grandes aspirações como fã de rock e metal, e se realizou ontem no Morumbi. Deus, definitivamente, foi muito legal comigo…

Em suma, um showzaço – daqueles que a gente até poderia ficar triste quando acaba, não fosse a última música “For Those About To Rock” e a gente não estivesse entretido demais se divertindo para pensar em qualquer tipo de tristeza. Espero que sejam verdadeiros os boatos, e que eles mantenham-se na ativa quando essa tour acabar – afinal, só a esperança de assisti-los uma vez mais vale, e muito, a pena. Quem sabe na próxima tour rola “Moneytalks”, “Touch Too Much”, “Rock  ’n’ Roll Ain’t Noise Pollution” ou, sonho supremo, “It’s a Long Way To The Top – If You Wanna Rock ‘n’ Roll”? Não sejam chatos, deixem-me sonhar, por favor. E agora falta menos um nome na minha lista dos shows que precisam ser vistos antes de morrer – uma lista condenada à incompletude, mas enfim, o importante é ter um objetivo na vida…

As fotos eu roubei desavergonhadamente do Whiplash. Qualquer coisa, tiro elas do ar, se os autores pedirem.

Das incontáveis esquinas pelas quais tenho passado nas minhas andanças por São Paulo, uma delas talvez mereça um pequeno destaque. Trata-se do cruzamento da Avenida Brigadeiro Luís Antônio com a Rua dos Ingleses, que eu imagino que seja ainda na Bela Vista, embora não seja exatamente a esquina mais bonita da cidade. Passo por ali mais ou menos seguidamente, especialmente quando vou encontrar a Pati para uma conversa sobre a vida regada a alguns copos de cerveja. Para os que conhecem as ruas de São Paulo pelas referências da Corrida de São Silvestre (tudo bem, eu também era assim), digo que a Brigadeiro não é o que parece pela TV – trata-se de uma avenida sem muito encanto, que poderia ser bela se os seus prédios mais históricos não tivessem todo o jeito de terem servido de carvão para churrasco, e que é pouso cotidiano de uma série de mendigos e desgraçados de todas as cores e idades. A Rua dos Ingleses, por sua vez, é bem mais bonitinha, com belos jardins, sacadas e prédios daqueles que precisa ser alguém rico apenas para cogitar pagar o condomínio. O trecho que se encontra com a Brigadeiro, no entanto, não é dos mais bucólicos – de modo que, se quiséssemos traçar um paralelo entre mundos diferentes que se cruzam numa esquina, teríamos que procurar outro endereço, porque no cruzamento da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses tudo é mais ou menos a mesma coisa, para o bem e para o mal.

Mas enfim, tergiverso. O que de fato interessa na citada esquina é a barreira colocada dos dois lados da via, saindo da esquina da Brigadeiro e avançando alguns metros dentro da Rua dos Ingleses. A ideia, basicamente, é aumentar a segurança de pedestres e motoristas. O cruzamento é bastante movimentado, sendo uma das vias mais comuns de escoamento de carros para quem quer sair da Brigadeiro – e somando isso à geografia do lugar, capaz de ocultar pedestres que atravessem descuidados a rua, torna-se necessário uma grade do tipo para diminuir o risco de atropelamentos e demais acidentes. É um pequeno incômodo: ao invés de atravessar diretamente na esquina, o transeunte que vai pela Brigadeiro é forçado a subir um pouquinho a Rua dos Ingleses e atravessar uns dez metros adiante, onde fica mais fácil ver os carros que se preparam para subir a rua, oriundo dos dois sentidos da avenida.

Quer dizer, era para ser assim. Porque na verdade a preocupação do poder público com o bem estar do cidadão já foi suplantada, sendo substituída pela praticidade pouco responsável, mas eficiente no que se propõe. Algumas das armações metálicas que constituem a barreira foram torcidas, ou por meios mecânicos ou por insistência humana mesmo, e acabaram abrindo espaço para que as pessoas possam atravessar pelo meio delas, chegando ao outro lado da via sem ter que fazer o indesejado trajeto extra. Ou seja, criou-se um atalho no meio da barreira, automaticamente transformando a barreira inteira em pouco mais do que uma peça decorativa, um estranho pedaço de bizarra arte conceitual no meio da imensidão cinzenta. Perdi a conta de quantos eu vi passando pelos espaços abertos no meio daquele cercado já quase inútil – homens, mulheres, crianças, trabalhadores e vagabundos de todos os tipos, esgueirando-se entre o espaço aberto e cruzando rapidamente de um lado a outro, alheios a tudo a não ser suas próprias necessidades e urgências.

Estou a semanas perguntando a mim mesmo por que, no fim das contas, eu ignoro o espaço no meio da barreira e sempre acabo fazendo todo o trajeto, atravessando certinho no lugar indicado. Na verdade, é algo automático: eu simplesmente contorno o cercado, sem pensar no que estou fazendo, atravesso para o outro lado e só quando estou de novo na Brigadeiro é que me dou conta de que, mais uma vez, fiz o caminho mais longo. Sim, claro que é um dilema dos mais insignificantes; mas, por outro lado, me intriga essa atitude simples e mecânica, esse condicionamento a fazer algo que não é fisicamente necessário, e fico matutando sobre o que me leva a agir dessa maneira. Ainda mais reparando que praticamente ninguém age do mesmo modo, que escassos são os que se dão ao trabalho de atravessar no lugar certo, tendo a oportunidade de cruzar por entre as armações e chegar mais rápido do outro lado. Minha última lembrança nesse sentido é a de uma velhinha bem miúda, amparada por alguma parente ou acompanhante, que atravessou vagarosamente a rua e que, obviamente, não tinha condições físicas de fazer a pequena transgressão que os demais fazem de modo quase automático todos os dias. Não era o meu caso, no entanto – não vendo saúde, certo, mas tampouco teria problemas em fazer um pequeníssimo esforço de contorcionismo e atravessar pelo meio das grades. O que, então me impede? Preguiça? Medo de ir contra a lei? Cabeça dura? Conveniência?

Acho que a resposta me ocorreu agora a pouco, ao lembrar outra pessoa que vi atravessando a via no ponto correto, em direção contrária à minha. Era tarde da noite já, início de madrugada de um dia de semana, e o homem que vi era humilde, um negro de bermudas velhas e chinelos de dedo. Alguém que talvez more em algum cortiço próximo, e que havia certamente estado em algum boteco tomando cachaça antes de retornar para o relativo aconchego do lar. Vinha em passos lentos, mas não exatamente trôpegos, e tinha um pequeno sorriso no rosto, como quem está perdido em recordações leves e agradáveis. Duvido que tenha reparado em mim; passou reto, sem hostilidade mas sem interesse, andando devagar de volta para onde quer que fosse o lugar que chamava de lar. Eu, da minha parte, reparei nele, e especialmente no fato de que atravessou a esquina da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses de modo seguro e exemplar, como certamente teria sido recomendado por qualquer manual da Prefeitura. Tranquilo, sorridente, relaxado pelo álcool talvez, mas certamente sem pressa. Sem pressa nenhuma.

Acho que é isso, sabe? Isso é que me une a ele, isso que me une à velhinha e as outras poucas pessoas que vi atravessando aquela rua bem certinho, na faixa, sem passar por cima de barreira nenhuma: não temos, nenhum de nós, pressa nenhuma de chegar do outro lado. Quem corre são eles, os que têm trabalho, os que têm família, compromissos, obrigações, os que têm tudo, menos tempo a perder. Eu não sou um deles – e acho que mesmo que estivesse empregado, bem feliz da vida, ou mesmo num futuro com esposa, filhos e prestações me esperando, eu continuaria não sendo um deles. Porque eu estou aprendendo, e isso é uma das grandes lições desse 2009 maluco que estou tendo, que ter pressa não adianta nada; o negócio não é a rapidez, e sim a insistência. A vida não é uma corrida, não é uma competição de quem chega primeiro, e cada vez mais me parece que ninguém vence ou perde no final. Atravesso a esquina da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses no lugar indicado porque não tenho motivos para fazer diferente, e nenhuma vontade de me apressar. Acho que, agora um pouco melhor do que antes, entendo o que o Prof. Ungaretti sempre dizia sobre o jornalista ter que manter sempre a alma de um vagabundo. Se a gente corre demais, não aprecia a paisagem – e é isso que o negro de bermudas e cachaça na cabeça estava fazendo: ele estava, simplesmente, apreciando a paisagem. Sem pressa de chegar. Gosto de pensar que, no fundo, estou fazendo o mesmo, sabe? Mesmo porque, por mais cinzenta que seja, São Paulo sempre tem alguma paisagem para apreciar.

EM TEMPO: abri uma conta no Recanto das Letras, uma indicação do Jovem Posselt. Um lugar bacana, onde pessoas de todo o Brasil publicam seus trabalhos e onde colocarei sempre que possível parte da minha produção literária. Com a vantagem de ficar tudo protegido por Creative Commons, o que é bem útil e interessante. Estão todos convidados, desde já, a darem uma passadinha lá de vez em quando. Obrigado.

Estou meio irritadiço e de saco cheio. Acabaram com meu 2009 antes da hora – há pelo menos duas semanas tem árvore de natal na rua, o que para mim é um desaforo – e com isso anteciparam minhas reflexões de fim de ano, justo num momento em que eu já tenho reflexões mais do que suficientes para ocupar a minha pobre cachola. Como eu ando tentando muitas coisas, e a maior parte delas não dá certo, resolvi exorcizar pelo menos algumas delas por meios pseudo-artísticos, que daí eu posso concentrar meu pensamento positivo no que de fato adianta alguma coisa nesse momento ou-vai-ou-racha-já-quase-rachando da minha vida. Esse é apenas um pequeno trecho de uma longa letra que escrevi hoje, e que vou dar uma arrumadinha antes de considerá-la pronta. Fica aí para fazer aquela encheção de linguiça, enquanto um post mais significativo não vem.

Did this new man that stands ever thought beforehand
That the death of his old self was meant all along?
All the tears and the fear, rearranged to appear
Like the verses of a brand new song?
Will this knowledge you own stay with you when you’re gone?
Or will it fade like a faith in a godless bliss?
Can this long lost embrace
Leave a smooth aftertaste
Just as sweet as a last goodbye’s kiss?

Ok, ok, sei que isso aqui anda literário-inconsequente demais – vou tentar maneirar daqui por diante. Por enquanto, lá vai:

Era uma vez um rapaz que resolveu sair para tomar chuva. E fazia tempo que não chovia naquele mundo, para falar a verdade. Os escritores por aí gostam de falar de raios trovões que bagunçam e chovem todos os dias, mas às vezes se esquecem, por desatenção ou por desinteresse lírico, de falar dos trovões que nunca soam, das chuvas fugidias que nunca caem e acabam não bagunçando coisa nenhuma. Eis como era a situação do tempo no mundo do rapaz em questão – sol entre nuvens, um dia mais úmido ali, uma semana de ar seco ali, mas chuva mesmo não caia nunca.

Até que apareceu uma grande nuvem cinzenta no céu daquele mundo, e o rapaz animou-se bastante com aquilo. Era uma nuvem vendaval céu preto trovoada que prometia uma chuva daquelas, o que era uma tremenda novidade e deixou o rapaz imediatamente atento e com os olhos e ouvidos bem abertos. Estava longe ainda, não dava para ter certeza de quão grande era a nuvem e de quanta chuva trazia dentro de si – e, como a coisa toda estava demorando bastante para se aproximar, o que era animação foi virando ansiedade e o rapaz começou a ficar preocupado. Era só o que faltava, depois de tanta espera e tanta promessa, o trovão virar estalinho e a chuva virar vento molhado. Uma brisa gostosa vinha da direção na qual a nuvem surgia, trazendo um frescor agradável e um cheiro bom de terra molhada. O rapaz gostava daquilo, mas não achava que fosse o suficiente, e começou a caminhar na direção da nuvem, com uma ideia absurda na cabeça de que, se chegasse mais perto, a espera ia diminuir e ia ter mais chuva na qual se molhar.

Ficou andando o rapaz por um tempinho, mas a nuvem não parecia estar mais perto – na verdade, ela parecia estar se distanciando, como se um vento inoportuno surgisse sabe-se lá de onde para levá-la embora e fazê-la chover em outra freguesia. Começou a andar mais rápido, quase correr, mas não dava jeito de conseguir se aproximar da nuvem vento contrário relâmpago surdo não posso chover aqui desculpe até outro dia. Foi atrás dela por um bom tempo ainda, cada vez menos esperançoso, até que parou, frustrado e cansado, fechando os olhos enquanto tentava recuperar o fôlego.

De repente, assim mesmo sem aviso e sem sentido, começou a chover. Uma chuvinha bem leve de início, uma chuvinha ventinho frio barulho na janela carícia no rosto que pegou o rapaz de olhos fechados totalmente desprevenido, tanto que ele levou um tempo até perceber que de alguma maneira ele tinha alcançado a nuvem ou a nuvem tinha ido em direção a ele ou ambos ou nem um nem outro enfim não faz diferença. Abriu os olhos, viu encantado a chuva fraca caindo, sorriu com a timidez de quem nem lembrava que uma chuva de vez em quando podia ser tão agradável e bem-vinda. E ficou na chuva, e deixou que a chuva chovesse.

E então, tão de repente quanto tinha chegado, a chuva fraca dobrou-se num barulho de trovão e virou um temporal daqueles de meter medo. Uma chuvarada barulhão luz de relâmpago guarda chuva quebrado rua alagada engarrafamento que surpreendeu muito o rapaz, ao mesmo tempo que o deixou extasiado. Mal acostumado que estava, achava ele que qualquer garoa de quinta-feira à tarde era digna de ser chamada de chuva, de modo que nunca tinha imaginado que uma chuva pudesse ser tão forte, tão bonita e tão poderosa. Ficou totalmente encharcado em questão de instantes, e achou aquilo simplesmente sensacional, fechando de novo os olhos para saborear a sensação.

Pena, para o rapaz, que o temporal foi rápido – e parou tão de repente que, não estivesse o rapaz ensopado da cabeça aos pés, poderia até pensar que nunca tinha chovido. A chuva sumiu num vento gelado calçada molhada passarinho cantando chovi demais nem devia ter chovido chega de chuva adeus boa sorte, e veio um sol forte, um sol de protetor solar fator 50 para cima, um sol daqueles que parece dizer já era, rapaz, aqui não vai chover é nunca mais se depender de mim. Aceitou bem até o rapaz aquele final abrupto; afinal, uma chuva bonita e forte como aquela não podia mesmo ser normal. Ficou triste, mas ao mesmo tempo satisfeito de ter saído para tomar chuva, e resolveu ficar um tempo no sol, para ver se ficava seco e podia então voltar para casa.

Mas, e isso era uma coisa engraçada, ele nunca ficava plenamente seco. Por mais tempo que passasse, sempre parecia que tinha uma dobra da camisa, um espaço entre a meia e o tênis, algum lugar que continua molhado com as águas daquele temporal cada vez mais distante na memória. E dependendo de como o rapaz se mexesse, dependendo de como movesse a cabeça ou balançasse os braços ou olhasse para o horizonte, a descoberta de uma nova região úmida causava um calafrio dolorido, uma sensação debaixo da pele que era fria e quente ao mesmo tempo, uma espécie de dor que não doía mas que mesmo assim dava vontade de chorar.

Ficou um tempo bem grande ali, esperando que algo acontecesse, embora não soubesse àquela altura o que estava esperando no fim das contas. Então decidiu ir embora. Olhou rapidamente para o sol, que continuava ardendo como se fosse o único e eterno dono do céu, e começou a caminhar de volta para o mundo de sol entre nuvens do qual tinha saído. E foi com um susto e com uma correria no coração que viu o fiapo de nuvem cinza, bem longe na fronteira do céu com a terra, tão distante que um pouco mais de desatenção e o rapaz nunca teria reparado. Era parecida com a nuvem que tinha visto antes, a que tinha chovido tão bonito e o deixado todo molhado, mas podia muito bem ser uma nuvem diferente, de uma outra qualidade de chuva: estava muito longe, e ele não conseguia ter certeza. Ficou olhando, e começou a lembrar do vento gostoso, do cheiro de terra molhada e de tudo que tinha vindo depois daquilo.

Ficou na dúvida: ia até lá, ou ficava esperando? Tinha sido uma linda chuva, mas a sensação de estar todo molhado no meio do sol tinha sido muito ruim, e ele ainda lembrava, e ele tinha medo de sentir aquilo de novo. De mais a mais, estava tão longe… Hesitou um tempo, mas na verdade a hesitação era apenas da sua mente: seus pés já estavam andando na direção da tempestade.

Era uma vez um Homem que, de uma hora para a outra, percebeu-se sem Perspectivas. Foi uma consciência muito repentina, e tão inesperada que pegou o Homem completamente de surpresa. Naquele instante inicial, sua reação foi de choque, quase de terror; sentiu-se indefeso, exposto ao ridículo como alguém que sonha estar nu em um escritório ou em sala de aula. Tratou de esconder sua falta de Perspectivas como pôde, disfarçando-a com sorrisos e frases de efeito, enquanto procurava um lugar no qual pudesse ficar sozinho e contemplar essa estranha e inesperada ausência.

Por mais que tentasse, foi incapaz o Homem de lembrar exatamente quando e como, no fim das contas, havia perdido suas Perspectivas. Teria ele, talvez, as esquecido dentro do ônibus, enquanto ia ou voltava do trabalho? Deixado alguma moça bela e perigosa levá-las consigo, entre beijos em uma pista de dança ou entre lençóis de uma cama de motel? Teria o Homem vendido suas Perspectivas em troca de uma casa bonita, um carro novo, um pouco de conforto, fins de semana livres, uma noite de sono? Ou talvez suas Perspectivas teriam simplesmente ido embora, cansadas de não servirem para nada, chateadas com a omissão do Homem, com sua falta de interesse e consideração? Essa última ideia, em especial, enchia o Homem de medo; pois se suas Perspectivas tinham o abandonado por vontade própria, de nada adiantaria procurá-las, pois elas se recusariam a voltar. Terrível, aquela sensação. De qualquer modo, não sabia o Homem como havia se dado a perda de suas Perspectivas, e por dias e dias ficou a remoer essa ausência, tentando entender onde havia errado, buscando de novo e de novo respostas para uma pergunta que sequer era capaz de formular com clareza.

Depois de algum tempo, conformou-se o Homem a não ter mais Perspectivas, e voltou aos poucos ao convívio dos seus, tentando ao máximo portar-se como antes, ver as coisas como antes, agir como se nada tivesse se perdido pelo caminho. Mas era difícil: uma vez percebendo que não tinha Perspectivas consigo, ficava o Homem incapaz de agir como antes, quando as tinha por perto ainda que não as notasse. Além disso, a convivência com as pessoas, antes tão agradável, tornava-se para ele amarga, cinzenta, quase uma tortura dependendo do dia e da situação. Via pessoas cercadas de Perspectivas que as ignoravam quase completamente, outras inclusive já sem nenhuma Perspectiva a seu lado, e vê-las totalmente alheias provocava no Homem calafrios de ódio. Por que, em nome de Deus, não conseguia o Homem ser como aquelas pessoas, ignorar totalmente o fato de não mais ter Perspectivas, viver dias sem significado com a alegria dos que simplesmente não se importam? E os que tinham Perspectivas, e as cultivavam, esses enchiam o Homem de um desconsolo que beirava a depressão. Pois aqueles Homens e Mulheres lembravam a ele que talvez tivesse perdido as suas Perspectivas para sempre, algo que sentia ter sido valioso e agora temia nunca mais poder recuperar. Aquelas pessoas, que andavam felizes ao lado de suas Perspectivas, tinham sido mais sábias e atentas do que ele próprio, e ao Homem pesava como chumbo a dor dessa constatação.

O outono virou inverno, o inverno reacendeu-se na primavera, a primavera ardeu em chamas no verão – mas para o Homem sem Perspectivas tudo era a mesma coisa, todos os dias eram cinzentos, todas as horas arrastavam-se dolorosamente rumo a um futuro que nada mais era do que uma extensão insossa do presente. Convencido pela próprio tristeza de que jamais reencontraria suas Perspectivas, entregava-se o Homem a uma Vida sem viver, a uma espera amarga pelo último suspiro, torcendo talvez para que a névoa dos dias nublasse sua consciência e o fizesse esquecer, enfim, que um dia Perspectivas haviam estado presentes em sua existência. Esqueceu muitas coisas, nesses dias que passaram sem que ninguém os tivesse contado – mas foi incapaz o Homem de ignorar completamente aquele espaço vazio dentro de si, por mais que o tentasse preencher com o que quer que parecesse adequado no momento. Tentou anestesiá-lo com bebida, apagá-lo com distrações eletrônicas, esquecê-lo nos braços e carícias de mulheres sem nome. Tentou cansar-se, desgastar-se, exaurir a si mesmo até que nada restasse, até que pudesse apenas jogar-se na cama e dormir por um longo tempo, dormir uma vida inteira, acordar renovado e esquecido de tudo que não estava certo em si e no resto do mundo. Mas por maior que fosse o sono, sempre acabava despertando – e, por mais que dormisse, nunca havia sido o suficiente.

Até que um dia, andando silencioso por uma rua cheia de som e vazia de harmonias, o Homem sentiu algo diferente. Não soube precisar, naquele exato instante, o que o havia atingido – foi algo fugaz, uma lufada de vento, o suave toque de uma Mão que escondeu-se antes que ele pudesse vê-la ou agarrá-la. De onde teria vindo? Foi para o Homem um momento febril; era como algo novo e ainda assim conhecido, uma sensação de reencontro indefinida e que pressionava seu peito com tanta força que deixava-o quase sem ar. Olhou para os lados, para os rostos indiferentes ao seu redor, e entendeu que, fosse o que fosse aquela sensação, era apenas sua: ninguém mais a percebia e, portanto, só ele poderia decifrá-la. Fechou os olhos, atendendo a um conselho vindo de algum lugar geralmente silencioso dentro de si: cheirou o ar, ouviu os sons da tarde, sentiu o vento suave contra as partes descobertas de seu corpo.

Então, decidiu-se. Andou em passos rápidos, sem saber para onde, sem calcular, movido apenas pelo impulso e pela urgência. Atravessou a rua, dobrou a esquina, viu uma porta, entrou. Demorou alguns segundos para perceber onde estava; não era um lugar extraordinário à primeira vista, e por algum tempo não conseguiu notar nada de especial à sua volta. Então, em um súbito raio de consciência, a Mão o tocou uma vez mais; o Homem voltou-se rápido, e então ele viu. Teve medo, mas respirou fundo, sustentando o olhar, deixando até escapar algo próximo a um sorriso de satisfação. A Perspectiva diante de si, porém, não devolveu o sorriso. Sem grosseria, mas com firmeza, agarrou o Homem pelo braço e apenas disse: vamos lá, mexa-se, estamos perdendo tempo.

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